Prédios verdes são rentáveis para construtoras e moradores

Diretor do escritório de engenharia Joal Teitelbau diz que prédios sustentáveis representam ganho de mercado para construtoras e economia para futuros moradores

Publicado em: 23/04/2010Atualizado em: 08/10/2019

Texto: Redação AECweb

Entrevista: Claudio Teitelbaum

Construindo prédios verdes

Redação AECweb


Reconhecido com diversos prêmios por sua atuação em gestão ambiental, inclusive por seis vezes seguidas pela CNI – Confederação Nacional da Indústria -, o escritório de engenharia Joal Teitelbaum, de Porto Alegre, comprova que prédios ‘verdes’ são um excelente negócio. Em entrevista ao  AECweb, o engenheiro Claudio Teitelbaum, diretor de Qualidade da empresa que já ergueu mais de 500 mil metros quadrados de obras, conta que a adoção de práticas sustentáveis teve início em 1995. Em 2007, construiu o primeiro prédio residencial a partir dos critérios do USGBC – US Green Building Council. Segundo ele, a indústria de materiais e sistemas do sul do país consegue, sozinha, fornecer para suas obras.

AECweb - Qual é o perfil da Joal Teitelbaum?
Teitelbaum - O Escritório de Engenharia Joal Teitelbaum foi fundado em 1961 e desde então dedica-se ao gerenciamento e construção de empreendimentos residenciais, comerciais e corporativos, no sistema de preço de custo (construção por administração). Já construímos mais de 500 mil metros quadrados, sempre considerando a gestão da qualidade e a sustentabilidade como princípios básicos para a busca de melhores resultados estratégicos e operacionais. Hoje, atuamos fortemente no sul do país e, através de nossa unidade de negócios de consultoria, possuímos um projeto no Distrito Federal com uma excelente incorporadora local.

AECweb - Em que momento optou pelo conceito de construção sustentável?
Teitelbaum - Já em 1995, foi instituído na Joal Teitelbaum o Processo CONSERVE (Construção a Serviço da Ecologia), com o propósito de compatibilizar suas construções com o ambiente em que são edificadas. Após conquistar seis premiações nacionais em gestão ambiental, concedidas pela CNI – Confederação Nacional da Indústria -, decidimos que todas as nossas edificações deveriam buscar a excelência socioambiental. Foi quando constamos que o método mais efetivo para a concretização este objetivo era compatibilizar nossos conceitos com aqueles do US Green Building Council, através da adequação de nossas obras à certificação LEED.

AECweb - Os prédios verdes ficam 3% mais caros, mas ainda assim são sucesso de vendas?
Teitelbaum -
O custo é realmente mais elevado, mas o investimento, com certeza, vale a pena. Além dos ganhos de mercado em termos de fluxo de caixa, pois estamos conseguindo comercializar nossos empreendimentos bem antes do início das obras, os grandes beneficiados passam a ser os futuros moradores. Em 20 anos, a economia gerada a um condomínio de porte médio pelo sistema de aquecimento solar em VPL é de mais de R$ 900 mil, e do projeto luminotécnico chega a R$ 200 mil. Assim, mostramos que esses investimentos são economicamente viáveis, socialmente justos e, principalmente, ambientalmente corretos, completando o tripé da sustentabilidade.

AECweb – Esse é um modelo viável para empreendimentos de classe média?

Teitelbaum - O empreendimento Príncipe de Greenfield foi o primeiro que lançamos já adequados às diretrizes de sustentabilidade da certificação LEED e dedica-se à classe média. Ele é dirigido para um público com consciência ambiental, com certeza. Todos aqueles que adquiriram as unidades (lofts a apartamentos de 1 e 2 dormitórios) colocaram, na pesquisa pós-venda, que um dos principais fatores críticos de sucesso é a questão da sustentabilidade do empreendimento. Hoje, já com vários empreendimentos lançados apoiados nesta temática, temos um público bastante eclético, pois a consciência ambiental não depende da idade e do estágio de vida dos consumidores.

AECweb – E para o segmento popular?
Teitelbaum - Ressalto, apenas, que quando falamos no segmento popular, temos que analisar muito bem a viabilidade financeira do incorporador em implementar algumas iniciativas, como vidros duplos ou tratamento de águas cinzas ou negras, por exemplo, pois podem inviabilizar o empreendimento. No entanto, algumas iniciativas como a espera para aquecimento solar, reuso de água da chuva, colocação de telhados verdes e pavimentos permeáveis, e o projeto de um local para bicicletário, agregam valor ao produto e não impactam significativamente no custo.

AECweb – Qual a obra que a Joal Teitelbaum está construindo no empreendimento Pedra Branca (SC)? 
Teitelbaum - O primeiro lançamento é o Pátio da Pedra, com 42 mil m² de área construída. É composto por cinco torres e segue as diretrizes de certificação LEED-CS. O empreendimento está inserido dentro do conceito de novo urbanismo, onde os prédios interagem com a rua e com os pedestres. Toda a sustentabilidade foi pensada e planejada em reuniões multidisciplinares com os maiores expoentes mundiais. Simulações foram feitas em diversas áreas e creio que a excelência está próxima de ser alcançada no que tange a um bairro sustentável, inédito no cenário brasileiro. Isso mostra o porquê de a Pedra Branca ter sido escolhido como um dos 18 projetos apoiados pela Fundação Clinton Climate Positive.

