Muro de arrimo: projeto exige estudo do solo

Solo mole ou localização próxima a pontos com grande acúmulo ou surgência de água influenciam no tipo de muro que deve ser construído para atingir a contenção desejada

Publicado em: 01/08/2014Atualizado em: 31/03/2023

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Muros de arrimo

O muro de arrimo é usado para superar os aclives ou declives, e tem a função de contenção. Diferentemente dos taludes, não precisa de uma grande área para ser edificado.
Tanto a especificação, quanto a construção de um muro de arrimo dependem diretamente da resistência disponível do solo. Características do terreno, como solo mole ou ainda localização próxima a pontos com grande acúmulo ou surgência de água, influenciam no tipo de muro que deve ser construído para atingir a contenção desejada.

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“O solo tem diferentes propriedades mecânicas que variam em função de sua compacidade, textura e grau de umidade, o que torna mais complexas as análises de estabilidade da encosta e suas respectivas soluções”, ressalta Paulo César Belesso Ferretti, coordenador de Marketing da Maccaferri América Latina.

PROJETO

Para determinar a necessidade de construir um muro de arrimo é preciso estudar a topografia, que serve de matéria-prima para o engenheiro por trazer informações sobre as condições de terreno. “Esse levantamento traz as definições da geometria da área sem o início das obras. Em seguida, é necessário desenvolver um projeto de implantação que define quais desníveis deverão ser vencidos pela contenção e a necessidade da criação de taludes e bermas de equilíbrio”, diz Ferretti. Em alguns casos, pode ser interessante optar pelo muro misto, que tem sua altura complementada com o talude – o que minimiza o custo total da contenção.

MURO DE ARRIMO X TALUDES

Há ocasiões onde o desnível do terreno pode ser vencido através de talude natural. Mas, para isso, é necessário que sejam realizados cálculos de estabilidade. Também é preciso verificar os parâmetros de resistência do material de aterro. “Tanto o muro de arrimo quanto os taludes precisam passar pelo crivo de um engenheiro civil geotécnico, para comprovação da estabilidade da estrutura”, destaca o especialista.

Após esses primeiros estudos, as informações são encaminhadas ao projetista geotécnico que define quais alternativas mais adequadas para a situação. “Esse profissional deve determinar qual o melhor tipo de contenção em função da geometria do terreno e da prospecção do subsolo, que é feita geralmente com sondagem do tipo SPT e, às vezes, exige ensaios mais específicos ou minuciosos. Podem ser feitos também estudos de alternativas, em que o projetista elabora diferentes soluções para certa obra. Depois, a avaliação de custo irá apontar qual é a opção que mais se adequa em função do preço final”, detalha o engenheiro.

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COMO FAZER

O projetista geotécnico também tem a função de avaliar a estabilidade externa e interna da contenção e se a fundação é competente para suportar a carga aplicada do muro, sendo que em alguns casos é necessário reforço de fundação. Após a etapa de análises, é definido o projeto executivo e são liberadas as obras que geralmente se iniciam com a terraplenagem. A execução acontece de diferentes maneiras, dependendo de qual solução foi escolhida.

MATERIAIS

Para construção do muro, alguns tipos de materiais podem ser empregados como o concreto, aço, reforços metálicos e sintéticos, e agregados naturais.

“Há inúmeras soluções passíveis de serem aplicadas e, em determinadas situações, a mistura desses materiais acontece para atingir o melhor resultado. Por exemplo, em grandes muros existem soluções em solo reforçado, mais indicado para muros de aterro, e os muros de solo grampeado e cortinas atirantadas, mais indicados para muros em corte”, afirma Ferretti.

Atualmente, é comum em grandes projetos de implantações industriais surgir a necessidade de um muro de arrimo circundando toda a área da edificação, quando a saia do aterro invade alguma área de preservação permanente, as APPs. “Na definição da contenção desse aterro é possível verificar se o muro estará em contato com áreas de preservação e definir qual o melhor tipo de solução de contenção que promova a menor agressão possível ao meio ambiente, como os muros com agregados naturais e reforços sintéticos, que dispensam o uso do concreto tradicional e tornam a obra mais sustentável”, complementa.

