Isolamento acústico de estúdios exige projeto e profissionais especializados

Da localização das salas aos materiais e soluções técnicas empregados na sua construção, esses ambientes estão entre os mais críticos. O conceito de box in a box é determinante para o bom resultado acústico

Publicado em: 12/12/2018Atualizado em: 02/02/2024

Texto: Vinícius Veloso

Isolamento de estúdios deve impedir a entrada e a saída de ruídos (Crédito: shutterstock.com / OSABEE)

Estúdios de gravação devem ser completamente protegidos contra os ruídos de fundo vindos do exterior. Se captados pelos microfones, podem atrapalhar os trabalhos. Ao mesmo tempo, esses espaços geram elevados níveis sonoros, que podem incomodar a vizinhança. Atender às duas condições exige expertise em isolamento acústico, o que começa na fase do projeto de arquitetura.

“A primeira preocupação é com a localização. A escolha de um local ruidoso implica em um gasto enorme com isolamento acústico. São recomendados locais afastados da rua, de linhas de trem e fora de rotas de aviões e helicópteros. Às vezes, até o próprio edifício pode ser utilizado para proteger o estúdio, ao ser construído em áreas semi-enterradas”, orienta o arquiteto Marcos Holtz, sócio-diretor da Harmonia Acústica – Davi Akkerman + Holtz.

Segundo o engenheiro de acústica Juan Frias, sócio-diretor da Bracústica, a escolha do local pode se configurar num dos erros mais frequentes na construção de estúdios. “Estúdio como atividade econômica não pode estar sujeito a problemas acústicos. A correta escolha do local, afastado de fonte de ruído e ambientes sensíveis, economiza muitas dores de cabeça posteriores que podem até inviabilizar o projeto”, afirma.

Frias destaca que as dimensões dos ambientes são aspectos críticos, já que as soluções adequadas de isolamento e condicionamento acústico podem ultrapassar entre 50 e 80 cm de espessura. “Ao escolher o local, devemos considerar a área que perderemos com as soluções de paredes, de pé-direito e de pisos e forros”, observa.

O tamanho e a geometria das salas de gravação são determinantes, por outros aspectos que Holtz explica: “Salas pequenas ou com dimensões múltiplas entre si são, em geral, problemáticas para reprodução de baixas frequências. Nestes casos, pouco se pode fazer alterando revestimentos, mas é preciso alterar proporções, ou até mesmo o aumento do tamanho das salas”, recomenda.

MATERIAIS

Antes de definir os materiais que serão utilizados, é preciso considerar o isolamento acústico a partir do conceito de box in a box (caixa dentro de caixa). “Trata-se de construir uma caixa interna composta de pisos flutuantes, paredes duplas e tetos suspensos desacoplados estruturalmente das paredes e lajes do ambiente”, explica Frias.

Segundo ele, essas soluções de isolamento demandam grandes cavidades (câmaras) e pesos, especialmente para o isolamento da baixa frequência (frequências mais graves). Soluções típicas são contraparedes e forros suspensos de drywall, com suportes antivibratórios e alvenarias estruturais preenchidas com grout (argamassa de elevada resistência mecânica).

“Depois, é preciso pensar no condicionamento acústico, que são os acabamentos finais das paredes para diminuir a reverberação, favorecer a distribuição homogênea do som e evitar a coloração tonal – termo empregado para definir quando algumas frequências sonoras são realçadas em relação a outras”, lembra Frias.

Estúdio como atividade econômica não pode estar sujeito a problemas acústicos
Juan Frias

Os materiais que ele indica são os fonoabsorventes. Ou seja, é preciso considerar que determinada frequência pode ser quase totalmente absorvida por material com espessura de 30 mm. Já um som grave pode precisar de mais de dez vezes essa espessura, cerca de 300 mm, para ser absorvido na mesma proporção.

Frias exemplifica: “Se revestimos um estúdio com material fino, vamos abafar quase totalmente os agudos, enquanto que os graves não sofrerão quase nenhuma atenuação, o que produzirá um som desbalanceado”. Em casos assim, o técnico de som escutará a música sem agudos, tendendo a realçá-los de forma excessiva na mixagem para compensar a deficiência da sala. Depois, quando ouvida fora do estúdio, a mixagem será percebida como estridente.

Quesito igualmente importante além da absorção é o espalhamento uniforme do som no estúdio. “Para isso, é recomendável quebrar o paralelismo entre paredes e entre piso e teto, assim como a colocação de elementos irregulares chamados difusores acústicos, que podem ser criados especificamente ou com objetos como estantes, decoração, entre outros”, completa Juan Frias.

Para Márcio Holtz, os materiais ideais dependem do uso do estúdio. “Som acústico ou amplificado necessita de salas diferentes. Nas salas de gravação, o tempo de reverberação deve ser controlado, evitando salas muito vivas ou muito secas. Painéis de difusão acústica são bem-vindos por tornarem o campo sonoro dentro das salas mais uniforme”, ensina.

Ele observa que, em algumas situações, os graves podem ser problemáticos, o que pode ser resolvido com a instalação de bass traps (painéis acústicos) nos cantos da sala. “E em caso de paredes paralelas, é necessário o uso de difusores acústicos, para evitar problemas como o eco palpitante”, diz Holtz.

O uso de espumas acústicas em estúdios deve ser feito com cautela, segundo o arquiteto. “O material funciona como um medicamento: a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. A quantidade de material fonoabsorvente deve ser realmente calculada para bons resultados”, ressalta. Juan Frias chama a atenção para o fato de que as espumas têm função de revestimento para o condicionamento acústico de estúdios.

