Construção civil acelera com novas técnicas

Texto: Redação AECweb

Pressionado pelo ritmo intenso e falta de mão de obra e equipamentos, setor investe em inovação tecnológica

24 de agosto de 2010 - Em um cenário de demanda aquecida, carência de mão de obra e cronogramas atrasados, a construção civil aposta em soluções industrializadas para queimar etapas e reduzir o tempo de trabalho nos canteiros de obras.

Mesmo mais caros, os novos materiais têm sido utilizados intensivamente, principalmente para atender a obras comerciais - em que a entrega das chaves mais cedo significa pagamento de aluguel antecipado - e a obras do programa federal "Minha Casa, Minha Vida".

No lugar dos materiais e sistemas construtivos tradicionais, entram o steel framing, o drywall, a estrutura metálica, as portas duplas, a fachada aerada, a estrutura metálica e o aço dobrado e cortado na indústria, além de prazos até seis vezes menores.

Entre os novos materiais que mais contribuem para a redução dos prazos está o steel framing, estrutura metálica de aço galvanizado revestida internamente com placas de gesso acartonado e externamente com placa cimentícia. "Se você faz uma casa em 60 dias, com steel framing é possível fazer em dez. O problema é que o seu uso ainda encarece a obra em cerca de 20%. Mas é uma opção diante da falta geral de mão de obra na construção civil", avalia o diretor da Comissão de Materiais e Tecnologia do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG).

Hoje, a falta de mão de obra é apontada pelo setor como um de seus maiores gargalos. A falta de profissionais qualificados, em conjunto com a falta de equipamentos, já se reflete em atrasos de 25% dos cronogramas no Estado.

Em 2008, antes da crise, a construção civil gerou 18,2 mil novos empregos. Em 2009, foram 15,4 mil. Neste ano, só de janeiro a julho, foram 34,3 mil contratações. O construtor João Victor Silva, proprietário da Construtora Bom Encontro, voltada para a linha de imóveis de até R$ 150 mil, é um defensor do steel framing, uma tecnologia americana que começa a ganhar espaço no Brasil como alternativa à alvenaria tradicional. "É uma obra limpa e muito mais rápida.

Depois de nivelar o terreno, o construtor faz uma laje, que chamamos de radier. Depois, vem a montagem dos painéis. O processo é muito rápido. A maior parte de Dubai, erguida em tempo recorde, foi feita com steel framing", aponta Silva.

Outro construtor adepto do steel framing, Charles Rodrigues, conheceu a tecnologia nos Estados Unidos. "Lá, é wood framing, porque eles usam madeira. Aqui, a demanda ainda está pequena, acho que pela própria desconfiança do mineiro, que tem uma certa rejeição a mudanças, mas quem conhece quer continuar usando", relata Rodrigues. O construtor destaca, como vantagem, a facilidade de manutenção do imóvel. "Se fura um tubo, você corta a placa e conserta em 15 minutos. Sem quebradeira", aponta.

Entre os preconceitos, segundo Rodrigues, está o receio em relação à segurança, já que a alvenaria dá a impressão de uma solidez maior. "Tem gente que diz que não se sentiria seguro sem as paredes de tijolos. E ladrão, por acaso, entra pela parede? Ele entra é pela porta e, se a segurança for boa, ele entra com o dono. Não tem fundamento questionar a segurança das casas ou prédios em steel framing", defende.

Uso de parede de gesso interna cresce 35,7% no ano

Na mesma linha do steel framing, mas restrito às paredes divisórias internas dos imóveis, está o drywall. A expressão que, em inglês, significa "parede seca", é uma alusão à dispensa de argamassa para sua construção, como ocorre com a alvenaria. Segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Chapas para Drywall, o consumo nacional cresceu 35,7% no primeiro semestre deste ano. No mercado mineiro, no entanto, o novo sistema construtivo ainda encontra resistência.

A parede drywall é composta por uma estrutura rígida formada por perfis de aço, nos quais são parafusadas as chapas de gesso acartonado, as mesmas utilizadas na parte interna do steel framing.

Segundo o diretor-geral da fabricante Placo do Brasil, Sandro Maligieri, o drywall cresce a reboque do aquecimento da construção civil em 2010. "Desde o segundo semestre de 2009, temos observado a recuperação do segmento de construção civil como um todo, o que se reflete de imediato no aumento do consumo de chapas para drywall, especialmente nas regiões Sudeste e Centro Oeste do país", relata Maligieri, que aposta na manutenção do ritmo acelerado em função da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos.

Para o consultor técnico do Sinduscon-MG, Roberto Matozinhos, o drywall tem uma utilização ainda pequena no Estado, mas seu uso cresce com velocidade. "O prédio conhecido como ‘Balança mas não cai’, no Centro de BH, está sendo todo reformado com a utilização de drywall", aponta.

