Banner AECweb
menu-iconPortal AECweb

Materiais para revestimentos de fachadas, uma escolha criteriosa

Especialista no assunto, Jonas Silvestre Medeiros fala sobre os materiais e o equilíbrio entre função e estética

Publicado em: 08/04/2009

Texto: Redação AECweb

Materiais para revestimentos de fachadas, uma escolha criteriosa

Redação AECweb


Pioneiro entre os engenheiros projetistas de revestimento de fachadas, Jonas Silvestre Medeiros, fala sobre os materiais que revestem as fachadas das edificações. Nesta entrevista ao AECweb, o diretor técnico da Inovatec Consultores recomenda aos arquitetos equilíbrio entre a função e a estética. E lembra que vários fatores influenciam a escolha do material, como custo, clima, cultura e necessidades locais. A especificação deve considerar um ‘mix’ de exigências e orientação especializada.

AECweb - Quais os principais revestimentos de fachadas utilizados no país?
Medeiros -
Os revestimentos de fachada são nominados normalmente pelo material em sua camada mais externa, cuja função também é decorativa. Assim, temos as pinturas, as texturas poliméricas, as argamassas decorativas, as placas cerâmicas e as placas de rocha. Na cidade de São Paulo, provavelmente, esta é a ordem de preferência de uso, mas desconheço estatísticas precisas a este respeito. Em outras cidades brasileiras, o tipo de revestimento pode ser bem diferente. Nas cidades do litoral nordestino, Belo Horizonte e Curitiba, por exemplo, há preferência pelo cerâmico e pela placas de rocha.

AECweb - Quais os aspectos que influenciam essas escolhas: clima, cultura, razões técnicas e econômicas, durabilidade?
Medeiros -
O mercado da construção define o uso de acordo com as tendências arquitetônicas. Esta definição considera a cultura e necessidades locais, ainda que de uma maneira informal. O custo do material aplicado e preço de venda dos imóveis são fatores determinantes. A cultura de usar um ou outro revestimento é claramente influenciada pelo clima e pela durabilidade esperada. O tipo de construção também é determinante na escolha. Assim, nós projetamos um hotel na orla marítima de Natal (RN), que foi revestido com argamassa e pintura, quando se esperava que fosse utilizar revestimento com cerâmica, por exemplo. Por outro lado, pode ter um edifício público revestido com cerâmica no centro oeste. Se o parâmetro fosse apenas o clima ou a durabilidade do revestimento, estas escolhas não seriam lógicas.

AECweb - Um bom material de revestimento para São Paulo ou Brasília tem o mesmo desempenho no litoral?

Medeiros - 
O conceito de ‘bom’ é muito genérico, como expliquei antes. O bom para o dono do hotel pode não ser bom para a construtora que vai comercializar um condomínio residencial, mesmo sendo na mesma região. No caso, foi determinante o fato de o hotel ser operado pela rede proprietária e ter a manutenção sob seu controle, repintando a fachada a cada temporada. Já o desempenho diz respeito ao material aplicado e em uso, e não pode ser analisado sem que estas condições de utilização estejam definidas. Quanto à durabilidade - um dos itens do desempenho de um revestimento aplicado e em uso - de uma determinada solução em pintura texturizada, por exemplo, eu diria que a atmosfera em São Paulo é mais agressiva que em Brasília. E mais: no litoral, devido a ação da névoa salina e maior insolação direta, a agressividade seria ainda maior e, possivelmente e em termos gerais, a durabilidade seria menor.

AECweb - É possível dizer que há materiais de melhor desempenho e vida útil do que outros?
Medeiros - Apenas se as condições forem claramente definidas e se estabelecer uma maneira uniforme de determinar a vida útil. Isso inclui definir, ainda, se estamos tratando da vida útil de projeto - quanto tempo se espera que dure sob determinadas condições de uso e manutenção pré-estabelecidas -, ou econômica - quanto tempo se espera que mantenha seu valor intrínseco e contribui na valorização do imóvel.

AECweb - Como casar função e estética do revestimento de fachadas?
Medeiros -
O arquiteto da edificação deve, necessariamente, ponderar as variáveis envolvidas com vistas a atender seu cliente e os critérios técnicos pertinentes. O ideal é sempre compor um equilíbrio entre os requisitos, sejam eles mais técnicos ou puramente estéticos. A estética é sempre uma função importante da fachada.

