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Terra é usada na fabricação de materiais para vedação de edificações

A matéria-prima pode ser considerada mais ecológica se comparada às convencionais, pois demanda pouca energia em seu manuseio

Publicado em: 01/06/2016

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

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Qualquer terra pode ser aproveitada, sendo poucas as exceções não utilizáveis (Sinelev/shutterstock.com)

Aproveitada como material de construção desde os primórdios da humanidade, a terra continua sendo uma alternativa interessante para a construção de edificações modernas. “Um grupo de pesquisas do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP São Carlos) construiu dois protótipos de habitação com três pavimentos, cuja estrutura é de madeira, e a terra entra como elemento de vedação. Existem outros casos de prédios com dez andares que também utilizaram a terra em sua construção”, relata o professor Obede Borges Faria, docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da Rede Ibero-Americana de Arquitetura e Construção com Terra (Proterra).

A terra é usada de diferentes maneiras na fabricação de materiais de construção para alvenarias de vedação ou estrutural. A solução pode ser considerada mais ecológica se comparada às convencionais, pois necessita de pouca energia em seu manuseio. “O ideal é aproveitar a terra em regiões onde ela é encontrada em abundância e com características adequadas. Por ser um recurso local, evitará grandes deslocamentos de caminhões para seu transporte”, diz o professor.

O ideal é aproveitar a terra em regiões onde ela é encontrada em abundância e com características adequadas. Por ser um recurso local, evitará grandes deslocamentos de caminhões para seu transporte
Obede Borges Faria

SUSTENTABILIDADE E CONFORTO

A avaliação da sustentabilidade dos materiais fabricados com terra e, que incorporam outras matérias-primas, considera vários aspectos. É o caso do bloco solo-cimento que, apesar de o cimento melhorar a resistência da peça, é insumo gerador de impactos negativos na natureza. “Na relação custo-benefício, o material até pode ser poluente, porém colabora para a melhoria da durabilidade da edificação. Colocando na balança, é vantajoso”, completa o especialista.

O conforto térmico proporcionado pela terra usada como matéria-prima é resultado de definições do projeto arquitetônico. Normalmente, a edificação de terra apresenta menor perda de calor para o ambiente externo nos dias mais frios e sofre pouca invasão de calor durante o verão. “O isolamento térmico dessas construções não é nenhuma mágica. A explicação para o fenômeno está nas paredes mais espessas, que têm, em média, 40 cm quando construídas com taipa – terra compactada em fôrmas de madeira”, explica Borges.

TÉCNICAS DE USO

A taipa, por sinal, é uma das técnicas que permitem a execução de alvenaria com terra. Outras possibilidades são o adobe – tijolo de terra e água, sem queima –; o bloco compactado; o bloco prensado; e as técnicas mistas, como o pau a pique – barro preenchendo uma trama de madeira.

Dependendo do tipo de terra, uma técnica ou outra é utilizada. Geralmente, qualquer terra pode ser aproveitada, sendo poucas as exceções não utilizáveis. Por exemplo, se a matéria-prima apresentar grande quantidade de silte – partículas menores do que um grão de areia e maiores que um grão de argila –, seu uso não é indicado para a maioria das técnicas. Para fabricar taipas, por exemplo, o mais recomendado é a terra arenosa, já para residências de pau a pique, o ideal é que a terra conte com bastante argila.

VANTAGENS

Entre as vantagens de se aproveitar a solução, o custo não aparece como principal apelo, principalmente nas regiões onde não existe a tradição de se construir com terra. “Por ser opção não convencional, é raro encontrar no mercado materiais fabricados com essa matéria-prima. As peças são todas produzidas no canteiro, tornando a alternativa mais artesanal e cara”, explica o docente.

Não se deve construir uma edificação inteira usando somente um tipo de material. O correto é aproveitar cada elemento nos locais que possibilitam a exploração do seu melhor desempenho
Obede Borges Faria

USO DA TERRA NO BRASIL

No Brasil, está se tornando menos comum o uso da terra na construção civil. Algumas regiões do país, porém, mantêm essa tradição, como o Vale do Ribeira – localizado entre os estados de São Paulo e do Paraná –, interior de Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e quase todo o nordeste. “Existem iniciativas isoladas da produção de arquitetura contemporânea com terra, como na cidade de Piracicaba (SP), mas que não refletem a tradição local”, observa Borges. Por ter se tornado uma opção pouco aproveitada, não existe, quase, mão de obra apta a manusear a matéria-prima, exigindo a capacitação dos trabalhadores que atuarão na obra.

A terra é um material de construção com propriedades únicas e, dependendo do contexto, seu uso pode ser vantajoso ou não, assim como acontece com as demais opções de soluções. Entre as características da matéria-prima está a vulnerabilidade à água, por isso, não substitui o concreto nas fundações ou as telhas de cerâmica nas coberturas, por exemplo. “Não se deve construir uma edificação inteira usando somente um tipo de material. O correto é aproveitar cada elemento nos locais que possibilitam a exploração do seu melhor desempenho”, finaliza Borges.

O cenário nacional da solução será debatido no próximo mês de novembro, no VI Congresso de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil – TerraBrasil 2016, evento organizado pela Rede TerraBrasil, que acontecerá na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp Bauru (SP).

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Colaboração técnica

Obede Borges Faria – Engenheiro civil com doutorado em Ciências da Engenharia Ambiental e mestrado em Arquitetura e Urbanismo - Tecnologia do Ambiente Construído. É professor do departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Faculdade de Engenharia de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ocupa também o cargo de docente do programa de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp-Bauru. É membro da Rede Ibero-Americana PROTERRA e da Rede TerraBrasil.