Saiba como se especializar no cálculo de estruturas metálicas

Especialistas falam das atividades exercidas por um projetista de estruturas metálicas e o que fazer para se destacar no mercado. Confira dicas para estudantes e recém-formados

Publicado em: 30/05/2018Atualizado em: 09/11/2018

Texto: Hosana Pedroso

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Para se especializar, deve-se dominar o conteúdo básico de graduação (Foto: Freedomz / shutterstock)

 

A área de projetos de estruturas metálicas está carente de profissionais verdadeiramente qualificados. “Os bons projetistas são disputados por empresas construtoras e de engenharia”, conta Olídio Volpato, especialista em estruturas metálicas.

O engenheiro civil Tomás Vieira, diretor da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece), concorda que essa é uma área com número restrito de projetistas especializados, mas se lembra de que a demanda também é pequena. “Há, portanto, um equilíbrio”, comenta. Se bem que a quantidade de projetos cresceu, e muito, nos últimos anos. "As razões vão da necessidade de otimizar tempo e espaço de trabalho no canteiro à grande facilidade para executar a estrutura fora da obra", justifica Volpato. Em geral, o projetista é mais requisitado no canteiro em obras de reforma ou retrofit, quando há dúvidas relativas ao projeto ou às interfaces com os demais sistemas construtivos.

Com mais projetos, o interesse por essa área também tem aumentado. A seguir, especialistas falam das atividades exercidas por um projetista de estruturas metálicas e o que fazer para se destacar no mercado.

PROFISSIONAL ESPECIALIZADO

O engenheiro que quiser se especializar em projetos de estruturas metálicas deve, no mínimo, dominar o conteúdo básico do curso de graduação, para conceber estruturas seguras. “Ele também precisa saber interpretar dados dos softwares disponíveis no mercado e conhecer aplicativos que acelerem o processo de modelagem e os cálculos dos sistemas estruturais”, afirma Volpato.

Vieira lembra que o projeto de estruturas metálicas está diretamente relacionado à resistência dos materiais. Portanto, o conhecimento sobre resistências é recomendado. Além disso, como estabilidade, deslocamento e vibração do material são características fundamentais, é importante que o profissional conheça as normas técnicas brasileiras e internacionais. “Um assunto mais ou menos novo é a análise de estrutura dinâmica, interessante para alguns tipos de estrutura, como pontes e suporte para máquinas”, acrescenta o engenheiro, lembrando que tudo isso está previsto na ABNT NBR 8.800:2008.

CONHECIMENTO NUNCA É DEMAIS

Cada fábrica tem seus próprios procedimentos de produção. É recomendável, no entanto, que o projetista tenha noções gerais do processo fabril. “Apesar de o engenheiro projetista ser o responsável pela estrutura pronta, saber como ela é montada é relevante”, reforça Vieira. É interessante ter um mínimo de conhecimento em metalurgia, diante da necessidade de soldar e unir materiais que, às vezes, são incompatíveis.

Para Volpato, é de grande valia que o graduando comece a estagiar em escritórios de projetos de estruturas metálicas desde os primeiros semestres do curso. “Assim, poderão estudar visando o nicho profissional em que desejam atuar”, diz.

Há diversos cursos de qualificação – tanto de especialização quanto de pós-graduação –, cujos professores são profissionais experientes. “Minha sugestão é que o aluno analise o conteúdo programático dos cursos oferecidos para verificar qual atende as suas expectativas”, recomenda Volpato.

Minha sugestão é que o aluno analise o conteúdo programático dos cursos oferecidos para verificar qual atende as suas expectativas
Olídio Volpato

O diretor da Abece observa que cursos de pós-graduação na área são encontrados apenas em universidades públicas. Ele destaca os da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade de Passo Fundo, pois há vários fabricantes de estruturas metálicas no Rio Grande do Sul.

PROJETO E CÁLCULO

Projetar e calcular estruturas metálicas são palavras tratadas, normalmente, como sinônimas. Embora projetar tenha sentido mais amplo, de buscar um arranjo para a estrutura, ela engloba o cálculo, porque ao indicar a dimensão das peças, é preciso passar por ensaios de resistência e deformação do material.

