Por que e como reaproveitar containers na construção?

Material pode ser empregado na criação de estruturas provisórias no canteiro ou na execução de tipos distintos de edificações residenciais ou comerciais. Veja mais a seguir

Publicado em: 12/04/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Containers na construção
Os containers podem ser usados como estruturas provisórias nos canteiros (Foto: serato/Shutterstock)

O reaproveitamento de containers pela construção civil nacional é prática comum. Após cumprirem seu papel no transporte de cargas, as peças são transformadas em estruturas provisórias nos canteiros ou em ambientes habitáveis, sejam eles comerciais ou residenciais. “Depois que saem do ramo marítimo, continuam bastante úteis e oferecem muitos benefícios”, destaca Silvio Campos, presidente da Câmara Brasileira de Contêineres, Transporte Ferroviário e Multimodal (CBC).

Qualquer tipo de container pode ser reaproveitado, porém, existem regras que precisam ser atendidas. Por exemplo, a NR-18 determina a realização de testes para garantir que não há nenhum tipo de contaminação, riscos químicos ou níveis de radioatividade nas peças transformadas em instalações para abrigar os trabalhadores do canteiro. “Quando as exigências são cumpridas, o container marítimo é utilizado sem preocupação”, diz Campos.

Depois que saem do ramo marítimo, continuam bastante úteis e oferecem muitos benefícios
Silvio Campos

O arquiteto Felipe Savassi, titular da Felipe Savassi Container Studio, informa que é possível adaptar para habitações tanto o container reefer (refrigerado) quanto o dry (usado para cargas secas). “Sempre são necessárias avaliações antes de aproveitá-los na construção civil. É preciso ainda que apresentem laudos de descontaminação e habitabilidade, garantindo assim que estão aptos para ocupação”, comenta.

Nacionalização

Praticamente em todo o país existem empresas especializadas na adequação e descontaminação dos containers. Porém, antes de dar início ao trabalho, é preciso nacionalizar o material seguindo a legislação da Receita Federal. “Eles são, na grande maioria, fabricados na China. Entram como importação temporária no Brasil e, por se tratar de produto estrangeiro, têm que ser nacionalizados antes do uso”, explica Campos.

Segundo o presidente da CBC, recentemente a entidade conseguiu reduzir para zero a alíquota do processo de nacionalização dos containers. “Hoje não se paga nenhum valor de imposto de importação, além disso, já existia isenção de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Os únicos custos vigentes são a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS) e o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS)”, detalha.

Transformando os containers

Quando a construtora pretende adquirir ou alugar os containers, a principal recomendação é procurar por fornecedores com boa procedência no mercado. Assim, elimina-se completamente o risco de receber uma peça que não tenha sido devidamente preparada para o reaproveitamento. “Geralmente, para uso como estruturas provisórias nos canteiros, o mais comum é o aluguel”, comenta Campos.

Algumas pessoas acham que construir com container seja algo muito simples, por isso, acreditam que podem executar a obra sem o auxílio de profissionais especializados
Felipe Savassi

“Algumas pessoas acham que construir com container seja algo muito simples, por isso, acreditam que podem executar a obra sem o auxílio de profissionais especializados”, diz Savassi, destacando que, quando isso acontece, o resultado tende a ser frustrante. “Outro problema comum é que as intervenções no container são feitas no próprio terreno onde ficará a edificação, ou seja, sem nenhum tipo de controle e incomodando os vizinhos”, completa.

O arquiteto ensina que a transformação da peça em ambiente habitável passa pela incorporação de isolantes térmico e acústico. “Uma das principais objeções da construção modular com containers é justamente o conforto termoacústico”, afirma. No entanto, Savassi ressalta que existem laudos laboratoriais atestando que se o sistema de isolamento for bem dimensionado e executado, pode se tornar ainda mais eficiente do que a alvenaria.

“Trabalhamos com até oito camadas desse material isolante, levando em consideração o posicionamento da edificação frente ao sol e o sombreamento. Também é preciso avaliar o tipo de material que será empregado no revestimento. Dependendo da solução, conseguimos especificar mais ou menos camadas”, detalha o arquiteto. Entre os isolantes mais comuns estão as mantas térmicas e hidrófugas, além das lãs de vidro, rocha e PET.

A criação de paredes divisórias é feita com drywall e Light Steel Framing. “Nas faces externas podem ser criadas fachadas ventiladas, principalmente, quando ficam voltadas para o sol. Essa solução cria um colchão de ar que inibe a incidência dos raios solares diretamente nas chapas metálicas do container. Com isso, o ambiente interno acaba se tornando mais confortável, afinal, o aço é altamente condutor térmico”, ensina Savassi.

