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Projeto de iluminação revela a arquitetura monumental de aeroportos

Entre os desafios, o lighting designer deve entender a escala dos terminais de passageiros para especificar as luminárias e, também, atender às necessidades de passageiros e operadores

Publicado em: 10/06/2021Atualizado em: 11/06/2021

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Aeroporto de Confins
O projeto de iluminação de edifícios aeroportuários tem início pela compreensão do partido arquitetônico (Foto: Ana Mello)

Em todo o mundo, o terminal de passageiros dos aeroportos é uma obra de arquitetura icônica e simbólica. É o cartão de visitas de uma cidade ou de um país. “Muito além da funcionalidade que, óbvio, tem que ser atendida, se investe bastante na monumentalidade. Há exemplos de belos aeroportos em muitas cidades do mundo”, afirma o arquiteto Gilberto Franco, titular do escritório Franco Associados, que assina projetos de iluminação de diversos aeroportos no país, como o Santos Dumont (RJ) e o de Confins (MG). “Neste momento, estamos projetando a iluminação das obras de revitalização do Aeroporto Internacional de Guarulhos que, por coincidência, foi nosso primeiro trabalho no setor, há 30 anos”, conta.

Muito além da funcionalidade que, óbvio, tem que ser atendida, se investe bastante na monumentalidade. Há exemplos de belos aeroportos em muitas cidades do mundo
Gilberto Franco

Segundo ele, o projeto de iluminação de edifícios aeroportuários tem início pela compreensão do partido arquitetônico, da personalidade do edifício, de seu aspecto cenográfico e plástico. “E pela definição de como a iluminação pode reforçar a identidade que se pretende dar àquele edifício”, comenta. Normalmente, nos terminais de passageiros, os ambientes são muito amplos e abertos, com pé-direito superior a 10 ou 12 m. Assim, um dos desafios do lighting designer é entender a escala desse tipo de obra em relação a outras edificações – se comparada a shopping centers ou prédios corporativos, por exemplo, ela está no topo.

“Essa grandiosidade tem influência direta nos equipamentos de iluminação a serem especificados no projeto, numa escala proporcional à do próprio edifício”, ressalta. Ele se refere às luminárias hi-bay, apropriadas para ambientes de muita altura e que reúnem “pacotes” altos de luz (quantidade de lumens). O recurso garante conforto para os passageiros e a operabilidade de cada uma das áreas, desde os saguões gigantes até as de circulação, raio-x e check-in.

“Procuramos colocar a luz mais neutra possível nas áreas de raio-x, por exemplo, onde fica a multidão aglomerada, pegando casaco, depositando objetos para checagem, guardando notebook, malas, tirando e pondo sapatos. No local, não pode haver luz e sombras, como já vi em aeroportos onde a iluminação não foi bem projetada, o que só faz aumentar a confusão”, comenta Franco.

Iluminado e valorizado

Revelado pela iluminação, o aeroporto manifesta a sua personalidade em dois momentos: quando visto de fora e internamente. “Não estou me referindo à iluminação da fachada. Mas sobre como a iluminação valoriza o edifício no ambiente noturno. Se ele tem grandes panos de vidro, é possível ver os ambientes internos e a luz tem que ajudar a perceber essa transparência. Ou, se ele tem uma estrutura nervurada, a iluminação vai destacá-la ou, ainda, expor sua horizontalidade. Enfim, a iluminação interna vai reforçar os aspectos geométricos e plásticos do edifício”, explica.

Internamente, o terminal costuma ter um local que causa deslumbramento nas pessoas. Pode ser o saguão de acesso e o píer, de onde saem todos os conectores – áreas que concentram lojas e lanchonetes, salas de pré-embarque e vistorias – com grande circulação de passageiros. “O píer é o local onde está a maior monumentalidade, que o projeto de arquitetura vai explorar com a ajuda da iluminação”, ressalta Franco.

Para as áreas de caráter funcional – raio-x, Receita Federal, controle de passaporte, entre outras –, o projeto de iluminação pode ser específico, ou similar para todas. Se o edifício tem um pé-direito único, a iluminação do posto de controle de passaportes pode não ser diferente da projetada para o controle de bagagem. “De qualquer forma, o critério do projeto é atender às especificidades técnicas de cada uma delas”, diz.

