Olimpíadas 2016: qual é o seu legado?

Mais que a oportunidade de desenvolvimento para a cidade do Rio de janeiro, as Olimpíadas deveriam significar a grande chance de fomentar a reurbanização da região central

Publicado em: 17/04/2015

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Redação AECweb / e-Construmarket

Estádio do Maracanã - Olimpíadas 2016Estádio do Maracanã será a principal sede dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro
Foto: Erica Ramalho
Projeto de arquitetura: Fernandes / Arquitetos Associados

A cidade do Rio de Janeiro tem três principais locais em obras para a recepção das Olimpíadas 2016. “Um é o Parque da Barra, onde funcionava o antigo autódromo. O outro é a área de Deodoro, e o terceiro é a zona Sul. O centro, Porto Maravilha, que tinha uma série de empreendimentos ligados aos Jogos Olímpicos, mas também vinculados à revitalização da zona central, acabou ficando apenas com o Maracanã e a área do Sambódromo. Surge, então, a primeira questão que o IAB-RJ – Instituto de Arquitetos do Brasil – colocou várias vezes. Será que não estamos dispersando energias, principalmente em relação à Barra da Tijuca?”, questiona Pedro da Luz Moreira, presidente do IAB-RJ.

Acontece que o mercado imobiliário não precisa de incentivo para atuar na Barra da Tijuca, área já privilegiada pelos investidores. “Se o poder público quisesse ter o papel de promover uma área, deveria ter concentrado as Olimpíadas no centro da cidade, na zona portuária principalmente. Todas as atividades das Olimpíadas 2016 caberiam nessa região e haveria, efetivamente, uma mudança na inércia de investimentos no local”, afirma Pedro.

As torres habitacionais lançadas na área atrás da rodoviária da cidade deveriam abrigar a vila de árbitros das Olimpíadas. “Mas isso mudou recentemente, e a vila será feita em Jacarepaguá. De novo, vemos uma área em que os investidores já estão atuando e que dispensa incentivo. É preciso fomentar, por exemplo, ao longo da zona norte toda e no centro da cidade do Rio de Janeiro. É importante que tenhamos habitação próxima à região central, e isso não está acontecendo”, diz Moreira.

OLÍMPIADAS 2016 - PROJETOS

Para a realização do projeto arquitetônico do conjunto de obras das Olimpíadas foram feitos três concursos: do Porto Maravilha; do Parque Olímpico e do campo de golfe, todos na Barra da Tijuca. Os projetos arquitetônicos são considerados bons por Moreira, exatamente devido à realização do concurso. “Em outras iniciativas não há a mesma qualidade. É notável a repetição do padrão médio de construção. No Brasil, estamos construindo mal, e essa má qualidade advém de uma característica cultural que não dá protagonismo às ações de planejamento de projeto”, afirma o presidente.

Elemento fundamental de qualquer obra, o projeto ainda não é valorizado no país. À medida que há um projeto bem-definido, acabarão as surpresas no orçamento e no cronograma. A ideia é antecipar os problemas, prevendo o que irá acontecer na construção. Assim, é preciso valorizar tanto a fase de planejamento como de projeto. O que significa, em tese, controlar melhor as obras.

É claro que pode haver projetos que demoram tanto para serem executados que acabam tendo furos de orçamento e cronograma. “Mas, de maneira geral, quando se investe na fase de projeto, aumenta-se o controle do que será realizado. Com os últimos exemplos vistos com a Copa do Mundo, é possível entender que isso não é uma prática, uma ação estabelecida no país. Privilegiamos a execução sem ter um projeto estruturado, e isso, fatalmente, vai gerar aumento de orçamento, quebra de cronograma e qualidade deficiente”, explica o presidente do IAB-RJ.

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VANTAGENS

Se o poder público quisesse ter o papel de promover uma área, deveria ter concentrado as Olimpíadas no centro da cidade, na zona portuária principalmente. Todas as atividades das Olimpíadas 2016 caberiam nessa região e haveria, efetivamente, uma mudança na inércia de investimentos no local
Pedro da Luz Moreira

Por outro lado, Pedro da Luz vê com bons olhos a ampliação dos modais de alta capacidade, com destaque para a criação dos quatro BRTs. O presidente do instituto espera que esses corredores representem uma melhora na locomoção das pessoas, que se mostra muito precária na cidade. “Durante anos o automóvel particular foi muito privilegiado, e não os modais de alta capacidade. Nesse sentido, estamos cobrando fortemente do governo do estado que a rede de trens urbanos da cidade, que é potente, seja requalificada. Estão sendo adquiridas composições de trens, só que as condições físicas das estações ainda continuam muito precárias, o que acaba despertando na população a desconfiança do serviço prestado”.