O projetista é o responsável pelo preparo do lançamento básico da estrutura metálica, a partir do projeto de arquitetura. Respeitando as questões dimensionais e o partido arquitetônico, é comum que ele proponha alguma alteração ou adequação, até por se tratar de material industrializado. Em seguida, começa a fase de discussões e tomada de decisões, até que o projeto fique ajustado. “A cada grande alteração, atualizamos os modelos de cálculo e de dimensionamento de perfis, para, em seguida, emitirmos os documentos, geralmente com desenhos. Com as novas rotinas introduzidas pelo Building Information Modeling (BIM), alguns escritórios de projetos já emitem os arquivos de modelagem. Ainda assim, as fábricas recebem desenhos para serem transformados na linguagem das máquinas que farão os cortes, as dobras, as furações e os processos de solda”, explica Vieira.

ESTRUTURAS DE AÇO X ESTRUTURAS DE CONCRETO

As rotinas de projetos de estruturas de aço e de concreto são diferentes. Tudo começa, segundo Volpato, pelas medidas adotadas. Enquanto as estruturas de concreto armado costumam ser informadas em centímetros, as metálicas são em milímetros. “Além disso, devido à execução, a concepção estrutural com aço representa mais fielmente os modelos matemáticos dos elementos, como ligações e comportamentos elástico e plástico das peças”, diz.

Vieira chama a atenção para o fato de que, no concreto armado, o desenho da estrutura define as fôrmas que serão utilizadas. A partir daí, é inserida a quantidade de armaduras necessária. “Já na estrutura metálica, o perfil reúne fôrma e armação, o que torna a execução do projeto mais rápida, envolvendo menos produção gráfica”, observa.

Nos projetos de concreto, as ligações são monolíticas, portanto, ao especificar as peças, as ligações estão automaticamente detalhadas. Nos de aço, o projetista define o perfil e, depois, precisa fazer o desenho das ligações, por existirem várias tipologias possíveis.

Importante lembrar que o projeto de concreto armado moldado in loco já é praticamente o projeto de fabricação da estrutura. Enquanto o projeto de estrutura metálica não é feito para ser produzido em canteiro, mas em fábrica, assim como os de pré-moldados de concreto.

Dicas para estudantes e profissionais recém-formados

Olídio Volpato aconselha os estudantes a questionar os professores, não aceitar respostas do tipo “isso não vai ser importante na sua vida profissional” e aproveitar a graduação para errar, pois no mercado, um erro pode custar muitas vidas.

Já Tomás Vieira recomenda que estudantes e profissionais nunca parem de estudar. “Educação continuada é fundamental para qualquer profissional. É preciso ter permanente curiosidade bibliográfica, acompanhar projetos dos mais importantes escritórios e conhecer obras emblemáticas sobre estruturas metálicas”, sugere.

Entre os conhecimentos necessários, o engenheiro da Abece destaca o domínio de softwares de análise estrutural, porque é muito mais difícil e trabalhoso fazer tudo a mão. Os programas mais modernos têm ajudado bastante na compatibilização de projetos, reduzindo os problemas de interface e controle de custos. Quando o assunto é documentação, a tendência é migrar de programas de CAD para os de modelagem tridimensional (BIM). Contudo, Volpato alerta os jovens profissionais a não acreditarem cegamente em softwares: “Programas são apenas ferramentas de auxílio ao seu trabalho”.

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Colaboração Técnica

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Tomás Vieira – Engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e pós-graduado em Projeto de Estruturas de Concreto para Edifícios pela Faculdade de São Paulo. É engenheiro de projetos na CIA de Projetos e diretor da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece).

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Olídio Volpato – Especialista em estruturas metálicas, atua no mercado desde 1977. Trabalha com treinamento e qualificação de profissionais da área técnica de engenharia de projetos, orçamentos e vendas de estruturas metálicas. É consultor de obras especiais internacionais para construtoras de estruturas metálicas brasileiras e argentinas. Tem obras nos continentes americano, africano e europeu.