Piscinas em coberturas pedem cálculos adequados e boa impermeabilização

Em prédios já existentes, engenheiro deve conhecer a estrutura do empreendimento para determinar a necessidade de eventuais reforços de vigas, pilares e fundações. Saiba mais

Publicado em: 20/02/2018Atualizado em: 31/03/2023

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

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Para executar uma piscina na cobertura da edificação é necessário realizar estudos prévios para saber se a laje tem capacidade de suportar a carga adicional (shutterstock.com / Mizkit)

Executar uma piscina na cobertura da edificação gera diferentes benefícios. Além do melhor aproveitamento da luz solar, permite que a área de lazer esteja presente mesmo nos empreendimentos construídos em terrenos pequenos. No entanto, esse tipo de obra pede a realização de estudos prévios a fim de determinar se a laje tem capacidade de suportar a carga adicional, além da necessidade de execução de reforços estruturais.

Quando adequadamente dimensionada, qualquer tipo de cobertura pode receber uma piscina. Porém, é preciso ter sempre em mente que as cargas envolvidas serão maiores do que aquelas existentes em piscinas convencionais
Jairo Fruchtengarten


“Quando adequadamente dimensionada, qualquer tipo de cobertura pode receber uma piscina. Porém, é preciso ter sempre em mente que as cargas envolvidas serão maiores do que aquelas existentes em piscinas convencionais”, explica o engenheiro Jairo Fruchtengarten, sócio da Kurkdjian e Fruchtengarten Engenheiros Associados. Além dos esforços extras, a existência de outros equipamentos na laje deve ser avaliada.

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CÁLCULOS

Para calcular as cargas envolvidas no projeto, o profissional responsável deve considerar o peso total da piscina (paredes, acabamentos e água) e o empuxo hidrostático. “Para o engenheiro, é tranquilo inserir na equação os diferentes cenários: piscina vazia, cheia, com a presença de poucos banhistas ou totalmente ocupada”, informa o especialista. Geralmente, a situação mais crítica é com a piscina totalmente preenchida. No entanto, essa não é uma regra.

Se a estrutura está alocada sobre trecho em balanço, a situação mais desfavorável é com a piscina vazia. Isso acontece porque, quando cheia, a carga fica sobre a área em balanço, porém, se estiver sem água, os esforços se concentram nos vãos traseiros. “Por isso é importante analisar as particularidades de cada caso antes de começar a executar qualquer projeto”, recomenda Fruchtengarten.

O engenheiro calculista também precisa verificar os estados limites para determinar qual a carga máxima suportada pela cobertura. São dois valores igualmente importantes, sendo que um está relacionado à ruptura da peça (ELU) e o outro mostra o desempenho da estrutura quando está em serviço (ELS). Essa segunda variável tem ligação direta com os níveis aceitáveis de vibrações e deslocamentos.

“Ambas as verificações são totalmente independentes, ou seja, a estrutura pode não romper, mas ter deslocamento acima do ideal. Se qualquer um dos casos é violado, significa que a cobertura não está preparada”, explica o engenheiro. Os cálculos precisam ser realizados levando em consideração coeficientes de segurança específicos.

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REFORÇOS ESTRUTURAIS

É bastante improvável que uma edificação dimensionada para suportar as cargas convencionais já esteja preparada para receber a piscina em sua cobertura. Por isso, é importante o engenheiro conhecer a estrutura do empreendimento para determinar a necessidade de algum reforço. Se constatada a necessidade de intervenções, a questão passa a ser os pontos que precisam de atenção.

É importante definir se a extensão das não conformidades se estende para as vigas, pilares e/ou fundações. E, nesse sentido, o papel do engenheiro calculista é fundamental
Jairo Fruchtengarten

“É importante definir se a extensão das não conformidades se estende para as vigas, pilares e/ou fundações. E, nesse sentido, o papel do engenheiro calculista é fundamental”, destaca Fruchtengarten.

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IMPERMEABILIZAÇÃO

Segundo o especialista, o principal cuidado neste tipo de projeto se refere à impermeabilização. A escolha da solução que será empregada deve ser bastante criteriosa e respeitar todas as características estruturais. Alguns fabricantes oferecem produtos adequados para essa finalidade. Precisam ser especificados e utilizados seguindo as determinações de seus manuais técnicos.

