Pavimentos permeáveis evoluem e seu uso cresce no país

Sistemas em concreto permeável podem substituir o asfalto convencional, evitando enchentes e reduzindo custos de drenagem. A obra em ruas da Barra do Jucu, em Vitória, é um bom exemplo

Publicado em: 16/03/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Pavimentos permeáveis
O sistema de blocos de concreto poroso que foi implementado pela prefeitura de Vila Velha (ES) na Barra do Jucu (Foto: Luciano D’Angelo Motta)

Ainda que o asfalto seja predominante nas calçadas, vias públicas e estacionamentos das cidades brasileiras, a pavimentação com concreto permeável continua evoluindo e já se faz presente em diversos locais. Afinal, calçadas e ruas impermeáveis são fatores determinantes para as enchentes típicas do verão.

“A maioria dessas soluções são à base de cimento Portland, como o pavimento intertravado de juntas alargadas, o pavimento intertravado com peças permeáveis, o pavimento com placas permeáveis e o concreto permeável moldado no local”, afirma Cláudio Oliveira Silva, gerente da Área de Inovação e Sustentabilidade da ABCP – Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), acrescentando que também é possível usar asfalto permeável.

O mais utilizado no Brasil é o pavimento permeável com juntas alargadas, constituído por peças de concreto convencional, sendo que a percolação de água ocorre através das juntas. Já o sistema de peças ou placas permeáveis pré-fabricadas, com percolação de água através do concreto permeável, é mais recomendado para uso em passeios e calçadas para tráfego de pedestres. “O concreto moldado no local é outra opção, bastante utilizado em áreas de estacionamento e calçadas. Proporciona o melhor conforto de rolamento, mas demanda maiores cuidados na dosagem e execução do concreto”, explica.

Vantagens e cuidados

São muitas as vantagens do pavimento permeável. Além de permitir controlar o escoamento superficial, até eliminá-lo, é possível coletar e armazenar água da chuva e, ainda, minimizar enchentes localmente
Cláudio Oliveira Silva

“São muitas as vantagens do pavimento permeável. Além de permitir controlar o escoamento superficial, até eliminá-lo, é possível coletar e armazenar água da chuva e, ainda, minimizar enchentes localmente. O sistema impede empoçamentos e o entupimento de bueiros e de outros dispositivos de drenagem convencionais. Além disso, é possível diminuir a temperatura superficial, contribuindo para um maior conforto ambiental”, destaca Silva.

O principal cuidado para bloquear a colmatação precoce do pavimento é o planejamento das áreas de entorno, de maneira a evitar a entrada de materiais finos na superfície da área permeável. “A manutenção do pavimento, na maioria dos casos, consiste em um planejamento de limpeza superficial periódica. O que deveria ocorrer em qualquer tipo de piso, mas que no caso do pavimento permeável interfere em seu principal atributo que é a permeabilidade”, expõe.

Além da varrição convencional, a periodicidade da limpeza com jato de água e a sucção da superfície dependem dos aspectos do entorno. De uma forma geral, devem ocorrer pelo menos uma vez ao ano. Isso permitirá manter o coeficiente de permeabilidade do pavimento ao longo do tempo. “Áreas sem manutenção perdem a permeabilidade e passam a funcionar apenas como um pavimento convencional”, alerta Silva.

Ruas permeáveis em Vitória (ES)

O cenário de raro uso de pavimentos permeáveis no país está mudando aos poucos. De acordo com Cláudio Silva, em muitas cidades já é a principal opção técnica para a microdrenagem urbana. “Nos munícipios brasileiros, o uso vem aumentando nos últimos anos. Mas, é necessária maior divulgação do sistema, pois muitos técnicos ainda não conhecem a norma ABNT NBR 16416 que trata dos pavimentos permeáveis”, ressalta.

A ABCP trabalha há cerca de dez anos no desenvolvimento e divulgação dessa tecnologia. Na plataforma Soluções para Cidades, é possível encontrar muitos materiais e soluções inspiradores para as prefeituras e especificadores (https://www.solucoesparacidades.com.br/).

Foi na busca de solução para evitar inundações em áreas urbanas litorâneas que o engenheiro Luciano D’Angelo Motta desenvolveu mais do que uma dissertação de mestrado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). O sistema de blocos de concreto poroso, objeto da pesquisa orientada pelo professor Daniel Rigo, acabou sendo implementado pela prefeitura de Vila Velha (ES) na Barra do Jucu – obra em fase de finalização. O projeto é da Engepavi, sob a coordenação do engenheiro Motta.