AECweb – Quais os recursos sustentáveis que serão implementados ali?
Teitelbaum - O Patio da Pedra possui mais de 40 atributos sustentáveis divididos entre eficiência energética, água, materiais, recursos naturais e conforto do morador. Entre eles, podemos citar o uso de aquecimento solar, reuso de água da chuva, placas fotovoltaicas, madeira vinda de fonte de manejo controlado, materiais isentos de compostos orgânicos voláteis, equipamentos e máquinas com motores eficientes, bicicletários e redes de ar condicionado projetadas para aparelhos que não usam gás CFC.

AECweb - Quais as boas práticas de canteiro implementadas pela empresa?
Teitelbaum - Nossos procedimentos vêm desde o projeto e o planejamento do empreendimento. O canteiro de obras possui instalações com luminárias eficientes, sem uso de lâmpadas incandescentes, central de lavagem de pneus para não poluir as ruas do entorno, proteção de taludes e pisos de terra para que não soltem pó, proteção de caçambas de entulho, separação e encaminhamento à reciclagem ou reuso do resíduo gerado, entre outras práticas. Os colaboradores são também treinados na coleta seletiva, racionalização de água e energia. Os engenheiros são treinados e conferem constante monitoramento do consumo de água e energia e da quantidade de resíduo gerado.

AECweb – Qual a atenção dada aos materiais e sistemas construtivos?
Teitelbaum
- Privilegiamos fornecedores situados a um raio de 800 km da obra para que se fortaleça a indústria local e se consuma menos combustível. Adicionalmente, são projetados sistemas construtivos que consumam menos recursos naturais. Exemplificando: nossas estruturas são feitas com escoras metálicas e formas de polipropileno, o que reduziu em mais de 80% o uso de madeira em nossos canteiros de obra.

AECweb - Isto significa que o sul do país tem indústrias e tecnologias que sustentam essa prática?
Teitelbaum - Essa diretriz está implícita em nosso processo de suprimentos. Na fase do planejamento da obra, mapeamentos os principais insumos e buscamos fornecedores locais e, no caso de não existirem, promovemos o seu desenvolvimento. No sul do país já existem excelentes fornecedores para aquecimento solar, reuso de águas pluviais, tratamento de águas cinzas e negras, pavimentos permeáveis, tintas, telhados verdes, etc.

AECweb - A empresa busca certificação de impacto ambiental (LEED) para seus empreendimentos?
Teitelbaum - Todos os nossos empreendimentos lançados a partir de 2007 possuem diretrizes de projeto, planejamento e construção adequados à Certificação LEED-CS do USGBC. A Certificação é opcional e só pode ser obtida após o término da obra. No entanto, consideramos que mais importante do que uma certificação, é a consciência de estar aplicando estes conceitos da forma mais inteligente possível e que realmente agregue valor aos clientes e suas famílias.

AECweb - Prédios verdes são um bom negócio para quem constrói e para o investidor?

Teitelbaum - Com certeza. Se não o fosse, o crescimento do número de empreendimentos sustentáveis não estaria ocorrendo de forma tão rápida. Para se ter uma idéia, nos Estados Unidos, os fundos SRI’s (Social Responsible Investment Trends) são equivalentes a 10% do total aplicado na bolsa. No Brasil, o consumidor já iguala a responsabilidade socioambiental das empresas à qualidade de atendimento, em vários outros setores. Assim, percebemos que todo e qualquer investimento na melhoria de processos que levem à sustentabilidade gerarão retorno para as empresas com esta cultura. No nosso caso, mais especificamente, estamos tendo um excelente retorno do mercado e os clientes ficam realmente entusiasmados com as inovações implementadas nos empreendimentos.

AECweb - A sustentabilidade na construção civil brasileira veio para ficar?
Teitelbaum - Sem dúvida, esta é uma tendência da qual as construtoras não poderão fugir. Nas obras da Joal Teitelbaum, a sustentabilidade já é uma realidade. De forma pioneira estamos implantando técnicas que surgem desde a fase de projeto, passam pelo desenvolvimento do empreendimento e se solidificarão no seu uso. Na construção civil em geral, entretanto, ainda não é uma regra muito clara se diferenciar o ecológico do sustentável. A sustentabilidade deve ser ambientalmente correta, socialmente justa e economicamente viável. Assim, reaproveitar a água da chuva para irrigação já é um começo, mas está longe de tornar um prédio realmente sustentável.

AECweb – Qual a sua avaliação do mercado da construção civil no país?
Teitelbaum
- A construção civil vive um excelente momento em vendas e crescimento de lançamentos, em todos os segmentos, principalmente aqueles atendidos pelo Programa Minha Casa, Minha Vida. Para 2010, o Banco Central projeta crescimento de 5,8% para o PIB do país e incremento de 10,1% para o PIB da indústria da construção civil. No entanto, já há alguns meses, estes fatores estão gerando um enorme déficit de mão de obra em todos os níveis, dos serventes aos engenheiros civis. Dados acumulados de 2010 demonstram que as vagas geradas pelo mercado da construção civil equivalem a 22,79% do total no país. Projetistas e fornecedores, por sua vez, trabalham acima de suas capacidades. Estas condicionantes estão levando ao aumento de preços, que se reflete em uma inflação interna nas construtoras/incorporadoras e na disputa muitas vezes desleal e, principalmente, antiética, por profissionais entre as empresas do setor.

Redação AECweb