Praticamente, todos os materiais disponíveis no mercado e que atendem à construção tradicional podem ser utilizados nesse sistema modular. “Para cada acabamento diferente, é necessário aplicar uma placa específica na parede. Por exemplo, se for escolhido o gesso para criação de um aspecto de casa convencional, a base para receber essa solução pode ser uma placa cimentícia ou de OSB”, exemplifica o arquiteto.

Já nas áreas molhadas, podem ser criadas paredes reforçadas com OSB ou placa cimentícia, que, na sequência, recebem um tipo de gesso próprio para situações com maior umidade. Depois, é possível aplicar normalmente a argamassa e um porcelanato. “Lembrando que qualquer tipo de cerâmica ou porcelanato pode ser aproveitado nas edificações executadas a partir de containers”, comenta Savassi.

Solução sustentável

Por todo o processo envolvido na criação da estrutura, esse sistema é considerado sustentável. “Quase 95% dos módulos são fabricados em ambiente controlado, com alto grau de tecnologia, máquinas, equipamentos e mão de obra qualificada”, diz Savassi. A execução é seca e não utiliza recursos naturais, como água, cimento e areia, além disso, não há desperdício de materiais ou necessidade de retrabalhos.

Esse modelo de construção praticamente não contribui para a geração de resíduos. “O que é bastante importante, já que 65% de todo o lixo urbano provem de obras convencionais. Temos um alto grau de sustentabilidade, e os projetos que desenvolvemos sempre levam em consideração as diretrizes de eficiência energética, aproveitando os sistemas fotovoltaicos e de captação de água de chuva, entre outras soluções”, detalha Savassi.

O prazo para execução também é reduzido, sendo cerca de três vezes inferior se comparado com o da construção tradicional. “Estamos reutilizando um módulo que seria descartado. Quando essas peças ficam muito sucateadas, acabam virando problema nas regiões portuárias. Alguns responsáveis vez ou outra as dispensam no fundo dos oceanos. Apesar de ser um crime ambiental, milhares de containers têm esse destino”, diz o arquiteto.

Outras vantagens

De acordo com Campos, as estruturas provisórias dos canteiros antigamente eram executadas em madeira e de maneira mais simples. Porém, atualmente, o advento dos containers tornou esses espaços mais confortáveis. “Além disso, há maior segurança. No passado, aparelhos de ar-condicionado e outros equipamentos dentro dessas instalações eram frequentemente furtados. A estrutura reforçada do container dificulta esse tipo de ação”, comenta.

Aproveitar o container como estrutura provisória do canteiro também auxilia no cumprimento da legislação trabalhista, que evoluiu e passou a apresentar novas exigências. “O sanitário costumava ser de péssima qualidade, hoje em dia, se tornou padronizado com os containers”, destaca Campos, informando que a estrutura é sempre dimensionada para atender às exigências das normas, garantindo mais conforto, segurança e higiene.

Já no caso das casas modulares, a principal dica é contatar um arquiteto com conhecimento no sistema para elaborar o projeto, além de contar com empresa especializada para a execução. “Quando se busca somente preço, há muitos fornecedores que oferecem serviço de baixa qualidade. Precisamos puxar para cima a régua desse mercado, afinal, se trata de um sistema inovador, conceitual e sustentável”, conclui Savassi.

Quer ver na prática? Acesse a Galeria da Arquitetura e conheça projetos construídos com containers, como o Gastrô Pub, Casa Container de Lorena e muitos outros

Colaboração técnica

Silvio Campos
Silvio Campos — Bacharel em Ciências Administrativas, pela Faculdade de Administração e Estatística Paes de Barros (SP), e em Engenharia Metalúrgica, pela Faculdade de Engenharia Industrial (SP). Procurador da empresa Brasteiner 2.000 Comércio e Locação de Contêineres. Ocupa o cargo de presidente da Câmara Brasileira de Contêineres, Transporte Ferroviário e Multimodal (CBC). Também é presidente da Sociedade dos Amigos da Marinha do Rio de Janeiro (SOAMAR/Rio), diretor do Setor Aquaviário da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e membro do Conselho Consultivo do SEST e SENAT.
Felipe Savassi
Felipe Savassi — Arquiteto e urbanista, pós-graduado em arquitetura, construção e gestão de edifícios sustentáveis. É membro do Green Building Council Brasil, desde 2013, e especialista em arquitetura e construção em container. Trabalhou durante 10 anos em Minas Gerais com a arquitetura e construção sustentável, contribuindo para que o paradigma de que grandes edifícios corporativos, institucionais e residenciais pudessem ser concebidos e construídos de forma sustentável. Mas foi em Florianópolis, em 2015, quando teve contato pela primeira vez com a arquitetura em container, que enxergou a possibilidade de aplicar toda sua bagagem e filosofia de trabalho nessa forte tendência da arquitetura mundial. Desde então, foram dezenas de projetos executados pelo Brasil, além de palestras e cursos. É titular do seu próprio estúdio, o Felipe Savassi Container Studio.