“O local foi escolhido por atender a duas questões básicas da norma técnica: tráfego leve e subleito predominantemente arenoso, ou seja, com boa capacidade de infiltração das águas de chuva”, diz ele. O pavimento desenvolvido foi em blocos de concreto poroso, produzidos com quantidade maior de cimento e menor de areia, assentados sobre pedrisco e camada de base/reservatório em brita graduada faixa B. No local, ainda foi projetado pavimento permeável do tipo infiltração total e sem infiltração.

Pavimentos permeáveis
O pavimento desenvolvido foi em blocos de concreto poroso (Foto: Luciano D’Angelo Motta)

Segundo Motta, o conceito não é novo, há diversas aplicações pelo mundo. “Porém, no Brasil, apesar de diversos estudos acadêmicos e de já existir a norma ABNT NBR 16416, sua aplicação ainda é muito baixa”, comenta. O seu uso propicia a infiltração das águas de chuva, diminuindo o volume de água em direção dos canais receptores e retardando sua velocidade de escoamento.

Já podemos dizer que o pavimento foi ‘testado’ diversas vezes quanto a sua capacidade estrutural e hidráulica e, até o momento, vem se comportando muito bem
Luciano D’Angelo Motta

O projeto de drenagem para implementação do sistema levou em conta requisitos como área situada em planície costeira sob influência do nível das marés; estrangulamento, impossibilitando que ocorram pontos de deságue da drenagem das vias; seção de vazão local com frequentes alagamentos; e rede de drenagem subterrânea afogada. O estudo indicou que o pavimento permeável em blocos porosos reduziu os diâmetros dos bueiros, resultando em menor profundidade de cota de deságue da rede.

A análise do custo financeiro do sistema comparado com o do asfaltamento convencional deve considerar a redução de investimento com os recursos de drenagem da área. “Se avaliado apenas o valor dos blocos de concreto e insumos, pode-se ter a falsa impressão de custos mais altos do pavimento permeável”, alerta Motta, conforme observado em seu estudo e nas obras das vias da Barra do Jucu. “Já podemos dizer que o pavimento foi ‘testado’ diversas vezes quanto a sua capacidade estrutural e hidráulica e, até o momento, vem se comportando muito bem”, comemora.

Saiba mais

A pesquisa desenvolvida pelo engenheiro Luciano D’Angelo Motta, na UFES, revelou dados interessantes de custos comparativos:

• a pavimentação em blocos porosos foi 15,97% mais cara do que aquela feita com blocos de concreto convencionais;
• calçadas drenantes tiveram custo 25,43% maiores quando comparadas às de concreto;
• os custos com drenagem foram reduzidos em 21,49%.

Conclusão: os custos de implantação do sistema de blocos porosos foram apenas 6,27% superiores no comparativo com os blocos de concreto convencionais.

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Colaboração técnica

Cláudio Oliveira Silva
Cláudio Oliveira Silva – Gerente da Área de Inovação e Sustentabilidade da ABCP – Associação Brasileira de Cimento Portland. Responsável pelo desenvolvimento de produtos e ferramentas, focando o aumento de competitividade econômica/ambiental dos produtos à base de cimento, com 21 anos de experiências em sistemas construtivos à base de cimento. Atuante na ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, participando na elaboração e revisão de normas de pavimentos intertravado, pavimentos permeáveis, alvenaria estrutural, tubos de concreto, telhas de concreto, agregados reciclados, pré-fabricados entre outros. Autor e coautor de trabalhos, livros, manuais técnicos, entrevista e palestras ligadas ao tema dos sistemas construtivos à base de cimento. Professor da Universidade São Judas Tadeu/SP nas disciplinas de Materiais de Construção Civil, Tecnologia do Concreto, Tecnologia de Construção Civil, Patologias das Construções, Desempenho de Edificações e Projeto de Rodovias e Aeroportos. .
Luciano D’Angelo Motta
Luciano D’Angelo Motta – Engenheiro civil com mestrado em Engenharia e Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e com pós-graduação em Engenharia de Estradas na Faculdade de Engenharia de Minas Gerais (FEAMIG). É também formado em Administração pela UFES. Atua como coordenador de Projetos na Engepavi –Consultoria e Projetos de Engenharia Ltda.