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O que considerar no projeto de iluminação cenográfica de fachadas?

No projeto de iluminação cenográfica, o lighting designer deve pensar em soluções funcionais, que promovam eficiência energética e valorizem o empreendimento. Confira

Publicado em: 14/03/2013Atualizado em: 06/06/2019

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Redação AECweb / e-Construmarket

A iluminação cenográfica que valoriza as fachadas das edificações, pontes e monumentos, também é conceito subjetivo e deve evitar modismos. “Tem que ser funcional no nível material, processual, de equipamentos e de eficiência energética”, ensina Valmir Perez, lighting designer do laboratório de Iluminação do Instituto de Artes da Unicamp, que continua: “Deve proporcionar ao observador, informações subjetivas que estejam diretamente relacionadas ao propósito principal daquele prédio”. Um bom exemplo é o projeto para edifícios como o do Theatro Municipal de São Paulo, que precisa levar em conta a historicidade do local e tudo o que representa subjetivamente para a sociedade.

Segundo Perez, é comum o lighting designer receber a solicitação do cliente já contaminada com considerações e indicações pautadas em tendências de mercado. “Tendência é moda, e moda nem sempre tem a ver com o objetivo de valorização do espaço e sua função”, diz o autor do livro ‘Luz e Arte: Um paralelo entre as ideias de grandes mestres da pintura e o design de iluminação’, lançado em 2012 pela De Maio Comunicação e Editora Ltda.

Nos edifícios corporativos, o primeiro passo que o lighting designer precisa dar para iniciar um projeto é observar qual a identidade da empresa, a imagem que ela quer passar. “A luz sobre as construções, espaços físicos e elementos materiais acaba se transformando em forma, imagem e cor, ou seja, significado, portanto, em linguagem visual. “Hoje, com a grande diversidade de tecnologias e soluções disponíveis no mercado, se o profissional não buscar conhecer profundamente o cliente e o projeto, corre alguns riscos”, alerta, chamando a atenção para a complexidade do tema ao dizer que a iluminação de uma mesquita é diferente da utilizada em uma sinagoga ou em um templo evangélico. “A iluminação deve respeitar a essência do espaço e de sua função. Os lighting designers precisam conhecer as nuances mais subjetivas da linguagem com a qual estão trabalhando e, paralelamente, adequá-la também às expectativas do cliente. Têm autoridade, inclusive, para questionar imposições do cliente quando a iluminação que ele sugere não se encaixa ao conjunto harmônico do projeto”, recomenda Perez.

O problema é ainda mais agudo em obras públicas, pois geralmente, não existe uma equipe preparada para julgar se o projeto é viável ou não tecnicamente e mais ainda, subjetivamente. “No quesito da eficiência energética, engenheiros contratados pelo poder público podem e geralmente avaliam o projeto determinando e aprovando sua viabilidade, mas na questão estética a coisa é mais complicada”, diz. Outro problema apontado por Perez é a reserva técnica – percentual sobre a compra que a empresa fornecedora concede ao profissional. Se o profissional não trabalhar de maneira ética, quanto mais soluções ele indicar para o projeto, mais dinheiro vai receber. Isso acarreta produtos finais que nem sempre serão ideais, mas resultado da ganância e falta de ética profissional.

Residencial

A iluminação de pontes também é considerada cenográfica. “Pois, dependendo da linguagem visual escolhida, o monumento passa a se apresentar como algo mais do que sua função original, transformando-se em uma obra expressiva, com forte subjetivismo. Desloca-se o conceito de uma simples ponte para outro mais abstrato, artístico”, comenta. Assim, para cada tipo de edificação e seu uso, haverá um projeto luminotécnico específico. “Em uma obra residencial, os processos que giram em torno desse ambiente, são únicos, diferentemente dos de uma ponte, igreja etc.
Por si só já são facilmente perceptíveis, mas nem sempre observados. É onde a família vive, convive, recebe pessoas, tem vida social e, em alguns casos, onde ostenta seu poder econômico. São essas informações sutis que levam os lighting designers a pesquisarem profundamente não apenas os espaços, mas os jogos relacionais vivenciados em seus interiores, buscando assim a integração entre todos os elementos materiais e imateriais ali combinados”, afirma Valmir Perez.

Paisagismo

“O trabalho do lighting designer realizado em conjunto, não só com o paisagista, mas também com os arquitetos, engenheiros e restauradores seria o caminho ideal na direção de um bom projeto”, observa Valmir Perez, lembrando também que, no caso de projetos de iluminação para espaços paisagísticos vivos, esses profissionais devem se preocupar e muito se as suas intervenções vão de encontro à preservação dos ecossistemas, pois, em determinados casos, se alguns importantes cuidados não forem tomados, o universo vivo do ambiente pode sofrer danos irreparáveis, apenas pela precipitação de tomada das decisões, que muitas vezes buscam somente a estética visual ou as futilidades das chamadas tendências.

Ele relata sua própria experiência num projeto de museu, onde havia uma claraboia muito bonita, que poderia ser utilizada no projeto, como teto iluminado por luzes artificiais durante o período noturno. Sendo assim, e sabendo que esse museu encontrava-se dentro de um jardim botânico, se a fonte a ser utilizada fosse branca-azulada, acima de cinco mil graus kelvin, ou emitisse irradiação ultravioleta demais, contribuiria para atrair mais insetos, matando-os durante a noite, o que poderia causar danos nesse importante ecossistema. Dessa forma, o projeto interferiria de maneira bastante drástica naquele ambiente. “Optei por outro tipo de fonte, mais amarelada, para atrair menos insetos e evitar um desastre”, conta.

Normas tÉcnicas

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e o Institute Electrical and Electronics Engineers (IEE) disponibilizam normas para a incidência correta de iluminância em ambientes interiores, tema atualmente em debate, visando novas normativas. Mas não há nada específico para iluminação cenográfica. O profissional defende a discussão neste sentido, até mesmo para evitar situações como a especificação de luminárias para fachadas que acabam ofuscando a visão dos motoristas em trânsito. Dentro das normas técnicas, existem algumas premissas que devem ser consideradas em se tratando de projetos de interiores e exteriores tais como a idade das pessoas que frequentarão o local, os tipos de atividades que ali serão exercidas etc. “Quanto mais avançada for a idade de um indivíduo, maior o nível de iluminância requerido para os diferentes tipos de atividades”, comenta, acrescentando que a norma brasileira que contém essas determinações é a ABNT NBR 5413.


COLABOROU PARA ESTA MATÉRIA

Valmir Perez – Graduado em Educação Artística com bacharelado em Artes Plásticas e Licenciatura em Artes pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); mestrado em Multimeios pelo Instituto de Artes da Unicamp (2007). Atualmente, é responsável pelo Laboratório de Iluminação do Departamento de Artes Cênicas do Instituto de Artes da Unicamp e atua como lighting designer independente. Sua experiência de mais de 20 anos em projetos de iluminação, design e artes, revela-se em inúmeros projetos de iluminação cênica, iluminação arquitetural de interiores e exteriores, projetos de estruturas cênicas e de iluminação cênica, computação gráfica, desenvolvimento de software na área de iluminação, ensino e pesquisa em design de iluminação arquitetural e artes plásticas. É membro honorário da Associação Brasileira de Iluminação (ABIL) e membro fundador da Associação Brasileira de Iluminação Cênica (ABRIC).