Adensamento excessivo eleva o nível de ruído nas cidades

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Entrevista com o engenheiro Alexandre Sresnewsky, especialista em acústica e titular do escritório Sresnewsky Consultoria

Alexandre Galvão Bueno Sresnewsky
A legislação urbana deveria limitar ainda mais os níveis de ruídos urbanos permitidos, mas ocorre o inverso. Dessa forma, as cidades aceitam adensamentos absurdos e alterações de zoneamento em troca de taxas ou impostos

Crítico das decisões que permitem a construção indiscriminada de edifícios lado a lado, resultando em verdadeiros “labirintos acústicos reverberantes”, Alexandre Sresnewsky defende a ocupação mais racional do solo nas cidades. Em entrevista ao portal AECweb, ressalta o prejuízo causado pelo ruído a quem trabalha em home office e a crianças de escolas de São Paulo, especialmente as públicas. Autor de centenas de projetos para edificações no Brasil e no exterior, ele se dedica à pesquisa e já desenvolveu produtos que colaboram com o conforto acústico e térmico.

AECweb – Como a acústica se relaciona com a sustentabilidade na construção civil?
Alexandre Sresnewsky – Através de projetos racionais e ecológicos, abrangendo todas as especialidades e a arquitetura, para a atenuação de impactos ambientais internos e externos. E, também, pelo reaproveitamento de materiais reciclados on site ou de terceiros. Destaco que, hoje, é preciso dar mais atenção aos impactos das mudanças climáticas, visando adequações segundo normas de conforto habitacional e ocupacional nacionais e internacionais. É importante considerar algumas de engenharia de risco, como a NR 149 do Inmetro, para produtos de tratamento acústico ou isolante térmico para uso na construção civil.

AECweb – Os edifícios também geram ruídos?
Sresnewsky – Geram ruídos e vibrações, pois contam com todo tipo de equipamentos para conforto dos ocupantes como aparelhos de academias, máquinas de lavar roupa, secadoras, salões de festas, condicionadores de ar, bombas de piscinas, transformadores, exaustores de churrasqueiras, chillers, entre outros. São recursos que geram ruídos internos e externos com vibrações em lajes, tetos e alvenarias e fachadas, exigindo tipologias construtivas especiais e escolha adequada de equipamentos e seus complementos para atender as normas NBR 10151/17, NBR 10152/2000, NBR 15575 /4 (e atualizações), além de leis municipais.

AECweb – A arquitetura atual respeita as regras básicas de acústica?
Sresnewsky – A maioria dos arquitetos se pauta pelas normas técnicas de acústica, devidamente atualizadas. Além das que mencionei acima, destaco a ISO 2631, a NR 149 e outras de normatização de procedimentos de análise referenciada na ABNT. Todas, somadas a trabalhos no exterior, oferecem diretrizes para bons projetos, com citação de índices de conforto, exigindo layouts inteligentes e escolha de tipologias e materiais adequados. E sempre com orientação e consultoria de acústica para cada especialidade.

AECweb – Alguma crítica quanto à legislação urbanística e os impactos acústicos?
Sresnewsky – A legislação urbana deveria limitar ainda mais os níveis de ruídos urbanos permitidos, mas ocorre o inverso. Dessa forma, as cidades aceitam adensamentos absurdos e alterações de zoneamento em troca de taxas ou impostos. Quarteirões são demolidos para a construção de prédios ao lado de prédios, resultando em labirintos acústicos reverberantes e custos maiores para o isolamento acústico de fachadas e ambientes, onerando de forma crescente o metro quadrado e o gasto com energia. Planejamento urbano, como o residencial e inicial de Brasília dos apartamentos funcionais, é exemplo excelente de arborização, limitação de alturas e afastamento entre edificações. Não contesto a necessidade de renovação urbana, como do centro de São Paulo e do Porto Maravilha do Rio de Janeiro. Situações que se apresentam como excelente oportunidade para os estudos ambientais acústicos, que reduzem ruídos pela forma dos edifícios, paisagismo e ocupação humana.

AECweb – Apesar de todas as campanhas, o ruído nas grandes cidades continua elevado? 
Sresnewsky – É cada vez maior, exigindo o controle de emissão de ruídos dos veículos e mais vias com pavimentação acústica e mais arborização, além da oferta de transportes alternativos silenciosos. Acrescenta-se o ruído predial, que onera as habitações com mais isolamentos externos, ar-condicionado e esquadrias acústicas, encapsulando os ocupantes de forma absurda. Existem soluções como de terraços com forros acústicos que permitiriam abrir as janelas, mas é algo não aceito pelo aspecto com micro-orifícios.

AECweb – Como o barulho afeta aqueles que trabalham em home office?
Sresnewsky – Em home office ou nas reuniões online, o ruído contínuo ou intermitente e muita reverberação resulta em estresse, perda de eficiência e confusão. Interfere não apenas no operador, mas, também, na outra ponta dos calls com interlocutores que perdem a inteligibilidade das palavras, comprometendo a ideia de trabalho remoto. Em edifícios situados em ruas de alto tráfego, o ruído interno pode chegar a 65 dB, quando o ideal são níveis como o da curva NC 30 dB, obrigando a adoção de isolamentos acústicos e revestimentos especiais nos ambientes para videoconferências, além de dispositivos como noise cancelling em fones e microfones (tecnologia que reduz os sons ambientes).