NORMA TÉCNICA

A norma ABNT NBR 11682 - Estabilidade de encostas - incorpora alguns critérios para a avaliação do muro de arrimo. “Quando se fala em encostas, tem-se o talude e o muro de arrimo, que devem ter suas estabilidades verificadas. Essa norma contempla quais devem ser os fatores de segurança mínimos, dentre os quais estão os critérios para pressão da fundação, deslizamento, tombamento e ruptura global, que são as análises mínimas necessárias para a estrutura de contenção. Entretanto, algumas outras técnicas de muros necessitam de análises e verificações complementares”, diz o especialista.

PROBLEMAS E SOLUÇÕES

No mercado, existem empresas que fazem o trabalho de reestrutura, que nada mais é do que a redefinição estrutural de um muro que está com problemas. “Em geral, eles acontecem ou por equívocos de projeto, ou pelo surgimento de falha geológica, que pode ser causada por sobrecarga não prevista inicialmente em projeto. Ocorrem, ainda, pela presença de vertentes de água que não constavam no projeto. Uma situação bastante comum é a venda de uma área onde já exista muro de arrimo e o novo proprietário decide mudar completamente a geometria ou utilização do terreno, o que pode aumentar o carregamento sobre a estrutura, que começará a apresentar problemas. Quando é feita a análise, chega-se a conclusão de que aquele muro não foi especificado para suportar toda essa nova carga, seja de incremento de solo ou de carregamento externo”, exemplifica o engenheiro.


Quando se trata do muro de arrimo sempre se trabalha com a questão do solo (...) Cada local possui suas características particulares, o que interfere diretamente na elaboração do projeto e da solução do muro de arrimo
Paulo César Ferretti

Nesses casos, o perito geotécnico tem que avaliar a situação e elaborar um laudo mostrando quais os fatores que estão impactando na patologia estrutural. A partir desse estudo, é possível tomar ações que vão desde intervenções mecânicas de aumento da resistência do muro, até uma reconstrução total. “Em geral, os aterros começam a mostrar problemas de ruptura antes do muro. Hoje, a grande maioria dos muros de arrimo é feita de concreto, por uma questão cultural do engenheiro civil. O concreto tem suas vantagens e desvantagens, é um material com boa resistência mecânica de compressão, mas é péssimo de resistência à tração. Quando recebe uma sobrecarga além daquela para qual foi projetado, pode sofrer ruptura imediata. Com isso, surgem trincas na parte superior do talude, além de rachaduras na estrutura. Esse é um sinal de que é necessário algum tipo de intervenção, já que em caso de problemas o muro de concreto pode ceder rapidamente, sem possibilitar qualquer tipo de ação para reverter a situação”, alerta Ferretti.

Outras estruturas têm a capacidade de evitar que o muro venha a se romper de forma abrupta quando o solo começa a se movimentar. São as chamadas estruturas flexíveis que permitem a absorção de deformações e, em casos extremos, realizam a intervenção antes do colapso da estrutura.

É BOM SABERDe acordo com Ferretti existe uma carência de profissionais que atuam na área de contenção, pois muitas vezes o muro de arrimo não é encarado com seriedade. “Com isso, as contenções acabam não contando com projeto executivo detalhado e mão de obra qualificada, sendo executadas por profissionais não preparados. Para que não haja problemas, o projeto tem que passar pelo crivo de um engenheiro ou empresa previamente habilitados”, finaliza Ferretti.

Colaborou para esta matéria

Claudio Dall'Acqua
Paulo César Belesso Ferretti  – engenheiro civil graduado pela Faculdade Politécnica de Jundiaí – Anhanguera Educacional, possui extensão universitária na área de Geossintéticos em obras civis e ambientais na USP – Escola de Engenharia de São Carlos – Departamento de Geotecnia. Trabalhou mais de 10 anos no desenvolvimento de estudos de viabilidade técnica nas áreas de geotecnia, com projetos de contenções, aterros e implantações industriais, hidráulica com contenção e revestimento de margens e proteção ambiental com uso de gabiões, estruturas em solo reforçado e geossintéticos, junto ao Departamento Técnico América Latina. Atualmente é coordenador de Marketing para Maccaferri América Latina.