Materiais para revestimentos de fachadas, uma escolha criteriosa

AECweb - O revestimento de fachadas colabora com o isolamento térmico de uma edificação?
Medeiros - Sim, e de modo decisivo, principalmente em edificações verticais onde a área da cobertura exerce menor influência. Um dos benefícios que viabiliza o uso das fachadas ventiladas, por exemplo, é o fato de apresentar desempenho térmico que se reflete na economia de energia necessária à climatização. No caso das fachadas aderidas, sobre as quais raciocinamos até agora, a espessura do emboço de argamassa que serve de base para pinturas, texturas, argamassas decorativas e cerâmica, tem um papel decisivo no isolamento térmico e, por isso, não deve ser simplesmente dispensada sem uma análise mais cuidadosa do seu papel.

AECweb - Qual os critérios que o especificador deve ter no momento de escolher o revestimento de fachadas?
Medeiros - Deve considerar as variáveis que serão determinantes na seleção técnica do material, e não apenas na questão estética. Recomendo montar uma matriz de decisão, usar ponderação diferenciada para os critérios mais importantes e procurar somar a experiência de especialistas de diferentes áreas como assistência técnica e manutenção; projetos; execução; planejamento e custos; marketing; e vendas.

AECweb - Comente a relação custo-benefício de materiais como a cerâmica, pastilha, pintura e textura - incluindo o aspecto da manutenção.
Medeiros - Eu nasci em uma região do litoral brasileiro, onde até casas térreas costumam ser revestidas com cerâmica. Meu pai, um cidadão de classe média baixa, não hesitou em investir suas economias para fazer isso. Até o muro de divisa foi revestido e, segundo ele próprio, foi o dinheiro mais bem empregado desde que a casa foi construída a 45 anos atrás. Esta história curta pode dar idéia de como custo e benefício são ponderados na prática por pessoas comuns.

AECweb - Edifícios corporativos viveram a febre dos painéis em ACM. Quais as vantagens e problemas desse material?
Medeiros -
Estes painéis transmitem a imagem que as corporações desejam passar à sociedade. Como o vidro e o aço, o alumínio tem largo uso em edificações institucionais. Além disso, eles são montados e não construídos no local, como os revestimentos aderidos tradicionais. Isso já transforma o modo como são encarados pelos construtores que preferem, por razões de facilidade construtiva e segurança, soluções na forma de sistemas industrializados. O ACM tem, ainda, a vantagem de ser muito leve, o que se reflete na sua subestrutura de sustentação e alívio na sobrecarga do edifício. Por outro lado, não é uma solução que resolve a vedação vertical do edifício e há necessidade de outra vedação interna, como paredes de alvenaria ou divisórias.

AECweb - Quais as melhores soluções quando se deseja adotar materiais sustentáveis?
Medeiros - Considero as fachadas ventiladas com cerâmica extrudada uma solução muito eficiente neste sentido. Elas têm forte apelo estético e são, ao mesmo tempo, duráveis e colaboram diretamente para a eficiência energética dos edifícios. Há fabricantes que produzem painéis em que boa parte da matéria-prima é reciclável e livre de agentes voláteis. A estrutura é de alumínio, também, um material que pode ser reaproveitado. Além disso, alguns sistemas podem ser simplesmente desmontados ou substituídos, praticamente sem gerar desperdícios.

Jonas Silvestre Medeiros

Engenheiro civil pela Universidade Federal da Paraíba, mestre e doutor em Engenharia de Construção Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Jonas foi professor e pesquisador da USP e vem atuando no desenvolvimento de tecnologias para a construção desde 1988.

Dentre outros trabalhos, coordenou a pesquisa que instituiu o uso de telas metálicas para ancoragem de alvenarias, hoje utilizadas em todo o Brasil. Estudou Concrete Masonry Technology nos USA para completar sua dissertação de mestrado sobre Alvenaria Estrutural. Sua tese de doutorado sobre Projeto e Execução de Revestimentos de Fachada e os trabalhos desenvolvidos a partir dela tiveram repercussão internacional e o levaram a ser membro do comitê técnico do Qualicer – Congresso Mundial da Qualidade do Revestimento Cerâmico, que se realiza na Espanha desde 1998. Atualmente é diretor técnico da Inovatec Consultores , empresa de consultoria e projetos de engenharia de construção e professor da pós-graduação lato sensu da UFSCar.