Norberto Odebrecht: o homem por trás de um império

Morto aos 93 anos, o presidente de honra da Organização Odebrecht era o patriarca de um dos mais poderosos grupos do Brasil, com cerca de 200.000 funcionários e presença em 23 países

Publicado em: 04/08/2014

Texto: Redação PE

A Odebrecht é, sem dúvida, um dos mais importantes grupos empresariais do país, senão do mundo. No dia 19 de julho, morreu Norberto Odebrecht, seu presidente de honra, levando consigo parte da história viva da multinacional brasileira.

Sua família, de origem germânica, havia imigrado para o Brasil em 1856, mais especificamente para a região do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Emílio, da segunda geração dos Odebrecht e pai de Norberto, foi o responsável pela construção de diversos edifícios na região Nordeste.

Em 1941, o jovem estudante de engenharia de 21 anos herdou uma empresa falida, a Emílio Odebrecht & Cia, que não resistiu às mudanças ocasionadas pela Segunda Guerra, que provocaram alta no preço dos materiais de construção, como cimento, ferro e louças – na época, quase tudo era importado da Europa. Norberto se dividia entre as aulas na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a administração da empresa.

Saindo da universidade em 1943, ele funda, no ano seguinte, a Norberto Odebrecht, depois de negociar as dívidas da empresa do pai. É na década de 40 que a companhia inicia suas primeiras obras na Bahia. Em 1953, dá um grande passo e se alia à Petrobras na construção do oleoduto Catu-Candeias, para o transporte de óleo da Refinaria de Mataripe, uma parceria que se repetiria ainda outras vezes. Em 1957, outra obra-ícone: o Teatro Castro Alves, que foi destruído por um incêndio no dia da sua inauguração e foi então reconstruído pela construtora, em 1967.

Internacionalização

"Por melhor que tenham sido os resultados, é preciso superá-los, hoje, amanhã e sempre”

A jornalista Eleonora de Lucena escreveu o seguinte no obituário de Norberto Odebrecht publicado no jornal Folha de S.Paulo: “Nessa trajetória, o fundador ficou quase 50 anos à frente da companhia. Sempre muito próximo de governos, passou por crises políticas e econômicas, denúncias de corrupção, erros e acertos de gestão”.

Entre os anos 60 e 70 se concentrou uma das maiores fases de expansão da empresa, com a instalação de filiais no Nordeste e a realização de obras importantes no Sudeste, como o edifício-sede da Petrobras, o câmpus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Usina Termonuclear de Angra dos Reis e o Aeroporto Internacional do Galeão.

“Tirou proveito do período de crescimento na ditadura e das privatizações na redemocratização. Com aquisições, entrou no clube dos empreiteiros pesados – os ‘barrageiros’, que fizeram as grandes usinas no ‘milagre brasileiro’. Rumou para o exterior quando as obras minguaram no país e diversificou os negócios”, completou a diretora executiva do jornal.

A partir do fim dos anos 70, além da diversificação dos negócios, a empresa passou a marcar presença no exterior, com contratos no Peru, Chile, Angola, Argentina, Equador e Portugal. Em 1985, cerca de 30% dos contratos da Odebrecht eram assinados no exterior. Em 1991, veio a primeira obra pública nos Estados Unidos. Na mesma década, a construtora continuou expandindo os negócios para países como Colômbia, México e Venezuela.

Da Bahia para o mundo, a Odebrecht se transformou em uma holding com negócios nas áreas de construção civil, petroquímica, mineração, açúcar, álcool, serviços, defesa.

Lições para o setor

Norberto nasceu em 9 de dezembro de 1920, no Recife, quando o pai, Emílio, foi encarregado de acompanhar, naquela cidade, a construção da Ponte Maurício de Nassau. Passou a viver em Salvador quando tinha pouco mais de 5 anos. Aprendeu português apenas aos 12, já que toda a sua educação inicial aconteceu dentro de casa e em alemão.

Mesmo com boa situação econômica, Norberto sempre trabalhou. Das experiências de vida e profissional criou uma espécie de método de administração batizado de Tecnologia Empresarial Odebrecht, com uma série de princípios éticos e administrativos, e tendo como base o conceito de descentralização administrativa.

De personalidade forte, discutiu com o ditador Ernesto Geisel sobre dados do prédio da Petrobras que sua empresa construiu nos anos 70. O general o chamou, na ocasião, de “nordestino malcriado”.

Considerado um homem simples, nunca foi de badalações. Em 1998, deixou a presidência do conselho de administração do grupo e passou a cuidar de suas fazendas e de projetos ambientais no sul da Bahia.

“Por melhor que tenham sido os resultados, é preciso superá-los, hoje, amanhã e sempre”. A frase, cunhada pelo engenheiro, se transformaria em lema para o mundo empresarial.
Norberto deixa ao complexo mercado da construção civil uma série de lições e exemplos de superação, além do case da criação de uma das maiores e mais reconhecidas empresas brasileiras em todo o mundo.

Hoje, a Organização Odebrecht tem cerca de setenta anos, com atuação diversificada em quinze áreas, além de ter seu trabalho reconhecido nos campos social e ambiental por meio de sua fundação. Grande parte dessa caminhada de sucesso, sem dúvida, é fruto da determinação de Norberto.

Fontes: Fundação Odebrecht, Folha de S.Paulo