Reúso de água em lava-rápidos pode economizar até 80% do recurso

Desde novembro, estabelecimentos são obrigados por lei a instalar sistemas e equipamentos para captação, tratamento e armazenamento da água que é usada na lavagem dos veículos

Publicado em: 10/03/2016Atualizado em: 08/01/2019

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Água - Reúso - Lava-rápido
Muitos estabelecimentos já contam com estrutura para coletar a água da chuva (shutterstock/welcomia)

Desde novembro de 2015, postos de gasolina e lava-rápidos da cidade de São Paulo são obrigados a instalar sistemas e equipamentos para captação, tratamento e armazenamento da água usada no processo de lavagem dos carros, visando seu reúso em atividades que admitem o aproveitamento de recursos hídricos não potáveis. A Lei Municipal nº 16.160 determina, ainda, que os estabelecimentos que não cumprirem as novas regras estarão sujeitos à multa de R$ 1 mil, valor que pode ser dobrado em caso de reincidência. Se os empreendimentos não se adaptarem, mesmo após as duas primeiras punições, eles poderão ter seu alvará de funcionamento cassado. A iniciativa não é exclusividade da capital paulista e já está em vigor em outros municípios, como Sorocaba, interior do Estado.

“Em tempos de escassez, essas medidas se tornam ainda mais importantes, principalmente quando se leva em consideração a quantidade de veículos em circulação no país”, destaca a engenheira Jussara Cabral Cruz, professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e membro do Conselho Nacional de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente (CNRH/MMA). Dependendo do tamanho do carro, do tipo de equipamento e da experiência do operador, são gastos entre 150 e 250 litros de água para lavar um único automóvel, volume muito superior ao indicado pela ONU como suficiente para atender às necessidades básicas de uma pessoa durante 24 horas.

Atualmente, circulam pela capital paulista cerca de oito milhões de veículos. Se somente 10% desse total for lavado uma vez por mês utilizando-se um volume mínimo de 150 litros, ao final de um ano serão consumidos 1,44 milhão de m³ de água, quantidade suficiente para abastecer 3,5 mil pessoas durante 12 meses.

O tamanho da economia:

Segundo a docente, existem estudos que demonstram que, quando sistemas de reúso são instalados em lava-rápidos, a economia de água pode chegar a 80%. A adoção da solução não traz vantagens somente aos empreendimentos, os municípios também são beneficiados. “Uma quantidade considerável de água é retirada das redes de coleta, o que reduz os custos do poder público com tratamento de esgoto”, diz.

 

CAPTAÇÃO DE ÁGUA DA CHUVA

Muitos estabelecimentos vão além dos equipamentos de captação e tratamento da água usada no processo de lavagem dos carros, e já contam com estrutura para coletar a água da chuva, que pode servir como reposição dos volumes perdidos com a evaporação ou em outras etapas da lavagem. “Quando há o aproveitamento dos índices pluviométricos, a água fornecida pela companhia de saneamento só é usada em último caso. Com isso, a economia no consumo pode ultrapassar os 90%”, destaca a professora. Armazenar água das chuvas colabora ainda para minimizar outro problema comum nas grandes cidades, as enchentes. “A drenagem urbana é beneficiada, pois o volume recolhido deixa de fluir pelas ruas”, completa.

Quando há o aproveitamento dos índices pluviométricos, a água fornecida pela companhia de saneamento só é usada em último caso. Com isso, a economia no consumo pode ultrapassar os 90%
Jussara Cabral Cruz

Para lavar automóveis, a água necessita ter boa qualidade, mas não precisa ser potável. Os primeiros pingos de chuva carregam diferentes resíduos que estavam em suspensão na atmosfera. Por isso, o volume inicial da precipitação deve ser descartado, e a água acumulada na sequência precisa passar por processo de filtragem simples antes de ser empregada na lavagem dos carros. “Em regiões com grande concentração de indústrias, são necessárias análises para determinar se as chuvas contêm outros poluentes que exigem tratamentos especiais. Chuvas ácidas, por exemplo, podem prejudicar os veículos”, ressalta Cruz.

Existem normas que devem ser atendidas em casos de reúso de água, como a resolução Conama 357/2005 e a ABNT NBR 15527 - Água de chuva - Aproveitamento de coberturas em áreas urbanas para fins não potáveis. A água que vem do céu não é a única alternativa que pode ser aproveitada em lava-rápidos. As fontes subterrâneas também são passíveis de exploração através de poços artesianos, desde que permitido pela legislação. Entretanto, essa água deve ser analisada antes do uso, pois nem sempre a qualidade é adequada. “Os volumes encontrados no subsolo podem não apresentar características compatíveis”, diz a professora.

TRATAMENTO

Toda a água usada no processo de lavagem dos carros pode ser coletada e enviada para a estação de tratamento, onde passará por procedimento que remove impurezas como sabão, óleos, graxas e substâncias químicas diluídas.

É importante destacar que, com o reúso, o empreendedor deixa de comprar água da companhia de saneamento
Jussara Cabral Cruz


A remoção dos componentes indesejados acontece em diferentes etapas, que podem ser das mais variadas formas e dimensões. “Já existe no mercado oferta significativa por empresas que projetam e disponibilizam esses equipamentos”, indica a engenheira, lembrando que o cuidado nessa fase é fundamental para que a água de reúso não danifique os automóveis. Todo o volume tratado que entra em contato com o ser humano deve estar livre de coliformes e ovos de helmintos (vermes), conforme determinam as normas. O ciclo de coleta, tratamento e reúso podem ser repetidos continuamente e sem restrições.

Os equipamentos têm características diferentes, sendo que cada um deles é indicado para determinado tipo de empreendimento. Os valores desses produtos estão cada vez mais acessíveis, principalmente se for levado em consideração o tempo de payback. “Alguns estudos apontam para retorno do investimento já em poucos meses, dependendo do tipo do efluente, da tecnologia adotada e das dimensões do projeto. Também é importante destacar que, com o reúso, o empreendedor deixa de comprar água da companhia de saneamento”, finaliza Cruz.

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Colaboração técnica

Jussara Cabral Cruz
Jussara Cabral Cruz – Engenheira civil e doutora em Recursos Hídricos e Saneamento. É pesquisadora, orientadora de doutorado e professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Ex-presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH). Atualmente, ocupa o cargo de conselheira do Conselho Nacional de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente (CNRH/MMA) e na Comissão de Coordenação das Atividades de Meteorologia, Climatologia e Hidrologia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (CMCH/MCTI).