Novos projetos transformam a Avenida Paulista em polo cultural de São Paulo

A Japan House, inaugurada em maio, e os edifícios do Instituto Moreira Sales e do Sesc, em fase final de obras, ampliam a atratividade desse icônico logradouro paulista

Publicado em: 25/07/2017

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Ao longo de seus 2,7 km de extensão, a Avenida Paulista possui uma grande variedade de equipamentos culturais. Instituto Cervantes, Cinema Bristol, Conjunto Nacional, Museu de Arte de São Paulo (MASP), Instituto Cultural Citibank, Reserva Cultural, Itaú Cultural e Casa das Rosas são alguns deles.

Inaugurada no mês de maio, a Japan House trouxe ainda mais atratividade ao já prestigiado logradouro da cidade de São Paulo. Com programação voltada ao Japão contemporâneo no campo das artes, da tecnologia, dos negócios e do modo de se viver, o projeto contabilizou 190 mil visitantes nas oito primeiras semanas de atividade, demonstrando uma boa aceitação da sociedade para espaços culturais no local.

“Isso vai acontecer com todos os edifícios que se implantarem na Paulista. É um terreno extremamente fértil”, afirma Marcello Dantas, curador e diretor de programação da Japan House. Ele também admite que existe uma razão urbanística determinante para a implantação de novos empreendimentos na Avenida. "Ela é plana, o que a torna acessível linearmente, iguala e integra as pessoas, além de fazer com que a distância a ser vencida não tenha grandes obstáculos", argumenta.

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Vista aérea da Avenida Paulista, em São Paulo (Gustavo Frazao/ Shutterstock.com)

NOVOS PROJETOS

Além dos edifícios em operação, a iminente conclusão das obras do Instituto Moreira Sales (IMS) e da nova unidade do Serviço Social do Comércio (Sesc) promete transformar de vez a Avenida Paulista em polo cultural da cidade.

“Nós temos 40 unidades do Sesc espalhadas em todo o estado de São Paulo, e essa nova tem a característica especial de estar na Avenida Paulista, que é um grande cordão cultural estendido na cidade”, observa Danilo Miranda, diretor regional do Sesc.

Segundo Lorenzo Mammi, curador de programação e de eventos do IMS, a adesão do público contribui para a metamorfose da Avenida, a qual não ocorre de forma planejada. “Temos que ficar monitorando para entender o que está acontecendo, pois não somos nós que vamos dar as cartas”, considera.

Com múltiplas áreas de atuação, o Instituto foca em exposição de acervos de fotografia, música e literatura. Já o Sesc alimenta o público por meio de cultura e convivência, com programação que abrange expressões artísticas, atividades físicas, alimentação, entre outros.

“Os espaços que estão surgindo vão fazer com que a Paulista perca uma vocação histórica voltada aos negócios para ganhar uma vocação de ser um grande espaço público e permeável para as pessoas”, presume Dantas.

Os espaços que estão surgindo vão fazer com que a Paulista perca uma vocação histórica voltada aos negócios para ganhar uma vocação de ser um grande espaço público e permeável para as pessoas
Marcello Dantas

PAULISTA ABERTA

Um fator que tem contribuído para o incremento de espaços culturais na Avenida é o programa Paulista Aberta, decretado oficialmente em junho de 2016 pelo então prefeito Fernando Haddad. A medida fecha a via para o tráfego de veículos todos os domingos, das 10h às 18h, transformando o local numa grande praça pública.

“Foi um facilitador muito grande, pois nos permite explorar a área externa em frente ao prédio e dá a oportunidade para as pessoas que estão passando pela Avenida conhecer projetos de grandes artistas e de outros que estão começando”, relata Débora Viana, gerente executiva de cultura do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP).

A ideia do programa surgiu por meio de uma mobilização das organizações Sampa Pé e Minha Sampa, em agosto de 2014, que reivindicou, por meio de debates públicos e ocupações, a abertura da Avenida para pedestres sem a presença de carros.

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Avenida Paulista aberta para pedestres durante o domingo de 23 de outubro de 2016 (cifotart/ Shutterstock)

UM LUGAR ESPECIAL

De acordo com o arquiteto Vinicius Andrade, sócio do escritório Andrade Morettin Arquitetos Associados, a relevância da Avenida Paulista se deve, entre outros fatores, à condição geomorfológica de São Paulo – uma cidade sem grandes atrativos naturais, que tende a olhar para si mesma. “Isso faz com que a vida urbana seja o centro das atenções. E é aí que as avenidas ganham uma importância incomum, pois é o local onde tudo acontece”, justifica.

