Reciclagem de madeira evolui de maneira rápida, mas desorganizada

Hoje, no país, 90% dos produtos da sua reciclagem são consumidos na geração de energia elétrica e vapor. Mas, no futuro, o uso será mais nobre. Fiscalização e cultura precisam mudar

Publicado em: 02/03/2018Atualizado em: 24/10/2022

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

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As divergências nas legislações vigentes nos estados e municípios dificultam a evolução organizada da reciclagem da madeira (Rokas Tenys / Shutterstock.com)

A reciclagem da madeira vem evoluindo rapidamente no país, mas de forma desorganizada, já que os procedimentos variam de acordo com a legislação vigente em cada estado ou município. De acordo com Marcos Pessotta, diretor Geral da Madevila Multi Bioenergia, empresa especializada na atividade, falta uma legislação única e clara que permita promover o processo de forma correta.

“As leis atuais dão uma abertura muito grande de como se fazer reciclagem e, ainda maiores, de como ‘não se fazer’. Isso resulta em formas incorretas de descarte, que inviabilizam a reciclagem por custos, logística e contaminações”, diz.

As leis atuais dão uma abertura muito grande de como se fazer reciclagem e, ainda maiores, de como ‘não se fazer’. Isso resulta em formas incorretas de descarte, que inviabilizam a reciclagem por custos, logística e contaminações
Marcos Pessotta

Ambientalmente amigável, o reaproveitamento da madeira em vários usos reduz a derrubada de árvores e evita que o material ocupe espaço em aterros. No Brasil, o produto da reciclagem é empregado amplamente na geração de energia elétrica e a vapor, mas, também, na produção de biogás, mobiliário, na construção civil e na arquitetura.

PROCESSO

“Em geral, tudo começa com a separação da madeira por tipos, como o de podas de árvores; residuais da construção civil; de móveis descartados; de embalagens e de suportes a embalagens. Em seguida, a madeira deve ser separada dos possíveis contaminantes, como plásticos, fórmicas, metais ferrosos, resíduos minerais, papéis e papelão”, explica.

Para facilitar, a madeira deve ser reduzida em tamanhos menores. É essencial a separação dos resíduos minerais, como areia e terra. Caso contrário, essa contaminação vai desqualificar o material final, comprometendo drasticamente o seu valor agregado de venda.

Segundo o especialista, o produto reciclado será mais valorizado de acordo com os resultados obtidos na fase de qualificação da madeira. Abrange picagem, classificação granulométrica, isenção de contaminantes e umidade. Quanto mais baixa a umidade do material, maior o preço do material final.

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Recicladora

ENERGIA

“O grande mercado da reciclagem de madeiras é, hoje, o de geração de energia a vapor e elétrica. Madeiras recicladas têm, em sua maioria, baixa umidade e, portanto, maior poder calorífico (quantidade de energia para troca térmica)”, explica Pessotta. O material é amplamente utilizado, mundialmente, por usinas termelétricas e, também, em caldeiras para combustão, gerando vapor para mover turbo geradores.

Para se ter uma ideia, madeira cortada de eucalipto e pinus detém umidade em torno de 35 a 40%, o que representa poder calorífico inferior útil que varia de 2200 a 2800 Kcal-Kg. Já as madeiras recicladas diversas, sem contaminantes, têm umidade média de 12 a 20%, com poder calorífico inferior útil de 3000 a 3900 Kcal-Kg.

O grande mercado da reciclagem de madeiras é, hoje, o de geração de energia a vapor e elétrica. Madeiras recicladas têm, em sua maioria, baixa umidade e, portanto, maior poder calorífico
Marcos Pessotta

“Perde-se menos quantidade de calor para secar a madeira, sobrando para a troca térmica e geração de vapor (energia)”, completa. Por ter maior quantidade de energia entregue, o uso da madeira reciclada exige cuidados com a correta operação da caldeira. Isto vai preservar os equipamentos e permitir maior aproveitamento do produto.

CENÁRIO

Crítico da maneira como a maioria dos municípios brasileiros faz a sua destinação dos resíduos, o especialista alerta que a madeira e outros recicláveis dos ecopontos acabam nos aterros. “A solução virá através de legislação que incentive a reciclagem. Mas, principalmente, com órgãos que fiscalizem a destinação correta, possibilitando sua reciclagem”, sugere.

Segundo ele, outro desafio do setor é o preconceito da sociedade que vê o material reciclado como lixo, sem qualquer valor agregado. Somente o pessoal com formação mais técnica, conhecimento e responsabilidade social reconhece o valor da reciclagem e de seus produtos. “Essa condição só será superada com informação e educação ambiental”, destaca.

A construção civil, principalmente dos grandes centros urbanos do país, já entende a importância da reciclagem da madeira, contribuindo para o processo.

FUTURO

Para o especialista, a reciclagem de madeiras atingirá seu ponto alto no país até 2025. E mais: dentro de, no máximo, 20 anos, os produtos da reciclagem terão utilização mais nobre. Ou seja, os atuais 90% empregados na geração de energia cairão para menos de 20%.

“Além disso, a reciclagem e o reaproveitamento de madeiras passam por amplitudes maiores do que a maioria pensa. É o caso do aproveitamento de troncos e galhadas – uma realidade forte no mundo atual”, comenta.

Pesquisas mostram que raízes de destocagem de florestas têm maior quantidade de poder calorífico, se comparada à árvore propriamente. “A sua utilização para geração de energia está na pauta de várias empresas”, conclui.

Leia também: Madeira, um recurso renovável

Colaboração técnica

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Marcos Pessotta – Consultor de recursos renováveis. Ocupa o cargo de diretor Geral da Made Vila, empresa criada com a intenção de suprir a crescente demanda por energia renovável e pela destinação correta da sucata de madeira.