Construtoras menores lideram Minha Casa, Minha Vida

Texto: Redação AECweb

Programa alcançou a meta a que se propôs: contratar 1 milhão de moradias até o final de 2010

14 de janeiro de 2011 - As grandes empresas do setor imobiliário não ocuparam os holofotes na primeira edição do programa "Minha Casa, Minha Vida". Se considerado o balanço do projeto apresentado pelo governo federal no fim de 2010, foram as construtoras pequenas e médias que abocanharam a maior parcela de imóveis contratados.

Um ano e oito meses após seu lançamento, o programa alcançou a meta a que se propôs: contratar 1 milhão de moradias até o final de 2010. Em 29 de dezembro, o governo anunciou terem sido contratadas 1 milhão e 3 mil unidades habitacionais.

O ritmo de contratações, no entanto, ganhou corpo na reta final, acompanhando a sazonalidade do setor, que costuma concentrar maior número de lançamentos no segundo semestre.

Até a primeira semana de outubro de 2010, o programa havia contratado perto de 680 mil unidades por meio da Caixa Econômica Federal.

Desse total, MRV Engenharia, Cyrela Brazil Realty e Rodobens --três empresas de capital aberto com participação no "Minha Casa, Minha Vida"-- contrataram, juntas, cerca de 13 por cento das unidades.

Conforme números apurados pelas companhias até 30 de setembro, a MRV teve 39,3 mil unidades contratadas dentro do programa, o equivalente a pouco menos de 6 por cento do total até a data. A Cyrela Brazil Realty, por meio da Living --seu braço voltado para baixa renda--, contratou 33,4 mil (quase 5 por cento), enquanto a Rodobens teve 15,7 mil moradias contratadas (2,3 por cento).

Outras grandes companhias do setor imobiliário com ações na Bovespa procuradas pela Reuters não forneceram dados.

Para o presidente do SindusCon-SP, sindicato da construção civil, Sergio Watanabe, a participação de todas incorporadoras e construtoras listadas na Bovespa "deve ter sido da ordem de 20 por cento no programa".

Pesou contra as companhias maiores fatores como ausência em regiões com alto índice de déficit habitacional, como o Nordeste do país, e a pouca experiência em obras no segmento econômico.

"É normal que empresas listadas não tenham muita participação no programa... Quase nenhuma operava no segmento de baixa renda", observa o analista André Rocha, do Bradesco.

A MRV, que já atuava na baixa renda, afirma ter sido a empresa com maior número de contratações dentro do programa.

Para o analista do Bradesco, a MRV pode realmente ter sido a mais beneficiada, por já possuir um bom relacionamento com a Caixa, agente financeiro que patrocina os financiamentos no âmbito do "Minha Casa, Minha Vida".

No início de 2010, a MRV implantou o projeto Correspondente Imobiliário junto à Caixa, buscando acelerar a conclusão dos processos de empréstimos imobiliários. Com isso, a própria construtora cadastra e realiza o processo de aprovação de crédito de potenciais clientes. À Caixa, cabe a conferência de dados e a aprovação do financiamento.

O "Minha Casa, Minha Vida" foi lançado pelo governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no final de março de 2009, com subsídios da ordem de 34 bilhões de reais.

O programa --voltado à famílias com renda de até 10 salários mínimos-- foi apresentado em meio à crise econômica global, com intuito de reduzir o déficit habitacional do país e também fortalecer a economia e gerar empregos.

Um ano depois, em março de 2010, ainda com a primeira etapa em curso, foi anunciado o "Minha Casa, Minha Vida 2", com previsão de 2 milhões de moradias contratadas até 2014 e subsídios do governo acima de 70 bilhões de reais.

Consolidação do Setor

Embora as grandes construtoras não tenham apresentado participação exorbitante no "Minha Casa, Minha Vida", elas se viram incentivadas a realizar fusões e aquisições.

"A maioria não tinha experiência em obras de baixa renda e incorporou empresas nesse segmento", diz Watanabe, do Sinduscon-SP.

Desde o lançamento do programa, a Gafisa incorporou a Tenda, a PDG Realty adquiriu a Agre e a Rossi firmou diversas parcerias regionais.

Agentes do setor acreditam, contudo, que o aprendizado das companhias de capital aberto do setor durante a primeira fase do projeto não deve resultar em um aumento expressivo de participação nas contratações da segunda etapa.

"Houve aprendizado entre as grandes, mas as médias devem continuar dominando. Por outro lado, parcerias regionais entre empresas devem aumentar, algo fundamental dentro do programa", afirma a economista da FGV Projetos, divisão da Fundação Getúlio Vargas, Ana Maria Castelo.

Para a segunda fase do programa, especialistas apontam como necessária a revisão dos valores dos imóveis, principalmente se considerado o fato de que a população que ganha até três salários mínimos será contemplada com 60 por cento das unidades previstas, ou 1,2 milhão de moradias.

"As empresas estão contando com o aumento do preço-teto. A própria MRV está tendo dificuldade para enquadrar imóveis no programa. Esse aumento de preço é fundamental principalmente nas regiões metropolitanas", comenta Rocha, do Bradesco.

"Com valor adequado, o mercado pode produzir mais para essa faixa (de renda)", acrescenta Ana Maria.

Fonte: Agência Estado - SP