Planejar cidades na orla evita erosão das praias

Edificações sobre dunas, inclusive avenidas e calçadões, causam o desequilíbrio. Quando chegam as fortes ondas da ressaca, muretas e até ruas desabam. “Engordar” a praia é uma das soluções

Publicado em: 16/03/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Erosão das praias
A erosão praial em Copacabana foi resolvida com um aterro hidráulico nos anos 1970 (Foto: Catarina Belova/Shutterstock)

Prefeituras de cidades litorâneas e órgãos responsáveis por rodovias à beira-mar investem, várias vezes por ano, na recuperação de muretas e calçadas destruídas pelo avanço pontual do mar. A solução convencional de engenharia, constituída por barreiras de rochas ou muros de contenção edificados na orla, não é necessariamente maléfica para a saúde da praia. “Quando bem projetadas, costumam surtir o efeito desejado para a proteção da costa”, comenta o professor doutor João Luiz Baptista de Carvalho, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).

O problema surge, segundo ele, quando essas estruturas são edificadas em momentos emergenciais, como em uma ressaca que ameaça derrubar casas na orla ou avenidas litorâneas, sem critério técnico ou estudos prévios, e por engenheiros não especializados. Do ponto de vista do proprietário, que não quer que a casa ou rodovia desabem, a solução das rochas funciona emergencialmente. O comprometimento ocorre a longo prazo.

“As rochas, que via de regra, não foram devidamente dimensionadas, serão gradativamente movidas. Algumas afundarão um pouco na areia, a estrutura recalcará, e a proteção ficará debilitada. Caberá ao proprietário reedificar a proteção, colocando mais rochas sobre o local, e assim por diante. Proteger a sua casa ou a estrada a longo prazo se torna insustentável economicamente. A praia perde seu atrativo principal, as casas do entorno desvalorizam, ou seja, todos perdem”, ensina Carvalho.

O processo da erosão

As praias tendem a engordar naturalmente durante a primavera e o verão, quando ondas regulares atuam sobre a costa. No outono e inverno, ondas eventuais e com maior energia chegam à costa, promovendo erosão. É quando as praias ‘emagrecem’. O equilíbrio vem das dunas, que funcionam como um repositório natural de areia para a praia durante eventos de ressaca. Depois, com o retorno das ondas e ventos regulares, as dunas são novamente recompostas e a areia sobressalente fica depositada junto à praia.

“Mas quando sobre as dunas são edificados calçadões, estradas litorâneas, muros e barreiras de contenção, não há mais reposição de areia durante os eventos de ressaca”, observa. Sem essa proteção natural, há déficit de areia, a praia fica literalmente debilitada e a situação vai piorar na próxima ressaca.

As ondas são resultado direto da atuação dos ventos sobre os oceanos, e as mudanças climáticas estão rearranjando a distribuição dos centros de alta e baixa pressão sobre eles. Está ocorrendo uma mudança no padrão do clima de ondas sobre o oceano, e as praias devem estar respondendo a esse fenômeno. Se a direção das ondas muda, a praia como um todo tende a rotacionar, de forma a se equilibrar com essa nova configuração.

Se o homem intervém sobre o ambiente sem conhecê-lo, com soluções de curtíssimo prazo, feitas sem critério técnico, a erosão pode se intensificar, a praia pode chegar a um ponto de não retorno
João Luiz Baptista de Carvalho

“Se, adicionado aos fenômenos naturais, que interferem na dinâmica praial, o homem intervém sobre o ambiente sem conhecê-lo, com soluções de curtíssimo prazo, feitas sem critério técnico, a erosão pode se intensificar, a praia pode chegar a um ponto de não retorno. A perda dos atrativos turísticos dessa praia é inevitável e a atividade econômica associada tende a se reduzir drasticamente”, alerta Carvalho.

Soluções para mitigar a erosão

O ideal seria que, durante o processo de ocupação e urbanização das praias, os tomadores de decisão adotassem recuos adequados para permitir que elas “respirem”, preservando ao máximo suas características naturais, evitando estradas e passeios públicos à beira-mar. “E que as cidades da orla não queiram se parecer com Copacabana a qualquer custo. A própria Princesinha do Mar, aliás, já passou por um processo intenso de erosão praial que foi resolvido com um aterro hidráulico nos anos 70”, orienta.

Mas, quando a urbanização se fez sobre dunas e restingas, e o município já convive com processo erosivo, é aconselhável pensar em um engordamento da praia. “Essa solução consiste em repor a areia da praia, retirando de uma jazida por meio de bombeamento e transporte. A areia da jazida tem que necessariamente apresentar características desejáveis de tamanho médio de grão, para que a hidrodinâmica gerada pelas ondas não as retire depois da deposição no local engordado”, recomenda o professor.

Esse, porém, é um estudo complexo, caro, que envolve várias opções de jazidas que concorrem entre si, entre outras variáveis, pelas características do grão de areia, pela disponibilidade do volume necessário ao engordamento e pela distância transportada.

Há outras opções de proteção costeira também eficientes e, para cada uma delas, há vantagens e desvantagens. É preciso avaliar bem a relação custo-benefício de cada uma. “O mais importante é ter em mente que não há uma solução única para todo tipo de praia. Cada caso é um caso e a solução para o problema tem que ser avaliada com base em critérios técnicos e científicos”, afirma.

Além de as praias terem seus limites naturais respeitados, é fundamental que a legislação e a fiscalização sejam implacáveis, que a vegetação de restinga e as dunas sejam de fato percebidas como área de preservação ambiental
João Luiz Baptista de Carvalho

Hoje, há uma série de ferramentas e dados à disposição do pessoal técnico das prefeituras para promoverem estudos que irão definir as linhas de base para início da ocupação urbana. Os limites das praias têm que ser definidos adotando-se as projeções de elevação do nível do mar apresentados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, para que as gerações futuras possam conviver com praias saudáveis e, assim, desfrutáveis.

“Além de as praias terem seus limites naturais respeitados, é fundamental que a legislação e a fiscalização sejam implacáveis, que a vegetação de restinga e as dunas sejam de fato percebidas como área de preservação ambiental”, completa o professor.

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Colaboração técnica

João Luiz Baptista de Carvalho
João Luiz Baptista de Carvalho – Possui graduação em Oceanografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1985) e Engenharia Civil pela Universidade do Vale do Itajaí (2017), mestrado (1993) e doutorado (2003) em Engenharia Oceânica pela COPPE/Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fez estágio doutoral na School of Civil and Environmental Engineering da Georgia Tech em Atlanta, USA. É professor adjunto na Universidade Federal do Pará, Campus Salinópolis, atuando no curso de Engenharia de Exploração e Produção de Petróleo. Tem experiência nas áreas de Oceanografia Física e Engenharia Oceânica, com ênfase em métodos de análise de dados meteo-oceanográficos, circulação costeira, modelagem hidrodinâmica e transporte de escalares, oceanografia operacional e obras costeiras.