Quando executada em concreto, a estrutura da piscina pode receber aditivos, como os cristalizantes, para se tornar estanque. “No entanto, o mais recomendado é impermeabilizar toda a laje com a manta específica e não esperar que somente o concreto seja capaz de cuidar de eventuais vazamentos”, fala o engenheiro.

TIPOS DE PISCINAS

Quando a laje é corretamente projetada e executada, qualquer tipologia de piscina pode estar presente na cobertura. “Por exemplo, com paredes de concreto armado, que podem suportar concomitantemente a carga da laje da piscina e do piso da cobertura”, comenta o especialista. O ideal é sempre combinar as características do empreendimento e do modelo da piscina a fim de obter os melhores resultados.

PROJETOS NOVOS X CONSTRUÇÕES JÁ EXISTENTES

As piscinas nas coberturas podem existir tanto em edifícios novos, quanto naqueles já existentes. Quando o projeto sai do zero, é menos trabalhosa a tarefa de posicionar a área de lazer no topo da edificação. “Nesses casos, tudo é pensado para transportar as cargas adicionais pela estrutura, até que cheguem à fundação”, comenta o engenheiro. Já nos prédios existentes, o trabalho envolve a avaliação do impacto causado pelas intervenções.

O EXEMPLO DO SESC 24 DE MAIO

Inaugurado em 2017, o Sesc 24 de Maio é um exemplo de edificação com piscina na cobertura. Localizada na região central da capital paulista, a instituição ocupa o prédio que abrigou uma loja de departamentos no passado. “Com a edificação ocupando praticamente todo o lote, optamos pela piscina na laje. Com isso, também aproveitamos melhor a luz solar”, conta a arquiteta Marta Moreira, sócia do escritório MMBB, que assina o projeto em parceria com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha.

Como o prédio era preexistente, toda a carga da água e da piscina não poderia ser simplesmente apoiada na estrutura que já estava construída. A estratégia encontrada foi aproveitar a cúpula presente na cobertura, que era usada para iluminar o espaço. “Demolindo essa estrutura, ganhamos um vazio que foi por onde subiu a estrutura independente. Essa piscina é relativamente grande, com 25x25 m”, detalha a arquiteta.

No total, foram utilizadas quatro colunas, com 1,20 m de diâmetro cada, que atravessam todo o edifício e suportam a carga adicional. Já o maquinário está encaixado no espaço que surge entre a estrutura da piscina e o tanque. “Outra questão é que a água também faz parte da reserva de incêndio. Por isso, foi usado sistema sofisticado que, além do próprio tratamento da água da piscina, também faz a interligação com a rede de sprinklers”, fala Moreira.

O sistema de impermeabilização especificado é convencional, composto por mantas. “O produto foi testado várias vezes; inclusive, teve de ser refeito em alguns pontos”, revela a arquiteta. Além das mantas, o tanque de concreto também recebeu revestimento cerâmico para melhorar sua estanqueidade.

A execução do projeto foi bastante complexa. Na área demolida da cúpula, foi montada uma grua, facilitando assim boa parte do processo construtivo. “O equipamento esteve presente até as etapas finais da obra, sendo aproveitado para posicionar a estrutura da piscina”, finaliza Moreira.

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Colaboração técnica

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Jairo Fruchtengarten – Possui graduação em Engenharia Civil e Mestrado pela Universidade de São Paulo. Atualmente é sócio da Kurkdjian e Fruchtengarten Engenheiros Associados, atuando em projeto e consultoria para estruturas de aço e concreto (armado e protendido). Também dá aulas no programa de Especialização do PECE e no programa de Pós-Graduação e MBA/USP da FDTE.
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Marta Moreira – Arquiteta formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Desde 2001 é professora da Escola da Cidade, em São Paulo. Foi professora visitante da Facultad Arquitectura y Diseño de la Universidad Finis Terrae, em Santiago (Chile). Também lecionou na Universidade Braz Cubas, em Mogi das Cruzes, entre 1992 e 1995. Ocupa o cargo de vice-presidente da Associação de Ensino Escola da Cidade. É sócia do escritório MMBB arquitetos.