Existem normas técnicas, porém, muito além de seus requisitos, o trabalho do lighting designer é de criação e multidisciplinariedade. “Tanto exploramos conhecimentos da arquitetura e da luz enquanto matéria, e as potencialidades geométricas dos espaços para que fiquem mais bonitos e atraentes, como atendemos as normas de cálculo para proporcionar as quantidades de lúmens necessários para as atividades dos passageiros e operadores”, expõe, lembrando que há, ainda, uma série de parâmetros técnicos para que as luminárias não emitam luz em ângulos indesejáveis. Soma-se a especificação de equipamentos que evitam o ofuscamento.

Eficiência energética

Hoje, alguns aeroportos brasileiros estão atualizando a iluminação dos terminais de passageiros, substituindo luminárias existentes pelas de LED. Essa tecnologia, segundo Franco, representou um divisor de águas no mundo da iluminação. “É uma fonte de luz tão eficiente e duradoura se comparada às demais, que foi suplantando uma a uma, até não sobrar quase nada. A eficiência das fontes de LED é o dobro das fontes eficientes de outrora e dez vezes superior à de lâmpadas antigas”, afirma. Exemplo são as incandescentes de 60 watts: a cada watt consumido, ela emite 15 lúmens, o que dá um total de 900 lúmens. Uma fonte de LED de alta eficiência, que pode ser usada em aeroporto, proporciona 150 lúmens/watt. “A relação é, portanto, de 1 para 10 em relação a uma fonte antiga”, comenta.

Um recurso utilizado em aeroportos é a coleta de luz natural, utilizando sensores de luz que poupam as luminárias quando há bastante luz natural entrando
Gilberto Franco

Esse não é, no entanto, o único recurso na busca da eficiência energética. Afinal, é preciso economizar energia e, também, os próprios equipamentos. “Uma luminária para LED dura 50 mil horas. Se ficar acesa durante 18 horas/dia, ela vai durar quase oito anos. Mas, se for acionada por 9 horas/dia, sua vida útil será o dobro. Além de se economizar energia, o equipamento também será poupado. Um recurso, portanto, utilizado em aeroportos é a coleta de luz natural, utilizando sensores de luz que poupam as luminárias quando há bastante luz natural entrando. Outro ganho é promover no edifício certa movimentação de luz, que é bem-vinda. O aeroporto tem tudo para ser um organismo vivo, que possa respirar conforme a luz está disponível para ele”, diz.

Alguns países já adotam o sofisticado sistema automático de persianas que fecham diante do excesso de luz, de um lado, mas que ficam abertas do outro. Se falta iluminação natural, o sistema abre as persianas ao máximo para capturar e iluminar o interior do terminal. Outro recurso interessante, ainda recente no mercado brasileiro, é a possibilidade de variação da tonalidade da luz artificial, mantendo-a branca durante o dia e mais quente à noite. “A própria expectativa humana com relação à noite é de menos luz. Temos tecnologia, hoje, para tornar a iluminação mais amarelada, apropriada para quem espera um voo na madrugada”, diz.

Manutenção e reparos

Para o bom funcionamento do sistema de iluminação e visando sua manutenção e reparos, é essencial a especificação de luminárias boa qualidade, com componentes confiáveis, além de exigir dos fornecedores garantias de cinco anos para os produtos. “Exigimos, também, que os equipamentos de LED tenham vida útil prolongada, por exemplo, nada que seja inferior a 50 mil horas para essas áreas de pé-direito muito alto – a rigor, em nenhuma área, independentemente da altura, deveria ser menos do que isso”, ressalta Franco.

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Colaboração técnica

Gilberto Franco
Gilberto Franco – Arquiteto graduado pela FAUUSP (1981) teve em toda a sua carreira o Lighting Design como profissão e interesse maior. Durante as décadas de 1980 e 1990, participou de importantes projetos, como o Palácio do Itamarati, Edifício Citibank São Paulo e Embaixada do Brasil em Buenos Aires, além de ter trabalhado em cerca de outros 700 projetos no então escritório Esther Stiller e Gilberto Franco. Desenhou refletores e conjuntos óticos de luminárias para diversos fabricantes. Entre 1997 e 2012, a Franco e Fortes Lighting Design, conquistou o IALD Award of Merit pelo projeto Estação da Luz – Museu da Língua Portuguesa e realizou mais de dois mil projetos de iluminação. Com a saída de Carlos Fortes da empresa, o escritório passou à denominação Franco Associados. Participou da fundação, presidiu e dirigiu a Associação Brasileira de Arquitetos de Iluminação (AsBAI). Durante quatro anos, foi Director-at-Large da International Association of Lighting Designers (IALD). Desde 2011 possui título de LEED Green Associate.