Mas para que ela alcançasse o atual status de polo cultural da cidade, ela teve de passar por muitas mudanças, uma vez que foi concebida, no final do século XIX, para ser um eixo de glamour dos barões do café e seus palacetes. Essa abordagem histórica foi apresentada pelo próprio Andrade durante o seminário “Avenida Paulista: Novos Projetos, Novos Rumos”, promovido pela plataforma Arq.Futuro.

“À medida em que iam se sucedendo os ciclos históricos, a Paulista ia se reconstruindo, uma camada em cima da outra. Mas ela foi imaginada como um lugar da elite. O lugar do privilégio, da exclusividade. E aí a história começa a trabalhar a nosso favor”, enfatiza Andrade.

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Registro em aquarela da inauguração da Avenida Paulista, em 1891 (Pintura: Jules Martin/ Domínio Público)

MUDANÇAS AO LONGO DO TEMPO

As mudanças mais impactantes do ponto de vista arquitetônico e urbanístico começaram em 1930, com o aterramento do Vale da Nove de Julho e a criação do Parque Trianon. Já na década de 1950, a legislação de uso e ocupação do solo foi flexibilizada e permitiu a criação de edificações como o Conjunto Nacional, cujo grande ativo é a fruição pública no piso térreo.

À medida em que iam se sucedendo os ciclos históricos, a Paulista ia se reconstruindo, uma camada em cima da outra. Mas ela foi imaginada como um lugar da elite
Vinicius Hernandes de Andrade

Em 1960, a legislação passou a permitir estabelecimentos comerciais e escritórios. “A chegada desses edifícios é muito importante, pois marca a verticalização da Paulista que a gente vê até hoje”, conta Andrade.

Já na virada dos anos 1960 e 1970, foi concebido um plano de escavação da Avenida para concentrar o trânsito pesado abaixo do nível do solo. Embora o projeto só tenha sido realizado em um pequeno trecho, ele proporcionou o alargamento em 10 m para cada lado da via, beneficiando a fruição pública.

Inaugurado em 1968, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) eleva o volume do edifício e reitera o valor do nível térreo como lugar de privilégio na Avenida, servindo como palco de variados eventos até os dias atuais.

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Avenida Paulista em 1902, vista da residência Adam Von Bülow (Foto: Guilherme Gaensly/ Domínio Público)

Na década de 1990 é inaugurada a Linha 2-Verde do Metrô de São Paulo, que percorre a Avenida Paulista de ponta a ponta e facilita o acesso público. “Além disso, o calçamento vai seguindo as demandas de mobilidade para atender a requisitos de acessibilidade universal”, acrescenta o arquiteto.

Por fim, a medida da gestão anterior em abrir a Avenida para os pedestres e impedir o tráfego de veículos aos domingos também é considerada por Andrade como uma mudança que qualifica o uso do local. “Isso dá uma dimensão de como o solo pode ser valorizado do ponto de vista prático e simbólico por uma ação administrativa”, avalia.

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Colaboração técnica

 
Danilo Miranda – Especialista em ação cultural e diretor regional do Sesc no Estado de São Paulo. Foi presidente do Comitê Diretor do Fórum Cultural Mundial em 2004 e presidente do Comissariado Brasileiro do Ano da França no Brasil em 2009. Conselheiro em diversas entidades, como a Fundação Itaú Cultural e o Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. É membro da organização Art for the World, com sede na Suiça.
 
Débora Viana – Produtora cultural desde 2002; gerente executiva de cultura do Sesi-SP desde 2013. Coordena projetos e programas culturais nas 55 unidades do Sesi no Estado de São Paulo e é responsável por projetos para a formação de público e para a democratização do acesso à cultural no Centro Cultural da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
 
Lorenzo Mammi – Curador de programação e eventos do IMS e professor livre docente da área de filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Foi curador de diversas exposições, entre as quais Concreta 56 (São Paulo, Museu de Arte Moderna, 2017), Lugar nenhum (2013) e A viagem das carrancas (SP, Pinacoteca-IMS/RJ, 2015-6).
 
Marcello Dantas – Curador de exposições, diretor artístico e documentarista. Organizou a exposição Still Being, de Antony Gormley, em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília em 2012. É curador e diretor de programação da Japan House São Paulo, centro cultural localizado na Avenida Paulista.
 
Vinicius Hernandes de Andrade – Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). É sócio do escritório Andrade Morettin Arquitetos Associados, o qual desenvolve projetos de arquitetura e urbanismo desde 1997 em diversas escalas, para os setores público e privado.