Dois BRTs já estão funcionando: o TransOeste e o TransCarioca. A previsão é que todos fiquem prontos até as Olimpíadas de 2016. Entrarão em operação o TransOlímpica, que irá de Deodoro até o Cebolão, e o TransBrasil que circulará de Deodoro até o centro da cidade. Entretanto, foram feitas fragmentações dessas iniciativas. “O transporte deve ser visto como uma rede que se autossustenta. Algumas baldeações para modais de alta capacidade são muito precárias. Por exemplo, a baldeação entre o BRT TransCarioca e o ramal Duque de Caxias é muito ruim. Não existem calçadas confortáveis, o acesso ao sair de um modal para o outro é mal feito. Isso demonstra a fragmentação do transporte, já que o trem é responsabilidade do estado e, o BRT, do município”, alerta o arquiteto e acrescenta que há necessidade de uma ação coordenada entre todos os agentes, para que no final a população tenha conforto ao se deslocar. Os índices de movimento pendular na cidade do Rio de Janeiro são muito altos, chegam a mais de 2 horas, sendo que o tempo máximo deveria ser de 40 minutos.

OBRAS

Segundo Pedro, “as obras para os jogos Olímpicos de 2016 estão atrasadas. A um ano e meio do evento, as obras para as Olimpíadas de Londres já estavam bem mais adiantadas. Mas acredito que tudo ficará pronto”. O problema é a questão do investimento em três áreas. Do ponto de vista do deslocamento entre esses pontos, somando as idas e voltas, chega-se a cerca de 270 km. “É muito para uma cidade que já tem problema de mobilidade. Não acredito que essa tenha sido a opção certa”, comenta.

LEGADO OLÍMPICO

Os principais legados deixados para a cidade após o evento, de acordo com o presidente, é a ampliação dos modais de alta capacidade. A população será incentivada a usufruir de alguns equipamentos e áreas. “A região da Barra da Tijuca receberá grande parte dos equipamentos. Mas vamos ver se isso irá rebater como legado ao desenvolvimento do esporte mais intenso no Brasil. O esporte é muito importante, inclusive socialmente, e principalmente para a juventude”.

Moreira comenta que não basta somente realizar os projetos, mas é muito importante que na pós-construção seja feita a gestão dos equipamentos. Um fator fundamental para o sucesso do BRT é que haja a gestão do sistema, para que funcione de forma eficiente e ofereça mais conforto aos usuários. “Estive em Bogotá e lá existe uma rede de BRTs impressionante. As pessoas chegam às estações e têm informações como, por exemplo, que daqui a três minutos vai passar tal linha. Isso é manter o sistema com informações constantes aos usuários, é fazer a gestão correta. Assim, vai sendo construída uma relação de confiança entre o usuário e o serviço”, declara.

Na TransOeste, de acordo com o arquiteto, já ocorreram duas manifestações de revolta de usuários com o serviço. “Mas além dessa questão, podemos notar, por exemplo, que aumentou o número de atropelamentos ao longo do trajeto. Isso é consequência da falta de projeto. Quando se instala esses serviços, é preciso também olhar para os impactos que ele gera, para garantir uma boa travessia, segura para o pedestre, um bom mobiliário para que o usuário possa ir de bicicleta. Enfim, é preciso ter uma visão ampla e não a fragmentada que o poder público tem no Brasil, que só olha para a sua obrigação. As pessoas fluem de um sistema de transporte para outro e não estão interessadas se o equipamento é administrado pelo governo estadual ou pela prefeitura. O importante é que o sistema funcione”.

REQUALIFICAÇÃO URBANA

Durante anos o automóvel particular foi muito privilegiado, e não os modais de alta capacidade. Nesse sentido, estamos cobrando fortemente do governo do estado que a rede de trens urbanos da cidade, que é potente, seja requalificada
Pedro da Luz Moreira

No Brasil, é preciso cada vez mais olhar para uma política urbana de maneira articulada e concatenada com várias ações. O urbano demanda isso. O país começa a andar nesse sentido. O TransCarioca cruza uma área da cidade que será valorizada, o preço da terra tende a subir. Ter uma política de gestão de longo prazo desse território mostra-se muito importante, já que os lançamentos de edifícios residenciais próximos ao BRT garantem conforto à população.

O arquiteto considera os megaeventos – Copa do Mundo e Olimpíadas – como uma oportunidade. Há uma concentração de recursos, o que é bom, positivo, mas, ao mesmo tempo, é preciso pensar a cidade do ponto de vista do projeto a longo prazo, para as futuras gerações. É fundamental ver a cidade como uma rede de oportunidades. “Por que, hoje, mobilidade é tão importante? Entre outras razões, porque uma rede de transporte bem planejada permitirá às pessoas ter acesso a bens culturais como a Biblioteca Nacional e o Jardim Botânico. Não há sentido em ter esses equipamentos, que demoraram séculos para serem construídos, se as pessoas carecem de acesso”, defende o presidente.

Colaborou para esta matéria

Monica Dolce
Pedro da Luz Moreira – Arquiteto e doutor em Urbanismo (UFRJ/FAU-Prourb). Sócio-gerente da Archi5 Arquitetos Associados Ltda, desenvolveu projetos para o Rio Cidade e o Favela-Bairro, e para o Jardim Botânico e o Parque do Vale dos Contos, em Ouro Preto. Foi professor adjunto da PUC-Rio e coordenador-geral do programa Morar Carioca. Atualmente, é professor adjunto (UFF/EAU), diretor do IAB e presidente do IAB-RJ.