Mas a troca da alvenaria pelas estruturas de aço galvanizado recobertas de placas ainda encontra resistência. Mais leves e sem a solidez dos tijolos, as placas de gesso acartonado dão a impressão de fragilidade. "Fora do Brasil, o drywall é bem aceito, mas por aqui o pessoal não gosta, diz que dá a impressão de BNH (antigo Banco Nacional da Habitação). Eu prefiro não utilizar. De que adianta ganhar em velocidade se o consumidor não aceita bem?", questiona o diretor comercial da Construtora Agmar, Jackson Camara.

Para o diretor da Agmar, o grande entrave para a maior parte das novas tecnologias é o preço. "Não adianta ter uma obra mais rápida se, ao mesmo tempo, ela sai mais cara", pondera.

Preço alto limita estrutura de aço

Com uma solução para construção de edifícios comerciais e residenciais ainda pouco difundida, a Usiminas trabalha para mudar a cultura do mercado brasileiro e consolidar seu produto: a estrutura metálica. Para vencer barreiras culturais e econômicas, a siderúrgica oferece consultoria especializada para a utilização do seu produto, aceita receber ao final da obra e estuda, até, participar com terrenos próprios em alguns empreendimentos.

Com a redução de prazo de 20%, em média, como principal ganho, e o preço superior como impedimento, a companhia aposta na corrida contra o tempo dos cronogramas da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, para deslanchar na construção civil.

A filosofia é a mesma de outros produtos que surgem para encurtar o tempo das obras: parte do processo é levado para dentro da indústria. No canteiro, é feita apenas a montagem, o que dá ao construtor um ganho de velocidade.

Na construção convencional, a construtora utiliza o vergalhão para a montagem da armação e preenchimento com concreto. Com a solução da Usiminas, o vergalhão é substituído por colunas de aço, produzidas na usina e levadas prontas para o canteiro de obras para montagem. Outra vantagem da construção em aço é o baixo índice de erros durante a obra, devido à alta industrialização do processo.

O superintendente de vendas de construção civil da Usiminas, André Cotta de Carvalho, rebate a principal crítica do mercado - de que os preços dos perfis da siderúrgica são superiores ao modelo convencional -, com o argumento de que o problema é cultural. "Falta informação. Se você conceber um projeto para concreto armado e utilizar perfis de aço, sairá mais caro.

Para o concreto, os vãos são menores e o número de colunas é maior, diferentemente da obra em aço. Se, ao contrário, a concepção for para perfis de aço, e o concreto armado for utilizado, o preço também será superior. É difícil conseguir um preço bom quando se faz a adaptação de um projeto concebido para outro material", afirma Carvalho.

Para mudar a cultura do setor e estimular a utilização da estrutura metálica, a empresa criou um grupo formado por técnicos especialistas em construção metálica para ajudar arquitetos e projetistas na concepção de projetos. "A ideia é auxiliar na melhor modulação, de forma a aproveitar ao máximo as chapas", explica.

Aço no programa ‘Minha Casa, Minha Vida’

A Usiminas já acertou o fornecimento de seus perfis para um conjunto de dez prédios em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, e um em Ipatinga, dentro do programa federal "Minha Casa, Minha Vida, que prevê a construção de um milhão de casas.

O programa foi lançado no ano passado. "Também estamos na fase de encerramento das negociações para o fornecimento para mais 37 prédios em todo o país. Queremos que as construtoras façam a experiência para que possamos mostrar o ganho que a nossa tecnologia oferece", afirma o superintendente da Usiminas.

Para conquistar as construtoras, a Usiminas entra como parceira nos projetos, aceita receber no final da obra e negocia preços, caso a caso.

"O meu preço, hoje, é o que cabe dentro da planilha", garante o superintendente. Segundo Carvalho, nos dez prédios de Volta Redonda, a redução no prazo de obra será de 20%, em comparação com o sistema tradicional. Quanto maior a escala, maior o ganho com a solução.

A siderúrgica também estuda utilizar alguns de seus terrenos para viabilizar a construção de prédios dentro do "Minha Casa, Minha Vida". "Já temos um grupo pesquisando cada um desses terrenos e suas possibilidades", adianta.

Além do "Minha Casa, Minha Vida", outra aposta da companhia é o prazo apertado das obras da Copa 2014 e das Olimpíadas de 2016. "Nossa expectativa é grande porque, para esses eventos, a velocidade será extremamente importante", afirma o superintendente.

