Construtoras disputam investimentos

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Empresas da construção civil trocam de lugar em projeto da Vale

05 de novembro de 2012 - A sociedade entre a brasileira Vale e a israelense BSG, na Guiné, para a exploração da mina de Simandou, a maior reserva inexplorada de minério de ferro do mundo, não é marcada somente pela renegociação do contrato entre as donas da concessão de exploração e o governo. A realização das obras de infraestrutura necessárias, que exigem bilhões de dólares em investimentos, também envolveu uma disputa entre duas das maiores empreiteiras do País: a Odebrecht e a Andrade Gutierrez.

Em 2010, a joint venture VBG, criada especialmente para o projeto, havia contratado a Odebrecht para tocar as obras - na época, Roger Agnelli era presidente da Vale. No ano passado, depois da substituição do executivo por Murilo Ferreira, a Odebrecht acabou perdendo o contrato. A rescisão, de acordo com a Odebrecht, ocorreu no fim de 2011. A empresa diz que o motivo foi a falta de consenso sobre o preço das obras.

Fontes ligadas ao projeto afirmam que a situação da Odebrecht começou a ficar difícil com a migração, a partir do ano passado, de pelo menos quatro executivos da Andrade Gutierrez para a mineradora. Um deles, Luiz Otávio Costa, foi escolhido líder da implementação do projeto da Vale de Simandou. "A situação da Odebrecht começou a ficar complicada", diz um executivo da área da construção civil.

Oficialmente, a Andrade Gutierrez afirma que o fato de um ex-executivo da empresa ter assumido o comando da obra da reserva de minério de ferro na Guiné - estimada em 5,5 milhões de toneladas métricas, 2 milhões a menos do que Carajás, no Pará - não influenciou a troca da prestadora de serviço. "Nós já tínhamos sido chamados para o projeto muito antes de ele (Luiz Otávio) ir para a Vale", afirmou o presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo.

A VBG nega que questões de relacionamento tenham influenciado a mudança. A empresa informou que "não há nem houve qualquer favorecimento a nenhuma empreiteira" e que a decisão foi "baseada em melhores condições técnicas e comerciais para o empreendimento".

Como é comum na África, o projeto dos sonhos de um dia pode se tornar uma dor de cabeça no seguinte. Embora o complexo ainda represente uma grande oportunidade para qualquer construtora, por enquanto as obras estão paradas à espera de uma solução para o impasse regulatório. Em julho, a Andrade Gutierrez teve de lidar com a invasão do canteiro de obras na mina de Zogota, outra concessão da Vale, a 50 km de Simandou. O governo interveio, e a disputa resultou na morte de seis civis.

Após perder o contrato com a VBG, a Odebrecht migrou para o "outro lado" de Simandou. Segundo Miguel Peres, diretor-superintendente da Odebrecht em Moçambique, a empresa fechou um contrato para a preparação das obras de exploração da fatia da australiana Rio Tinto no complexo - um contrato de US$ 120 milhões.

Caso a vontade do governo da Guiné prevaleça nas renegociações com Vale e Rio Tinto, o desenho previamente imaginado para o escoamento do minério de Simandou terá de ser abandonado. A expectativa das empresas era exportar o produto por uma ferrovia até o Atlântico via Libéria. Mas o governo quer uma estrada de ferro mais longa, inteiramente dentro do território da Guiné.

A mudança evitaria a dependência de um acordo com outra nação, em um cenário em que pesa a instabilidade política, mas multiplicaria o investimento em infraestrutura previsto pelos grupos - o gasto passaria de US$ 10 bilhões, segundo fontes. Esse novo traçado, segundo Asher Avidan, presidente da BSG, sócia da Vale em Simandou, poderia tornar o projeto economicamente inviável.

Fonte: O Estado de São Paulo