Primeira e única recicladora de gesso está em operação no Ceará

Há muitas empresas pelo país que reciclam resíduos de gesso destinados ao cimento e à agricultura. A BioCicla inova ao levar o processo até a fase de calcinação, dando origem aos produtos empregados na construção civil

Publicado em: 06/02/2024

Texto: Hosana Pedroso

Foto: Adobe Stock

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Por um longo período acreditou-se, no Brasil, que o gesso seria um material não reciclável e altamente contaminante do solo e do lençol freático. Quebrando o paradigma, foi criada em 2019 a primeira e única planta do país que recicla, calcina e recoloca o produto no mercado da construção civil. Sediada no Ceará, a planta da BioCicla tem capacidade instalada para 1 mil toneladas mensais, com possibilidade de ampliação a depender da demanda de resíduos coletados.

O empreendimento foi desenvolvido pelo consultor Fauáz Abdul – Hak, com larga experiência em negócios vinculados ao gesso; pelo engenheiro de automação e controle Renato Galvão, sócio-diretor da Mekatronic, especialista em máquinas e equipamentos; e Oderlando Moura, que responde pela maior empresa gesseira da região nordeste, a MM Gesso.

“A ideia inicial foi horizontalizar a empresa gesseira que, ao mesmo tempo que gera grandes volumes de resíduos, também consome. Vimos, no entanto, a oportunidade de implantação de uma logística para receber resíduos de gesso tanto de outras empresas similares quanto de construtoras”, conta Hak. Diante do potencial do projeto, há, ainda, a intenção de disseminar a iniciativa para outros pontos do país em parceria com empresas locais.

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Mercado de resíduos e reciclagem

O consultor conta que, em passado recente, o material passou a ser condenado como contaminante, induzindo um aumento nos preços do descarte. “Se na caçamba de uma obra havia gesso, o preço do descarte chegava a triplicar com a justificativa de que o material seria encaminhado para aterros de resíduos perigosos. No entanto, geralmente era levado para aterros comuns”. Com a evolução das tecnologias de reciclagem, a curva se inverteu e, hoje, não se descarta mais gesso. “As recicladoras pagam para receber o produto”, diz.

Se na caçamba de uma obra havia gesso, o preço do descarte chegava a triplicar com a justificativa de que o material seria encaminhado para aterros de resíduos perigosos. No entanto, geralmente era levado para aterros comuns
Fauás Abdul – Hak

São empresas, inclusive de grande porte, que reciclam sem chegar à etapa da calcinação. O produto gerado é destinado aos setores cimenteiro e agrícola. “O gesso é matéria-prima do cimento e, por ser composto por cálcio, enxofre e água, é usado na fertilização do solo”, explica.

Já a calcinação do resíduo em fornos, como faz a BioCicla, é essencial no processo para o uso do material pela construção civil. Esse é o produto que vai compor as placas de drywall e os blocos de gesso, e será empregado no revestimento de paredes e em elementos decorativos, entre outros. Com esse nível de reciclagem, o gesso é confirmado como um material sustentável, cujo ciclo de vida vai do berço ao berço indefinidamente.

“Hoje falta gesso no mercado, principalmente no sul e sudeste, distantes das jazidas na região nordeste do país”, diz, apontando que o frete encarece o produto. Por isso, é fundamental que as obras e as empresas gesseiras façam a separação dos resíduos e vendam para a reciclagem, com a vantagem de eliminar o custo do envio a aterros.

Ao longo da obra ou na desconstrução de uma edificação, materiais incorporados ao gesso, como alumínio, ferro, madeira ou papel são manualmente retirados. A partir daí, o gesso é passível de reciclagem. “Porém, se estiver misturado com concreto, tinta ou tijolo, pode descartar”, orienta Hak.

Captação e reciclagem

De acordo com o consultor, a logística de captação é o principal gargalo da reciclagem. “O preço do transporte desde a obra até a recicladora não pode ser maior do que o do produto a ser vendido por ela, seja para o cimento, agricultura ou construção civil”, comenta. Consequentemente, o resíduo disponível em regiões do país onde não há recicladoras tem que ser descartado em aterro.

No Estado de São Paulo há várias empresas que reciclam para a agricultura e o cimento, mas em outros locais essa atividade é inexistente. Quanto mais próximo de uma recicladora, o transporte vai perdendo valor, que é assumido por quem recicla.

Outro aspecto determinante da captação é a qualidade do resíduo: se estiver livre de agregados e em bons volumes, interessa à recicladora pagar para retirar. “Gesso para ser recalcinado tem exigência máxima de qualidade, deve ser o mais limpo possível, pois vai competir com o produto virgem no mercado da construção civil. O que não ocorre com o gesso reciclado para cimento e agricultura”, fala.

Apesar do trabalho de divulgação feito por organismos e entidades setoriais, como CREA e SindusCon, ainda são raras as construtoras que destinam os resíduos para reciclagem. “Perde-se muito volume de gesso, assim como dos demais resíduos de obras. Apenas as grandes empresas ocupam-se da gestão de resíduos, aquelas que já implementaram programas de ESG e que dependem de financiamento internacional. Em seus relatórios precisam comprovar as boas práticas e envio dos resíduos de gesso para reciclagem”, relata Hak.

Apenas as grandes empresas ocupam-se da gestão de resíduos, aquelas que já implementaram programas de ESG e que dependem de financiamento internacional
Fauás Abdul – Hak

Segundo ele, é mais usual que o próprio gesseiro que executa trabalhos em gesso nas obras recolha os resíduos e encaminhe para reciclagem.

Colaboração técnica

Fauáz Abdul – Hak  – É formado em Engenharia Civil pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1983) e em Engenharia de Operação pela Escola Técnica Federal do Paraná (1978), com especializações em diversas áreas, como concreto, agregados e reciclagem de resíduos da construção. É presidente da Associação Paranaense dos Beneficiadores de Material Pétreo – PedraPar, presidiu a Associação de Empresas Paranaenses de Reciclagem Resíduos Sólidos da Construção Civil – Aemparcc e é membro do conselho da Associação Nacional Entidades Produtores Agregados para Construção – Anepac. É titular da Fauáz Abdul – Hak – Consultoria em Negócios da Mineração de Agregados, da AB – Soluções Ambientais e foi diretor da Caliça – Engenharia Ambiental. Na área do gesso, atua através da Fauáz Abdul – Hak Consultoria em Negócios de Gesso e Drywall, prestando consultoria a Associação Brasileira dos Fabricantes de Chapas de Drywall. Foi diretor-superintendente da EcoGesso e, atualmente, é diretor-executivo da Neo Vale – Logística e Movimentação de Granéis. É sócio-fundador da BioCicla – Reciclagem Ambiental Ltda e da Polli Fertilizantes – Indústria de Fertilizantes.