CBCS busca aumentar eficiência energética de edificações em atividade

Batizado de Desempenho Energético Operacional, o trabalho tem por objetivo reduzir as diferenças entre projeto e prática

Publicado em: 13/01/2016Atualizado em: 02/02/2016

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket


Desenvolvido pela RAF Arquitetura, o edifício da Sede da Abengoa possui materiais translúcidos e vigas de madeira projetadas para receber placas fotovoltaicas (Foto: Celso Brando)

O consumo energético de uma edificação em operação, muitas vezes, é bem diferente do valor calculado na fase de projeto. Quando comparados os dados previstos em simulações com os números reais medidos após alguns anos de operação do prédio, a diferença chega a ser de 50% a mais. Em alguns casos, esse valor chega a até 150%, de acordo com o engenheiro Edward Borgstein, líder do projeto de Desempenho Energético Operacional no Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS). “Atualmente, as certificações de sustentabilidade indicam a eficiência do projeto, mas essa economia pode não se comprovar na prática”, diz.

A diferença entre projeto e realidade mostra falta de entendimento sobre a operação eficiente das edificações, principalmente nas construções mais novas e complexas. “A alta tecnologia, que colabora com a eficiência energética, não terá resultado algum e pode até representar um aumento de consumo se não for dimensionada corretamente, ou se a operação acontecer de maneira inadequada ou, ainda, se os usuários não forem treinados para manusear os equipamentos”, diz.

DESEMPENHO ENERGÉTICO OPERACIONAL (DEO)

Visando a melhoria da eficiência energética de edificações em operação, o Comitê Temático de Energia (CT-Energia) do CBCS tem atuado, desde 2013, com o objetivo de desenvolver indicadores relacionados ao consumo de energia.

Atualmente, as certificações indicam a eficiência do projeto, mas essa economia pode não se comprovar na prática
Edward Borgstein

Para tanto, criou o projeto Desempenho Energético Operacional (DEO), composto por diferentes fases, sendo que a primeira delas é o desenvolvimento de benchmarks– linha de base que representa determinado nível de desempenho, podendo representar um valor típico ou uma meta, dependendo do contexto. “Nessa etapa, estudamos e desenvolvemos uma metodologia brasileira baseada nas principais diretrizes internacionais, porém adequada à nossa realidade”, afirma o engenheiro.

Com o uso dos benchmarks é possível medir, por exemplo, o consumo de um edifício de escritórios analisando as contas de energia dos últimos 12 meses e levando em consideração dados como área útil, número de funcionários e cidade em que se localiza a edificação. “Com um levantamento de menos de meia hora, pode-se identificar quais as taxas de eficiência de um edifício”, fala Borgstein.

A fase seguinte do trabalho é a avaliação por auditoria energética. Essas auditorias têm início quando se identifica que o edifício não está operando de forma adequada e apresenta potencial para melhoria. Esse processo conta com a participação de auditores qualificados e treinados para levantar, nessas construções, os pontos passíveis de alterações. Podem ser realizadas melhorias de custo zero, como alterações operacionais; de custo médio, que exigem troca de equipamentos; e medidas de maior custo, que incluem, por exemplo, a troca de todas as lâmpadas.

Já a terceira fase do projeto visa a avaliação de conforto e satisfação dos usuários. “Não adianta um edifício ser altamente eficiente se a temperatura interna é de 30 °C”, observa Borgstein. Por fim, a quarta etapa é de apoio às políticas públicas nos níveis municipal, estadual e federal, até porque muitas delas podem ter grande impacto no desempenho energético do edifício.

Com um levantamento de menos de meia hora, pode-se identificar quais as taxas de eficiência de um edifício
Edward Borgstein

Um bom exemplo é a cidade de Nova York, que desde 2012 exige que os prédios com mais 5000 m2 publiquem no portal da prefeitura o seu desempenho energético. “A medida induziu os edifícios a implantarem soluções para a melhoria da sua eficiência energética. Essa é uma política pública de baixo custo, mas que gera um impacto muito grande”, comenta.

ATUAÇÃO DO CT-ENERGIA

O CBCS começou a desenvolver benchmarks entre 2013 e 2014, e os primeiros indicadores que resultaram dessa ação foram os de agências bancárias. “Agora, em 2015, foi a vez dos edifícios corporativos ganharem seus benchmarks”, afirma o engenheiro. O próximo passo do CT-Energia é estudar os dados que serão usados para melhorar a eficiência energética em prédios públicos, trabalho que conta com o apoio do Ministério do Meio Ambiente. “Também estamos tratando com o Secovi [Sindicato da Habitação] para levarmos o trabalho para edificações residenciais”, complementa.

APOIO BRITÂNICO

O Reino Unido foi um dos primeiros países a desenvolver sistemas de etiquetagem para a fase operacional dos edifícios. Também foi o primeiro país a publicar o performance gap – diferença entre o consumo real e o projetado – através de órgãos governamentais e associações de engenheiros. “A embaixada britânica tem apoiado alguns dos projetos do CBCS como forma de troca de experiências e conhecimentos. Alguns profissionais dos países que compõem o Reino Unido também nos auxiliaram no processo, com a realização de workshops e oficinas, além do desenvolvimento de softwares, destaca Borgstein.

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Colaboração técnica

Edward Borgstein – Mestre em engenharia de energia e meio-ambiente pela University of Cambridge, é especialista em otimização de sistemas energéticos. É sócio-fundador da Mitsidi Projetos. Tem atuação nas áreas de energia em edificações, indústria, geração de conhecimento e políticas públicas. É autor de diversas publicações e líder do projeto de Desempenho Energético Operacional no Conselho Brasileiro de Construção Sustentável.