Vidro pode ser reciclado infinitamente

100% natural, ele mantém suas propriedades físicas e químicas independente do processamento

Publicado em: 26/06/2014Atualizado em: 22/10/2023

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Reciclagem de vidros

O mercado de reciclagem de vidro trabalha com material gerado por dois setores da economia: o de embalagens e o de vidro plano, oriundo da construção civil e da indústria automobilística. “Entre a indústria de float e vidro plano e a indústria de transformação é muito comum a existência da logística reversa visando a reciclagem”, afirma Stefan David, consultor de reciclagem da Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidros (Abividro).

De acordo com ele, os fabricantes de floatadotam estratégias para estimular o cliente – a indústria de transformação – a criar políticas comerciais e de preços atreladas à devolução de cacos. “O vidro quebrado entra, muitas vezes, como desconto no preço da nova chapa. Estratégia de logística bem utilizada é a colocação de contêineres em empresas clientes, para que possam armazenar sobras de vidro, peças quebradas e recortes. Depois de cheios, serão devolvidos para o fabricante”, relata.

É preciso estar consciente de que quando se gera uma grande quantidade de resíduo, é necessário preocupar-se com o destino dado a ele

O setor da construção civil representa muito pouco ainda para a geração de cacos de vidro na reciclagem. “Na construção de um prédio novo não há quebra de vidro, que entra somente no final da obra, como fachada ou janela. Quando ocorre reforma em uma casa, escola ou indústria, é comum recebermos ligações de empresas e entidades públicas querendo saber o que fazer com os vidros. Nesse caso, a primeira recomendação, dependendo do volume do material, é acionar uma empresa coletora, os chamados caqueiros, que vão verificar a viabilidade de retornar o produto para reciclagem”, explica o consultor.

A segunda alternativa, que também depende do local e do volume, é a empresa ao contratar um vidraceiro ou uma indústria de transformação – responsável por cortar chapas em grande volume para devolver o vidro quebrado na logística reversa. “É muito comum, principalmente em licitação pública, pensar somente no melhor preço. Só que, muitas vezes, a empresa contratada recusa-se a recolher o vidro quebrado, alegando não ter sido contratada para esse serviço. É preciso estar consciente de que quando se gera uma grande quantidade de resíduo, é necessário preocupar-se com o destino dado a ele”.

De maneira geral, o mercado já possui várias soluções de logística reversa. “É possível devolver ou vender esse material em qualquer dos três elos da cadeia produtiva do vidro: fabricantes, indústria de transformação e vidraceiro. O mesmo ocorre com os para-brisas dos carros. Existem grandes redes de varejo que possuem logística reversa com os caqueiros. Quando o motorista tem o para-brisa de seu carro quebrado, mas não possui seguro, ele pode levá-lo até uma loja para a troca, que manda o vidro quebrado à reciclagem. As próprias seguradoras, ao substituírem o para-brisa quebrado, também fazem a logística reversa”, comenta David.

ETAPAS

De acordo com o consultor, o processo de reciclagem do vidro acontece em dois momentos: a reciclagem em si e o beneficiamento. “A própria indústria faz a reciclagem do seu material, transformando uma matéria-prima pós-consumo em um produto novo. Uma vez quebrado, é possível jogar o vidro no forno e refundi-lo, gerando novas embalagens e chapas. Só que é muito comum o vidro plano ter impurezas como massa corrida, cimento ou, no caso do vidro laminado, apresentar o PVB – Polivinil Butiral. Para isso, os caqueiros possuem usinas de beneficiamento que separam o vidro dos demais materiais – como plástico e alumínio – vendidos aos interessados. O PVB ainda carece de uma solução de reciclagem definitiva, pois apresenta características específicas que inviabilizam a reciclagem”.

Uma característica interessante do setor é poder incorporar o próprio resíduo no processo de fabricação. Atualmente, uma embalagem nova possui, em média, 40% de vidro reciclado. E o percentual na confecção de uma chapa de vidro plano é de cerca de 15% de matéria-prima reciclada

David conta que, atualmente, é perceptível no setor do vidro um movimento de demanda das empresas em entender a análise de ciclo de vida do vidro plano, avaliando seu impacto no meio ambiente. “Nessa análise, é preciso incorporar a questão do que é feito com o resíduo gerado no pós-consumo do material. Uma característica interessante do setor é a possibilidade de incorporar o próprio resíduo no processo de fabricação. Atualmente, uma embalagem nova possui, em média, 40% de vidro reciclado. E o percentual na confecção de uma chapa de vidro plano é de cerca de 15% de matéria-prima reciclada”.

 

100% RECICLADO

O vidro, quando é reciclado, mantém suas características. “A única preocupação está no momento de separá-los por tipos e cores, e de outros materiais. É preciso deixá-lo livre de impurezas para ser reutilizado. Se compararmos com a reciclagem do papel, por exemplo, à medida que for reciclado, suas fibras vão sendo quebradas e perdem-se as características originais do produto”, ressalta o consultor. Com o plástico acontece o mesmo: ele possui duas propriedades físicas que são a plasticidade e a elasticidade. Conforme for reciclado, fica cada vez mais duro e quebradiço. Por isso, não é possível reciclá-lo infinitamente. “O vidro não. Ele é 100% reciclável. É possível reciclá-lo infinitamente, sem perder as propriedades físicas e químicas”, acrescenta.

Ele explica que a origem do vidro é 100% natural. “Não foi o homem que criou o vidro, ele vem da natureza. É uma liga de vários minerais que, na presença do calor, funde-se e gera o vidro. É por isso que uma erupção vulcânica origina o vidro. O homem não transformou nada para obter o vidro. Ele simplesmente aproveitou o que a natureza fez”, conclui.

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Stefan Jacques David – Engenheiro Mecânico (Faculdade de Engenharia Industrial – FEI), com Pós-Graduação em Administração Mercadológica (Faculdade Getúlio Vargas – FGV), e MBA em Gestão Ambiental (Proenco do Brasil – Ministério de Ciência e Tecnologia). Foi responsável pelas atividades de coleta de resíduos de grandes geradores, central de triagem e aterro industrial da empresa Vega Engenharia Ambiental. Com foco no segmento privado, assumia as operações na região da Grande São Paulo e ABCD, atendendo clientes tipo Mercedes-Benz, Pirelli e Grupo Pão de Açúcar, entre outros. Atua na Abividro como consultor na área de meio ambiente e sustentabilidade, desenvolvendo ações associadas à logística e reciclagem de embalagens pós-consumo, política de mudanças climáticas e diversas estratégias relacionadas ao tema.