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NBR 16445 detalha ensaio para verificar a presença de bactérias em tintas

Publicada em maio, norma foi criada para nortear o procedimento da indústria quando o consumidor encontra mercadoria possivelmente contaminada

Publicado em: 30/06/2016Atualizado em: 20/08/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Microbiologia das tintasNão existem bactérias que contaminem exclusivamente tintas. Esses microrganismos são encontrados no ambiente e degradam ou vivem em associação com compostos orgânicos (Foto: Scanrail1 / shutterstock.com)

As tintas podem se tornar um ambiente propício ao desenvolvimento de fungos e bactérias, já que, em sua composição, existem materiais orgânicos. Os microrganismos indesejados utilizam o carbono como fonte de energia para crescer e se multiplicar, e esse elemento químico faz parte da fórmula das emulsões e da celulose, duas substâncias empregadas na fabricação das tintas.

Para evitar a contaminação das tintas, são adicionados a elas preservantes (biocidas). Além disso, existem normas técnicas que detalham os procedimentos e ensaios que devem ser realizados pela indústria para auxiliar no desenvolvimento e no controle microbiológico dos produtos. A norma técnica é designada como ABNT NBR 16445 - Tintas para construção civil - Método para avaliação de desempenho de tintas para edificações não industriais - Detecção de bactérias redutoras de sulfato em tintas, vernizes e complementos. Ela foi criada para nortear o procedimento da indústria quando o consumidor encontra mercadoria possivelmente contaminada.

CONTROLE DE BACTÉRIAS

A ABNT NBR 16445 regulamenta o processo de verificação da presença ou não de bactérias redutoras de sulfatos (BRS) em amostras de tintas
Ronaldo Maximo Carrasco 

“A norma regulamenta o processo de verificação da presença ou não de bactérias redutoras de sulfato (BRS) em amostras de tintas”, explica Ronaldo Carrasco, membro do CB 164 – Comitê de Tintas. Esse tipo de microrganismo é anaeróbio – não necessita de oxigênio para viver – e transforma o sulfato em gás sulfídrico, que tem odor forte. O ‘cheiro de ovo podre’ facilita a sua identificação pelo consumidor, que percebe quando há contaminação na tinta.

Há, ainda, outros indícios: “Microrganismos também podem causar oxidação no interior da lata, alteração de cor e separação de fases da tinta. Contaminada, dificilmente poderá ser usada”, completa. Ao perceber que o material não está em suas condições normais, o consumidor precisa informar o problema ao fabricante.

As empresas armazenam amostras de todos os lotes produzidos e enviados ao mercado. Em caso de reclamações, os exemplares correspondentes são analisados para buscar o que há de errado. “Os testes são feitos tanto na amostra enviada pelo cliente quanto no lote armazenado. Se as bactérias se desenvolvem em ambos, pode ser um indicativo de que todo o lote está comprometido. Porém, se o desenvolvimento acontece somente na amostra reclamada, é provável que tenha havido armazenagem inadequada, diluição com uso de água contaminada ou armazenamento por período prolongado após diluição, entre outras possibilidades”, detalha Carrasco.

Não existem bactérias que contaminem exclusivamente tintas. Esses microrganismos são encontrados no ambiente e degradam ou vivem em associação com compostos orgânicos. Como destaca o especialista: “A contaminação pode ser causada, por exemplo, quando é usada água contaminada para fabricação do produto. A origem do microrganismo sempre tem explicação, por isso é preciso ter cuidado não somente com o tratamento da água, mas também com todos os demais componentes”.

As tintas apresentam duas fases. A primeira é a líquida, quando o produto ainda está dentro da lata. Após a aplicação, o produto entra em sua fase de película seca. Quando ainda está líquida, o risco maior é o da proliferação de bactérias e, mais raramente, ataques de fungos, principalmente as leveduras. “São diversos os tipos de bactérias que podem contaminar a tinta, mas, geralmente, são as do gênero Pseudomonas, comuns em ambientes aquáticos, ou as bactérias redutoras de sulfato (BRS)”, diz Carrasco.

DETALHES DA NORMA

A norma indica alguns tipos de fungos e bactérias, mas é possível adequar o ensaio para cada realidade
Ronaldo Maximo Carrasco 

A ABNT NBR 16445 regulamenta os ensaios que detectam a presença das BRS nas tintas, nos vernizes e nos complementos e é específica para o produto pronto. No processo de desenvolvimento imperam outras normas, como a ABNT NBR 15821 - Tintas para construção civil - Método para avaliação de desempenho de tintas para edificações não industriais - Determinação do grau de resistência de tintas, vernizes e complementos, em emulsão na embalagem ao ataque de microrganismos. “Essa norma detalha a realização do challenge, que é um método de desafio ao produto, inoculando em sua composição concentrações de microrganismos”, diz.

Para realizar o challenge, o fabricante colhe amostras de um produto que ainda não foi testado, sem qualquer informação sobre sua resistência em relação ao ataque de microrganismos. No ensaio, são inseridos na tinta tipos pré-determinados de bactérias e/ou fungos. Passado o tempo de adaptação e reprodução dos seres vivos, a amostra é diluída, e verificado o quanto a tinta conseguiu reduzir a concentração de microrganismos em relação à quantidade inicialmente aplicada.

“A norma indica alguns tipos de fungos e bactérias, mas é possível adequar o ensaio para cada realidade. Por exemplo, o fabricante pode usar determinada bactéria que já contaminou um de seus produtos e não aquelas descritas na norma”, afirma Carrasco. Quando um produto é desenvolvido, ele sempre passa pelo challenge, que verifica se não haverá contaminação da tinta ao longo de todo o seu ciclo de vida. Pode ser que, na fabricação, a quantidade de microrganismos seja pequena, mas durante o período de armazenagem acabam se reproduzindo e, no momento de aplicação, seu uso já esteja inviável.

“Pode ser que, no challenge, sejam usadas bactérias redutoras de sulfato (BRS), e o ensaio indique que não há problemas. Após o lançamento da tinta, surgem reclamações do mercado sobre a presença de BRS no produto. O fabricante recolhe essa amostra reclamada e aplica a análise de determinação da presença. Esse ensaio não está relacionado ao desenvolvimento, mas sim à detecção da presença ou não desse tipo de microrganismo”, explica Carrasco, lembrando que nem todas as indústrias de tintas contam com laboratórios de microbiologia. “Quando acontecem esses problemas e não há onde realizar os testes, a amostra é encaminhada ao fornecedor de biocida ou laboratórios terceirizados”, finaliza.

Colaboração técnica

Gustavo Horn
Ronaldo Maximo Carrasco – Formado como Técnico Químico pelo SENAI Mario Amato SBC; cursou Ciências Biológicas na Universidade do Grande ABC (UNIABC) e pós-graduação em Microbiologia Industrial na Sociedade Brasileira de Microbiologia (SBM). Trabalha com tintas há 18 anos e, há seis, com microbiologia.