Todos os pontos de comunicação entre salas devem ser vedados. Além disso, é preciso adotar cuidados especiais com os desacopladores resilientes que, se instalados de forma inadequada, perdem muito da eficiência
Marcos Holtz 

“No entanto, é preciso compatibilizar com cada caso a absorção sonora do material, em função da frequência do tipo de produto”, diz o engenheiro, explicando que o coeficiente de absorção depende da espessura e pode ser alterado dependendo da existência de separação entre a espuma e a parede. Além disso, o material deve atender aos requisitos de resistência a incêndio e de durabilidade, caso usado em lugares expostos.

Os especialistas ressaltam que alguns materiais devem ser evitados nesse tipo de projeto. De acordo com Frias, não devem ser utilizados os produtos que não atendam às normas de salubridade e segurança. E mais, os materiais que não disponham de informação sobre seu desempenho acústico ou se anunciam como ‘produtos milagre’.

“Um estúdio de gravação constitui um dos ambientes mais críticos do ponto de vista acústico. Da mesma forma que não vamos ganhar as 24 horas de Le Mans de bicicleta, também não vamos conseguir fazer um estúdio junto a uma ferrovia ou do lado de uma residência colando caixa de ovo na parede”, compara. Holtz complementa, lembrando que o carpete também não é opção, pois absorve somente frequências muito altas, podendo criar desequilíbrios, tornando o som da sala abafado.

PISO E VÃOS

O bom projeto de isolamento acústico de estúdios deve evitar que, através do piso, o som se transmita a outros ambientes e, também, que a sala receba ruídos e vibrações. “Portanto, é requisito imprescindível a instalação de um piso ou laje flutuante, que consiste em um sistema de piso apoiado sobre um elemento elástico. Nos casos mais críticos, esse piso deverá ser instalado sobre apoios de mola de aço e, em outros, sobre pads elastoméricos ou de borracha. Nos casos mais simples, pode estar sobre mantas para isolamento de pisos”, recomenda Frias.

Holtz defende que o ideal é o conceito de box in a box, com pisos, paredes e tetos desacoplados estruturalmente do restante do edifício. “Isto pode ser feito através da utilização de apoios e/ou acessórios resilientes específicos para este uso. Nesse caso, um piso flutuante deve ser considerado”, diz.

Portas e janelas são desafios à parte, afinal, quanto menos frestas melhor. “Porém, sempre que for necessário, deve-se empregar portas acústicas de elevado desempenho, com antecâmaras acústicas e janelas ou visores com vidros duplos laminados com espaçamento generoso”, receita Frias. Holtz concorda e lembra que adaptações em portas e janelas comuns não são recomendadas, pois em geral são pouco efetivas.

EXECUÇÃO

A execução pede cuidados para atingir o desempenho definido em projeto. De acordo com o engenheiro Juan Frias, é fundamental ter um projeto detalhado e que o projetista seja consultado mediante qualquer alteração ocorrida durante a obra. “É muito importante que todos os elementos desacoplados estruturalmente no projeto sejam executados da forma correta”, diz ele, comentando que é importante contar com instalador especializado e profissional de acústica para o acompanhamento da obra.

Holtz destaca que a execução deve respeitar o esquadro e evitar frestas, utilizando portas e visores adequados. “Todos os pontos de comunicação entre salas devem ser vedados. Além disso, é preciso adotar cuidados especiais com os desacopladores resilientes que, se instalados de forma inadequada, perdem muito da eficiência”, diz.

A equipe de execução do projeto deve atentar para as instalações de elétrica e de ar-condicionado, entre outras. Elas podem ser fontes de ruído, possuir passagens ou interferências nas soluções de isolamento acústico, comprometendo totalmente o seu desempenho, caso executadas da forma errada.

NOVIDADES

Frias constata que a era digital imprimiu grande evolução nos equipamentos de gravação, nas últimas décadas, reduzindo seus custos e tamanhos. Por outro lado, as soluções de isolamento e condicionamento acústico para estúdios permanecem muito semelhantes às utilizadas 50 anos atrás. “A parede para isolamento acústico do estúdio permanece a mesma, com mesmo custo e espessura”, relata.

Ele lembra, porém, que isso não quer dizer que não existam cada vez mais produtos específicos comercializados para estúdios, que antes tinham que ser desenvolvidos quase de forma artesanal. Holtz complementa contando que estão sendo desenvolvidos muitos acessórios para isolamento acústico, que facilitam o desacoplamento e podem ser executados de maneira rápida e fácil.

“Existem também novos materiais de vedação, como espumas expansivas de alta densidade, para vedação de caixas/eletrodutos que poderiam comunicar as salas. Pode-se inclusive utilizar difusores/absorvedores impressos em impressoras 3D”, conclui o arquiteto.

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Colaboração técnica

Juan Frias  – Engenheiro de acústica pela Universidade Politécnica de Madri (Espanha). Foi gerente da Associação Espanhola para a Qualidade Acústica (AECOR) entre 2006 e 2011 e colaborou na redação do DB-HR (Documento Básico de Habitabilidade - Ruído) do Código Técnico da Edificação (norma de desempenho espanhola). Durante essa etapa, foi Coordenador do Comitê Técnico de Normalização 74 de Acústica de AENOR e membro do CTN 196 de Edificação Sustentável. Participou do Projeto Cost de Harmonização de Critérios Acústicos na Edificação Europeia. É coordenador do Comitê Acústica nas Edificações da Associação ProAcústica e sócio-diretor da Bracústica.
Marcos Holtz  – Arquiteto e urbanista, mestre em acústica pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). É sócio-diretor da Harmonia Acústica – Davi Akkerman + Holtz, consultoria que reúne em seu portfólio obras de destaque da arquitetura nacional. Participou como autor de cerca de 500 projetos de acústica, incluindo acústica ambiental, de edifícios e de salas. É Coordenador da Comissão Acústica Ambiental da ProAcústica.