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Reservatórios de água de edifícios estão sujeitos a patologias

A absoluta maioria dos prédios adota o equipamento construído em concreto. O segredo para uma longa vida útil, sem patologias importantes, é sua impermeabilização integral

Publicado em: 05/06/2023Atualizado em: 12/06/2023

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

foto de uma pessoa segurando uma espátula e uma tabua com argamassa líquida em cima
(Foto: Alf Ribeiro/Shutterstock)

Manifestações patológicas em caixas d’água de concreto armado em edifícios residenciais e comerciais são comuns, mas as soluções têm custo financeiro alto, além do transtorno aos usuários que podem ficar sem abastecimento por semanas. A engenheira Priscila Wellttem, sócia da Alon Engenharia, conta que, dos 240 empreendimentos desses segmentos inspecionados pela empresa em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro em 2022, 90% utilizam reservatórios em concreto armado, tanto enterrados quanto na cobertura.

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Os reservatórios de água são dimensionados com base na população interna do edifício, nas características de utilização dos sistemas e no tipo de uso. Ao dimensionar, é preciso prever um volume total de água reservado para atender 24 horas de consumo e deve considerar eventual volume adicional de água para combate a incêndio, quando esse estiver armazenado conjuntamente (NBR 5626:2020).

“Os reservatórios inferiores ou enterrados funcionam como uma reserva adicional de água, que é bombeada para o reservatório superior. De lá, a água é distribuída às unidades, aproveitando a ação da gravidade”, diz, acrescentando que esse backup existe na maioria dos prédios – no Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, estão em 100% deles. A principal razão de sua existência nesses locais é reduzir a carga em cima do prédio.

Os reservatórios inferiores ou enterrados funcionam como uma reserva adicional de água, que é bombeada para o reservatório superior. De lá, a água é distribuída às unidades, aproveitando a ação da gravidade.
Priscila Wellttem

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Patologias em reservatórios de água

Os reservatórios superiores e inferiores têm solicitações e exigem cuidados distintos. Os superiores estão sujeitos a deformações térmicas originadas pela exposição direta ao calor, que podem criar fissuras tanto na estrutura como nos revestimentos externos. “Essas ocorrências, bastante frequentes, podem estar relacionadas a deficiências ou ausência de projeto, falhas executivas e de manutenção”, fala.

Outra influência da temperatura está relacionada à condensação da água no interior da estrutura e seu acondicionamento sob a laje e a tampa, expondo a estrutura em concreto aos efeitos depredatórios da umidade. Os efeitos térmicos relacionados à fissuração e à umidade precisam ser considerados no estudo prévio e na elaboração do projeto, por meio da análise sistêmica do comportamento dos materiais a serem incorporados.

A impermeabilização visa, sobretudo, a formação de uma barreira física contra a percolação de água ou vapor de água nas estruturas. A norma técnica da ABNT NBR 6118:2014, inclusive, esclarece que deve ser evitada a ação deletéria da água nas estruturas em concreto armado. “Embora hoje a impermeabilização seja uma exigência das normas ABNT NBR 9575 e NBR 9574, muitas construtoras ainda não executam o sistema integral, mas apenas nas laterais e no fundo da caixa d’água”, explica.

Embora hoje a impermeabilização seja uma exigência das normas ABNT NBR 9575 e NBR 9574, muitas construtoras ainda não executam o sistema integral, mas apenas nas laterais e no fundo da caixa d’água.
Priscila Wellttem

Já a estrutura de concreto de um reservatório enterrado fica exposta à pressão da água interna e, também, da externa, dependendo no nível do lençol freático. Para cada tipo de solicitação, ou seja, de empuxo de água positivo ou negativo, a norma técnica de impermeabilização em conjunto com as fichas de fabricantes estabelecem produtos e métodos específicos de impermeabilização a serem aplicados.

“Acontece que várias construtoras negligenciam esses diferentes comportamentos e acabam empregando o mesmo sistema para os reservatórios inferior e superior. Na caixa enterrada, a coluna d’água vai empurrar a impermeabilização das paredes e do fundo, formando bolhas, com risco de rompimento dessa camada. Consequentemente, poderá ocorrer formação de fissuras e contaminação do reservatório”, alerta.

Água contaminada

A especialista ressalta que as normas NBR 5626:2020, de água fria, e a NBR 8160, de esgoto sanitário, pedem para que os empreendimentos evitem a instalação de reservatórios inferiores. E, quando houver, eles devem ser totalmente independentes e possuir um afastamento horizontal de qualquer fonte potencialmente poluidora para evitar sua contaminação. “Porque no subsolo também estão as caixas de esgoto e de gordura. Se ocorrer alguma falha nesse sistema associado à deterioração da impermeabilização do reservatório, teremos uma contaminação direta da água de consumo”, expõe, informando que esse tipo de ocorrência é frequente.

O ideal seria que o país tivesse legislação obrigando a ensaios e inspeções frequentes da qualidade e potabilidade da água distribuída aos usuários. O procedimento poderia, inclusive, avaliar se o sistema está livre de contaminação externa. No entanto, a maioria dos condomínios não adota a prática e, até mesmo, posterga a limpeza da caixa d’água. Na pior das situações, a percepção fica por conta dos usuários de que a água da torneira mudou de cor, gosto e cheiro.

