Construção melhora, mas ainda falta muito

Texto: Redação AECweb

Apesar do pacote, os fundamentos do setor ainda são preocupantes

6 de abril de 2009 - Depois de um longo e acentuado movimento de queda, as ações de construtoras conseguiram se reerguer novamente, com uma recente valorização. Desde o início do ano, alguns papéis já vêm subindo na expectativa do pacote habitacional do governo brasileiro para a construção de 1 milhão de casas populares. Após o anúncio do pacote, em 25 de março, as ações continuaram a se valorizar, algumas até de forma expressiva.

A questão agora é saber se os papéis irão tirar o pé do atoleiro em que se encontram, mesmo com toda a desaceleração econômica que se tem visto. Na opinião dos analistas, as medidas do governo são positivas para o setor, mas o mais importante é a economia em si e que continua ruim.

"Apesar do pacote, os fundamentos do setor ainda são preocupantes; depois da recente valorização, acredito que o melhor que o investidor tem a fazer é vender as ações e realizar lucro o quanto antes", diz o analista da Fator Corretora Eduardo Silveira. Assim como nas ofertas públicas iniciais (IPOs, em inglês), quando os papéis estreantes subiram mais do que deviam, eles também caíram exageradamente desde que a crise internacional mostrou suas garras no mercado. Portanto, a alta deste ano em grande parte é uma recuperação que já se esperava que ocorresse, assim que a Bovespa desse algum sinal de melhora.

"Se o Índice Bovespa não tivesse subido, dificilmente o setor teria andado o quanto andou recentemente", diz Silveira. Ele lembra que o retorno das ações de construção em relação ao mercado (conhecido como beta) é bastante alto, cerca de duas vezes. Ou seja, quando o Índice Bovespa sobe 10%, os papéis se valorizam 20%. O mesmo vale para a queda, eles caem o dobro do índice.

Algumas ações tiveram altas importantes desde a divulgação do pacote habitacional. De 25 de março para cá, as ordinárias (ON, com direito a voto) da MRV, por exemplo, acumulam valorização de 27,55%. Em seguida estão as ON da Cyrela, com alta de 25,12%, as ON da Gafisa, com 21,90%, e as da Even, subindo 19,91%. No mesmo período, o Ibovespa registra alta de 7,03% e o Índice Imobiliário (Imob), 15,65%.

Mesmo com todo esse movimento benigno, as ações ainda apresentam desempenhos sofríveis no longo prazo. Nos últimos 12 meses, os papéis da MRV caem 47%, os da Cyrela, 57,60%, e os da Gafisa, 56,83%. Algumas ações possuem uma situação ainda pior. Em 12 meses, as ON da Brasil Brokers já caíram 91,54% e as da Abyara, 89%. Na quinta-feira, segundo dados da Bloomberg e da consultoria financeira Economática, com exceção da Cyrela e da PDG, todas as outras ações de construção eram negociadas abaixo de seu valor patrimonial, um sinal importante de como elas ainda estão depreciadas. Alguns números assustam. As ações da Inpar, por exemplo, são negociadas a 9% do seu valor patrimonial, as da Agra, a 14%, e as da Brascan Residential, a 23%.

Demanda é o ponto fraco
É inegável que o pacote habitacional do governo deve contribuir. Mas o elemento mais decisivo para uma recuperação consistente é o nível de demanda, que continua bastante enfraquecido. "O simples medo de perder o emprego mexeu muito com a confiança do consumidor, que está fugindo da ideia de comprar um bem de alto valor, como um imóvel", diz Silveira. Os fundamentos do setor se deterioraram muito do fim do ano passado para cá. As vendas contratadas de imóveis sofreram quedas bruscas, os lançamentos caíram de forma significativa e as margens das empresas encolheram. "No ano passado, as previsões eram de que os lançamentos crescessem 30% em 2009; depois, passou-se a imaginar que o crescimento seria praticamente zero e, agora, se a queda for de 30% ou menos, já está bom", diz o analista da Fator.

Com relação ao pacote, Silveira lembra que as construtoras que atuam na baixa renda devem se beneficiar de uma pequena parte do total de 1 milhão de casas. Das 300 mil unidades destinadas às famílias com renda entre seis e dez salários mínimos, só 40% será na região Sudeste, onde atuam as construtoras, ou seja, 120 mil casas. "Sozinha essa demanda dificilmente muda a rota de queda das empresas", diz o analista, que tem como principais recomendações os papéis da PDG e da Rodobens, voltadas à baixa renda.

Fonte: Valor Econômico – SP - Daniele Camba