Reação ao fogo é um dos critérios na especificação de telhas

Conhecer como o material reage em situações de incêndio é importante para garantir a segurança da edificação e atender às regulamentações do Corpo de Bombeiros

Publicado em: 29/07/2020Atualizado em: 07/08/2020

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

telhados
A escolha da telha deve estar de acordo com as regulamentações estaduais do Corpo de Bombeiros (Foto: Bannafarsai_Stock/shutterstock)

Em situações de incêndio, as telhas e seus eventuais substratos têm potencial de contribuir de maneira negativa para o alastramento do fogo pela edificação. Nos cenários ideais, a face inferior, que fica exposta às labaredas, não deve oferecer condições favoráveis ao rápido crescimento do fogo e nem se transformar em seu meio de propagação. Já a face superior deve evitar que um foco de incêndio vindo do ambiente externo — provocado pela queda de um balão, por exemplo — seja capaz de invadir o imóvel ou acabe se disseminando.

As telhas contribuem ou não com o desenvolvimento do incêndio
Antonio Fernando Berto

“Ou seja, as telhas contribuem ou não com o desenvolvimento do incêndio”, diz o pesquisador Antonio Fernando Berto, chefe do Laboratório de Segurança ao Fogo e a Explosões do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). O comportamento do material varia conforme certas características, como a facilidade de sofrer e sustentar a ignição, a aptidão de propagar superficialmente a chama e a geração de calor e fumaça. “Essas propriedades dos produtos empregados nas edificações são denominadas reação ao fogo”, completa.

Reação ao fogo

O conceito de reação ao fogo é diferente de resistência ao fogo, sendo que este segundo se aplica ao elemento construtivo, que pode ser aquele que incorpora a telha, ou seja, toda a cobertura, ou ainda, aos elementos estruturais e de compartimentação. Um sistema resistente ao fogo é aquele que suporta incêndios plenamente desenvolvidos, preservando suas características funcionais. “Apenas em condições particulares, as regulamentações no Brasil, estabelecidas regionalmente pelo Corpo de Bombeiros, estipulam a necessidade de os telhados apresentarem resistência ao fogo”, destaca Berto.

De acordo com a norma técnica ABNT NBR 16.626 — Classificação da reação ao fogo de produtos de construção —, as telhas, assim como outros produtos (pisos, forros, revestimentos de fachadas), devem ser enquadradas em categorias, considerando um conjunto de ensaios. Com base em resultados de ensaios de reação ao fogo, os produtos são enquadrados dentro de grupos, de I a VI, sendo que I corresponde aos incombustíveis e VI aos que propagam as chamas com grande rapidez a partir de pequenas fontes de ignições.

Tipos de telhas

As regulamentações estaduais do Corpo de Bombeiros (no caso de São Paulo, na Instrução Técnica nº 10 — Controle de Materiais de Acabamento e de Revestimento) definem critérios para a especificação dos produtos que serão empregados nas edificações. A seleção do tipo de telha deve atender a essas regras, que levam em consideração as categorias de reação ao fogo. “Em função dos riscos associados à classe de ocupação da edificação e à posição/função do produto, a regulamentação limita a categoria”, diz o pesquisador.

As de cerâmica são incombustíveis, já as poliméricas não são e podem se enquadrar, dependendo do polímero utilizado, na pior categoria (VI)
Antonio Fernando Berto

Nas telhas empregadas em galpões industriais, por exemplo, a superfície inferior deve apresentar reação ao fogo enquadrada como I ou, no máximo, II-A, que corresponde à segunda melhor categoria prevista na regulamentação. São variados os aspectos que interferem na reação ao fogo das telhas, sendo que sua composição é o principal. “As de cerâmica são incombustíveis, já as poliméricas não são e podem se enquadrar, dependendo do polímero utilizado, na pior categoria (VI)”, compara Berto.

A espessura da polimérica também interfere em sua classificação quanto à reação ao fogo, assim como as juntas entre as peças na composição do telhado. “No caso das telhas constituídas de materiais compósitos, como as do tipo sanduíche — que apresentam capas metálicas e miolo polimérico —, a reação ao fogo é condicionada pela espessura e composição das capas (alumínio ou aço). Além disso, as características do miolo, espessura e composição, também têm influência”, explica o pesquisador.

Soluções retardantes

Existem diversos meios de aprimorar o desempenho das telhas em relação à reação ao fogo, considerando produtos que empregam materiais orgânicos ou poliméricos. “No processo de fabricação, pode ser realizada a substituição de elementos que contribuem para propagação das chamas ou ser realizada a incorporação de substâncias retardantes”, comenta o especialista, ressaltando que tratamentos superficiais, de maneira geral, não resultam em comportamento duradouro. “Visto que estão sujeitos a intemperismos”, completa.

Nas coberturas já existentes, em que as telhas têm características de reação ao fogo incompatíveis com a regulamentação, e que não serão substituídas, o tratamento superficial com soluções intumescentes de bom desempenho pode se justificar. “Desde que renovado com a periodicidade adequada”, argumenta Berto.

Estruturas

As regulamentações estaduais do Corpo de Bombeiros exigem resistência ao fogo para a estrutura da cobertura apenas em situações especiais. “No Estado de São Paulo, a Instrução Técnica nº 08 — Segurança Estrutural contra Incêndio — propõe que as coberturas das edificações, cujas estruturas (de toda a edificação) não estão isentas de apresentarem resistência ao fogo, estarão isentas quando: i) não tiverem função de piso; ii) não forem usadas como rota de fuga; e iii) o seu colapso estrutural não comprometa a estabilidade das paredes externas e da estrutura principal do imóvel”, conclui Berto.

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Colaboração técnica

Antonio Fernando Berto – Graduado em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Arquitetura e Urbanismo também pela USP. É responsável pelo Laboratório de Segurança ao Fogo e a Explosões do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT). É coordenador de Comissões de Estudo do CB-24 da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Atua, principalmente, nos seguintes temas: análise de causas de incêndio, avaliação de campo de sistemas de proteção contra incêndio, ensaios laboratoriais de resistência ao fogo e reação ao fogo, ensaios laboratoriais de componentes de sistemas ativos (detecção, alarme e combate a incêndio) de proteção contra incêndio, simulação computacional de abandono das edificações em situação de incêndio.