“Quando chegamos num edifício para uma vistoria, podemos ter esses dois cenários: manifestações patológicas do concreto ou problemas de impermeabilização. Nas enterradas, as contaminações se avolumam”, conta. Essas anomalias são constatadas com maior frequência nas construções novas, caracterizadas por estruturas de concreto mais esbeltas do que a das obras de algumas décadas.

A engenheira avalia que essa estratégia das construtoras não possui respaldo técnico e visa a redução do consumo do material e economia no custo da obra, resultando em prejuízos ao longo da vida útil do edifício, prevista teoricamente para 50 anos.

Diagnóstico de patologias

Para diagnóstico é necessário acesso interno aos reservatórios, o que exige esgotar o sistema. “A análise visual não será suficiente, uma vez que nesse ambiente há duas formas de exposição de mecanismos de degradação do concreto armado, podendo ser por cloretos ou por carbonatação. Ensaios complementares associados à inspeção visual serão importantes para verificar o grau de cloretos e de carbonatação por meio da extração de testemunhos de concreto”, fala Wellttem.

O cloro presente na água distribuída pelas empresas públicas reage quimicamente com os componentes da pasta de cimento, penetra no concreto e afeta diretamente as barras de aço. “Essa é a corrosão por pite (do inglês, pitting)”, diz. A corrosão por carbonatação, por sua vez, depende da presença no ambiente – no caso, do reservatório – de três elementos: CO2, oxigênio e água.

“No dimensionamento do concreto, é importante referência à classe de agressividade, ou seja, quanto o meio vai interferir no concreto. Para uma classe muito agressiva, como o reservatório, é preciso dimensionar uma espessura mínima de cobrimento da armadura. A não observação desse quesito vai determinar o processo de corrosão, alterando o pH do concreto e eliminando a proteção do cabeamento de aço. Está posta, assim, a corrosão generalizada, podendo ter toda a caixa d’água comprometida”, ensina.

Soluções para patologias nos reservatórios de água

Os procedimentos corretivos são tão variados quanto os custos. Quando há uma corrosão sem perda de seção, a área é delimitada e feita a escarificação, retirando o concreto até o cobrimento da armadura. “O trabalho é feito por etapas, para evitar que o material se rompa”, adverte.

Depois, a estrutura é limpa com jato de água e a armação com escova de aço, eliminando os óxidos. Se for numa laje de cobertura do reservatório, o cobrimento é feito com argamassa tixotrópica.

No caso de corrosão em estado mais avançado, a perda de seção compromete a capacidade portante da estrutura, o que exige a substituição da barra metálica. “É utilizada uma barra com espessura igual ou superior à encontrada anteriormente. A partir daí os procedimentos são os mesmos, finalizando com fôrma e preenchimento com graute, que já tem em sua composição aditivo inibidor de corrosão”, expõe.

Esses dois problemas e soluções são os usuais, inclusive com custos mais palatáveis. Em qualquer dos tratamentos, a impermeabilização integral do reservatório é mandatória.

Obras de manutenção do tipo podem levar de uma a três semanas, dependendo da dimensão da manifestação patológica. Para suprir o condomínio de água, há três opções: fazer a ligação direta do sistema hidráulico com o reservatório enterrado ou do térreo, através de bomba; quando os dois apresentam problemas, manter um reservatório ativo enquanto o outro está em obras; subir com um reservatório provisório de fibra de vidro. “São técnicas paliativas que podem minimizar os efeitos, sem garantir, no entanto, o abastecimento normal”, comenta.

As orientações básicas de Wellttem para que os reservatórios em concreto tenham longa vida útil começam com o desenvolvimento de um bom projeto, sempre de acordo com as normas técnicas. “E adotar a impermeabilização integral do equipamento, cuidando para a correta execução da obra”, recomenda.

Hoje, há a opção de instalação de caixas d’água em fibra de vidro moldadas in loco. “Pode ser uma solução eficiente. Porém, pela necessidade de içar as peças para o alto do edifício seu custo chega a ser 30% superior em relação às feitas em concreto. A garantia dos fabricantes é similar à do concreto, de 20 anos – tempo que depende da boa manutenção e, no caso do concreto, da impermeabilização”, finaliza.

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Colaboração técnica

Priscila Wellttem Camargos Silva – Engenheira civil formada e com pós-graduação em Patologia das Construções pelo IPOG. Certificada pelo Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de Minas Gerais – INBEC/MG – em Perícia Ambiental, Engenharia Diagnóstica; Patologias em Estrutura de Concreto Armado; Engenharia de Custos e Orçamento; e em Perícia Técnica e Laudo. É especializada pelo IDD – Educação Avançada em Patologia de Obras Civis; Medição, Fiscalização e Controle de Obras de Engenharia; e Inspetora de Concreto Nível I. É professora no IPOG – Patologia em Alvenarias; no IDD em Patologia em Vedações e da BSSP – Patologia em Estrutura de Concreto. É perita do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais; assistente Técnico em Patologia de la Construcción de Alconpat Internacional e autora do Livro Desconstrução. É sócia da Alon Engenharia.