Custo fica 30% maior que em projeto convencional

Na prática, no entanto, o valor da solução continua como maior dificultador para a conquista de novos mercados. Segundo o diretor da Comissão de Materiais e Tecnologia do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG), Cantídio Alvim Drumond, o principal entrave à disseminação do uso das estruturas metálicas ainda é o preço. "Na prática, os custos ficam entre 25% e 30% mais altos do que no modo convencional, mas acho que é uma tendência para os próximos anos. A solução só é viável hoje quando a necessidade de antecipação da entrega é muito forte", avalia Alvim.

Canteiro vira linha de produção

Dentro da filosofia de transformar o canteiro de obras em uma linha de montagem, outra solução que começa a ganhar espaço nas grandes construções é o uso da tecnologia europeia de paredes duplas pré-fabricadas sob encomenda. Quando há demanda por um elevado volume de unidades em um curto espaço de tempo, como no "Minha Casa, Minha Vida", também tem se tornado frequente a utilização de paredes de concreto, no lugar da alvenaria tradicional.

As paredes duplas são levadas semi-prontas para a obra, onde duas chapas de aço são montadas em paralelo e concretadas, daí o nome parede dupla. As paredes são autoportantes e dispensam o uso de vigas.

Ganho de tempo de até 50% com parede dupla

De acordo com o diretor da fabricante Sudeste Paredes Duplas, Divanir Casagrande, o prazo de construção pode ser acelerado em até 50%, dependendo do projeto. Quanto maior a obra, maiores os ganhos.

O próprio Divanir reconhece, no entanto, que os custos são, em média, 20% superiores aos da alvenaria convencional. "Nossa solução é competitiva para prédios e conjuntos habitacionais", explica. A tecnologia de paredes duplas foi trazida com exclusividade ao Brasil pela Sudeste, em 2009. Após instaladas, as paredes dispensam acabamentos, como massa fina, e podem ser pintadas.

Já o uso de concreto tem se tornado comum, de acordo com o vice-presidente de Materiais, Tecnologia e Meio Ambiente do Sinduscon-MG, Geraldo Jardim Linhares Júnior, para atender à demanda do "Minha Casa, Minha Vida". O concreto é fundido em moldes, feitos sob encomenda, na própria obra. "É uma solução interessante, mas para grandes conjuntos, a partir de 500 unidades. Abaixo disso, não vale a pena, porque os moldes metálicos são caros. É preciso ter várias repetições para compensar", avalia Jardim. Segundo o vice-presidente, o ganho de velocidade varia entre 10% e 12%.

Nova técnica é inacessível para o consumidor

Dentre as soluções que vêm sendo utilizadas pelas construtoras para reduzir prazos, a mais comum tem sido a fachada aerada. Em substituição à técnica tradicional, que inclui chapisco, reboco e colagem do revestimento, na fachada aerada há eliminação de etapas, já que o revestimento - que pode ser cerâmica, porcelanato ou granito - é parafusado diretamente no prédio.

"O processo é muito mais rápido e há uma redução do serviço de pedreiro. A fachada de um prédio de dez andares, por exemplo, que leva seis meses para ficar pronta, é entregue em três meses com a utilização dos inserts metálicos. Há um custo 30% maior, mas o ganho de prazo é bem significativo", avalia o diretor da Comissão de Materiais e Tecnologia (Comat) do Sinduscon-MG, Cantídio Alvim Drumond, que também é superintendente de obras da Castor.

Há, também, a solução de corte de dobra de aço automatizada da Arcelor Mittal, o Belgo Pronto, que retira do canteiro de obras a armação das estruturas, reduzindo o tempo de execução das lajes. Além do serviço de corte e dobra na indústria, a empresa disponibiliza os serviços de pré-montagem, corte de tela e corte de cordoalha.

Apesar do crescimento do uso de novas tecnologias pelas construtoras, sua disseminação ainda é muito pequena entre as pessoas físicas que partem para a construção do próprio imóvel. Além do custo superior, a maioria dos materiais só é viável economicamente em grande escala. "Essas soluções pré-fabricadas ainda são caras. É preciso ter volume para ter um ganho de tempo que faça valer a pena", pondera o vice-presidente de Materiais, Tecnologia e Meio Ambiente do Sinduscon-MG, Geraldo Jardim Linhares Júnior.

A exceção é o uso do laminado em substituição ao uso de taco ou assoalho. Sem necessidade de pedreiro ou marceneiro, o laminado pode ser assentado em menos da metade do tempo de um assoalho.

Segundo Cantídio Alvim, a ideia de que o laminado é um produto inferior já está ultrapassada. "Hoje, tem imóvel de R$ 3 milhões com laminado. O metro quadrado varia de R$ 20 a R$ 150", relata.

Fonte: Hoje em Dia - MG