Estudos estimam que 20% dos alunos têm dificuldade auditiva na rede pública municipal da capital paulista, acarretando repetência e exclusão do processo social e educacional

AECweb – Crianças nas escolas também são atingidas?
Sresnewsky – Em escolas, é uma violência inaceitável com as crianças! Estudos estimam que 20% dos alunos têm dificuldade auditiva na rede pública municipal da capital paulista, acarretando repetência e exclusão do processo social e educacional. E sem a percepção dos pais quanto à origem do prejuízo na evolução de seus filhos. Todas as escolas, sejam públicas ou particulares, deveriam ter exame de avaliação audiométrica e reservar posições especiais para deficientes auditivos e visuais. Porém, não adotam o procedimento prévio, como já ocorre nos testes para seleção de operários. Recomendo sempre a implantação de ações mitigadoras para redução de ruído de fundo e tempo de reverberação nos projetos das salas, o que apenas instituições mais ricas têm recursos para fazer e raramente o fazem.

AECweb – Qual o papel da pesquisa de materiais na acústica?
Sresnewsky – A importância de materiais com a devida pesquisa e certificação em laboratórios oficiais é enorme, seja de origem industrial específica ou de resultados alternativos como do aproveitamento de descartes de obra, industrial ou até de origem doméstica, como o isopor de embalagens e pneus, entre outros. Seria um círculo virtuoso se, partindo de demandas acústicas, se obrigasse o aproveitamento e reciclagem de todos os materiais que geram poluição em ruas, córregos, rios e até mares. O exemplo mais dramático é o descarte de lixo que a tão civilizada Europa faz nos mares da Somália, arrasando com a pesca. Cabe às universidades incentivar e realizar estudos de eficiência ambiental, como a da Federal de Viçosa, que demostrou a viabilidade de fabricação de tijolos com as lamas das mineradoras, ou no Peru, onde se fabricam em grande escala tijolos com cinzas vulcânicas.

AECweb – Foi o que inspirou a solução implementada na construção do teatro do Sinpeem, entidade de professores municipais de São Paulo?
Sresnewsky – Tudo no mundo se criou e evoluiu pela necessidade. O terreno do teatro era frágil e não comportava estruturas como a de concreto, alvenarias grauteadas ou soluções de massa inerte para isolamento acústico. A estrutura do teatro, desde os baldrames, foi do tipo metálica, com grandes e largas vigas para paredes com tijolos cerâmicos. Optamos por preencher estes tijolos com lã de pet, mas o custo era proibitivo. Solicitamos à entidade local de reciclagem de plásticos o fornecimento de resíduos de EPS, EVA e polietileno para o preenchimento dos vazios de todos os tijolos. Com isso, isolamos o ruído que poderia chegar aos edifícios vizinhos, verdadeiramente um drywall de tijolos com ‘lixo’. A solução oferece até 6 dB de isolamento acústico e, em tese, pode ser usada na otimização de construções com os tijolos cerâmicos ou, até mesmo de concreto. Já existem trabalhos em universidades a respeito, e sua utilização poderia ser feita na periferia das cidades, reduzindo o impacto ambiental, a obstrução de galerias e a disseminação de mosquitos. Mas entre a solução e a vontade de fazer está a questão cultural, que envolve treinamento, educação e espírito comunitário, algo muito complexo.

AECweb – Como você chegou ao desenvolvimento de tinta acústica e térmica, já aplicada em obra de teatro, em Barueri (SP)?
Sresnewsky – De longa data se divulga no exterior soluções com tintas refletivas de sol e térmicas para telhados e já existiam mantas acústicas de alta densidade para chapas de veículos, utilizando cargas minerais como o sulfato de bário. A tinta que estamos usando no teatro em Barueri é a manta líquida incombustível com as mesmas cargas minerais. À tinta lisa desenvolvida há um ano para vibrações foi necessário agregar micropartículas para fracionar o impacto das gotas de chuva. Ou seja, em superfícies lisas, os pingos geram pequenas explosões, como pequenos meteoritos. Já nas microrrugosas, perdem energia e fracionam. É algo perceptível entre menor ruído de gotas em pisos rústicos e, de outro lado, em porcelanatos, metais e vidros, gerando ruído de até 65 dBA.

AECweb – Quais foram as surpresas que te aguardavam em Ghana, onde presta consultoria para uma obra?
Sresnewsky – Há, naquele país, altíssimo nível de formação universitária, similar ao de universidades europeias. Encontrei bons trabalhos de impacto ambiental, com muita organização e foco social por parte de profissionais nativos, como por exemplo do excelente mapa de ruído da capital, Acra, em que o barulho das aves é surpreendente e foi medido. Existem, também, bons estudos de ruídos e inteligibilidade em salas de aula.

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Alexandre Galvão Bueno Sresnewsky
Alexandre Galvão Bueno Sresnewsky – É Engenheiro Civil e Eletrotécnico formado pela Universidade Mackenzie (1967). Atua na área de acústica desde 1968, através da Sresnewsky Consultoria, criada em parceria com o arquiteto Igor Sresnewsky. O escritório tem possibilitado o desenvolvimento do mercado e da engenharia acústica no Brasil, com a criação de produtos como a Lã Acústica de PET, Emulsões Acústicas, Mantas de EDPM de alta densidade e outros produtos liberados para a livre produção para todas as indústrias, sem quaisquer vínculos de patentes ou restrição de uso por outros consultores, para o atendimento de todas as obras onde possam ter utilidade. Desenvolveu também dezenas de equipamentos profissionais para sonorizações utilizados em edifícios, aeroportos, auditórios, escolas, em todo o Brasil. É membro da Acoustic Society of America, da Audio Engineering Society of America e certificado pela ABNT NBR 15575. Assina centenas de projetos acústicos para edifícios no Brasil e no Exterior.