Os legados deixados pela pandemia em materiais e soluções

Foram várias as tecnologias apontadas como elementos controladores da disseminação do vírus da Covid-19 nos ambientes. E, agora, quais vão permanecer?

Publicado em: 04/01/2023

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

foto de uma pessoa segurando uma espátula e uma tabua com argamassa líquida em cima
(Foto: Shutterstock)

Desde o dia 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o estado de pandemia, a ciência em todas as suas formas se debruçou em estudos para desvendar o SARS-COV-2. Na arquitetura e engenharia não foi diferente. Se ainda não era possível conter a tragédia que se anunciava da Covid-19, especialistas buscavam soluções que pudessem mitigar a infecção.

A convite da União Internacional (UIA), o arquiteto e doutor Fabio Bitencourt, especialista em arquitetura para a saúde, produziu naquele momento um artigo abordando fatores que tangenciam as edificações em geral, com ênfase àquelas com maior concentração de pessoas.

“Por se tratar de vírus respiratório, falei sobre a climatização e a importância da renovação do ar. Outra preocupação foi sobre a proteção das superfícies através de materiais de revestimentos, pois nelas microrganismos patogênicos podem ficar armazenados. O terceiro aspecto, que fica transversal à toda a discussão, são os fluxos, ou seja, caminhos a serem percorridos em determinadas atividades”, conta.

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Renovação do ar artificial

Passados quase três anos, Bitencourt avalia as soluções que ele vislumbrou e as que ao longo da pandemia foram apontadas, começando pela climatização. “A atenção com a qualidade do ar artificial, apesar de datar de 1960, ganhou relevância. Saiu do espectro da sofisticação tecnológica e atingiu o homem comum”, afirma.

"A atenção com a qualidade do ar artificial, apesar de datar de 1960, ganhou relevância. Saiu do espectro da sofisticação tecnológica e atingiu o homem comum"
Fabio Bitencourt

O arquiteto lembra que o Conselho Nacional de Climatização e Refrigeração preparou o texto “Cuidar do ar que você respira”, orientando para a biossegurança em ambientes de seis segmentos: hospedagem e alimentação; centros comerciais; unidades de ensino; indústria; entretenimento; clínicas, estética, atendimento médico e laboratórios.

“Em todos esses casos, são estudadas também as soluções de transições, que implicam dois componentes. O primeiro é o fluxo e o outro as antecâmaras, espaços intermediários que devem ser criados em algumas dessas situações para o controle e prevenção de doenças transmissíveis por vias aéreas”, explica.

Materiais de revestimentos

Privilegiar materiais de revestimentos laváveis é importante lição aprendida na pandemia. “Perdem espaço aqueles que não são passíveis da assepsia plena”, aponta. Entram aí os materiais de revestimento de piso, parede e teto, como as tintas plásticas que se diluem quando se tenta limpar com pano e água, por exemplo.

“Já as tintas vinílicas permitem a limpeza, pois são protegidas por espécie de filme. São mais caras, porque exige a aplicação prévia de uma base vinílica”, detalha, afirmando que é um material que vai além dos ambientes hospitalares, mas também domésticos.

Apontado há tempos como material que garante o controle de infecções, o cobre passou a ser exaltado durante a crise sanitária. Há, segundo o arquiteto, vários estudos em todo o mundo, mostrando que o tempo de vida de vírus e bactérias é menor sobre superfícies revestida em cobre. Mas, alerta: “O cobre em si não faz mágica, não vai inibir o controle de infecções, ao contrário do que argumentam algumas associações internacionais do setor”.

A eficiência do material depende da umidade relativa do ar, da temperatura e da reincidência de presença de microrganismos no ambiente. “O cobre deve ser entendido, porém, como elemento facilitador no combate às infecções”, frisa. Entre as peças que podem ser produzidas ou revestidas com cobre estão as maçanetas, metais sanitários e superfícies como balcões de recepção.

"O cobre deve ser entendido, porém, como elemento facilitador no combate às infecções"
Fabio Bitencourt

Controles de acesso

Solução indispensável na pandemia e que deve ser ampliada é a utilização de tecnologias que permitem o acesso sem o contato das mãos. É o caso, entre outros, dos sensores de calor diante da presença humana e os de reconhecimento da íris, mais sofisticados, para a abertura de portas e de torneiras. Bitencourt diz que esses elementos vão permanecer nesse novo modelo de pensar o espaço construído, principalmente em ambientes públicos de grande circulação.

Cresceu, também, a atenção aos recursos que, nos elevadores, evitam o contato das mãos com a superfície – no caso, a botoeira. A opção mais atual e requintada é o acesso por voz ou, ainda, por número do pavimento operada por computador, mais comum em espaços públicos. “O acesso por voz exige investimentos altos para que toda a tecnologia dos elevadores em prédios existentes seja modernizada. Isso não se faz da noite para o dia, afinal, a maioria dos equipamentos existentes são operados por tecnologias analógicas, bastante simples”, diz.

Iluminação UV-C

Solução anteriormente conhecida, a iluminação ultravioleta para a eliminação de elementos patogênicos das superfícies foi largamente divulgada a partir de 2020. No entanto, apesar da argumentada comprovação científica desse impacto, ela não realiza por si só o processo de controle total. “Sua aplicação ainda carece de credibilidade sobre os processos de uso, sobretudo porque as superfícies, inclusive o corpo humano, não são planos, o que reduz sua capacidade de atuar nos ambientes de forma plena e homogênea. Para ser eficiente, a radiação teria que alcançar uniformemente as superfícies”, informa.

Aspecto a ser considerado no uso das lâmpadas UV-C é que raios ultravioleta são ondas abaixo de 350 nanômetros (medida de milionésimo de metro) e muito pequenas. Elas alcançam o corpo humano, com impactos distintos. “Da mesma forma que pode haver contribuições, há também implicações negativas. Portanto, esses efeitos devem ser avaliados para cada circunstância de uso, não devendo ser aplicadas aleatoriamente. O que temos, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), refere-se à eficácia do emprego da luz UV como desinfetante em condições muito específicas e em ambientes bem controlados, ao contrário do que é facilmente percebido nos ambientes de forma geral”, pontua Bitencourt.

Consciência da sociedade

Independentemente da tecnologia e dos materiais, o arquiteto defende que o legado fundamental da pandemia foi a tomada de consciência sobre os processos de trabalho. Ele se refere às práticas adotadas por todos para reduzir a transmissibilidade das contaminações e que não podem ser perdidas agora e no futuro.

“A lavagem dos alimentos, por exemplo, é recomendação básica de cuidados, assim como não entrar em casa com calçados – alguns países têm grande rigor com esse hábito”, diz.

O uso da máscara, por sua vez, deixou de ser um estigma como ocorria antes da pandemia, para ser inserido na cultura de boa parcela da população brasileira. “É elemento de controle que protege quem usa e os outros de qualquer tipo de elemento patogênico, muito além do coronavírus”, recomenda.

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Colaboração técnica

Fabio Bitencourt – Arquiteto e doutor em ciências da arquitetura, escreveu diversos livros e publicações sobre arquitetura hospitalar, ambientes de saúde e ergonomia. É, também, professor em cursos de graduação e pós-graduação em arquitetura, arquitetura hospitalar, ergonomia e gestão hospitalar. Foi presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar (Abdeh) entre 2011 e 2014, é membro da Academia Brasileira de Administração Hospitalar (Abah) e de diversas entidades internacionais da área de saúde.