Cresce uso do cartão BNDES para obras

Texto: Redação AECweb

Em maio, foram R$ 2,5 milhões em empréstimos para compra de insumos para reformas e ampliações

30 de junho de 2009 - Luís Antônio Cândido acaba de usar pela primeira vez o seu cartão BNDES na compra de produtos para a construção civil. Comprou R$ 55 mil em telhas pintadas, numa negociação realizada com um fornecedor cadastrado no site do banco de fomento.

Ele também está para finalizar, por meio do cartão, a compra de material elétrico para a ampliar um galpão em Campinas (SP), assim como insumos para a construção de um muro no local.

Dono da Orleans Comércio de Peças e Implementos Rodoviários, Cândido decidiu investir para ampliar em 1,5 mil metros quadrados o espaço de sua concessionária autorizada da marca Librelato, fábrica de caçambas e acessórios para caminhões de Santa Catarina.

Cliente do Bradesco, que o ajudou na emissão do cartão, Cândido obteve uma linha de R$ 240 mil do banco de fomento para a compra de materiais de construção.

Com os recursos, ele vai aumentar em mais de 60% a área total para a venda de caçambas para caminhões. "Comecei a fazer a ampliação com capital da linha que possuo como pessoa jurídica no Bradesco. Mas o crédito do BNDES é mais barato e fácil de usar, por isso resolvi tentar esse caminho", diz ele. "Minha meta é ter espaço para vender até 60 unidades por mês. Antes, vendia 25."

O uso do cartão BNDES na compra de insumos para construção foi autorizado pela instituição há menos de três meses, mas dados mostram que o desempenho inicial é positivo. No mês passado, foram realizadas R$ 2,5 milhões em operações de crédito de insumos para construção para as micro, pequenas e médias empresas.

Em junho, apenas nas duas primeiras semanas, o valor dobrou - atingiu R$ 5 milhões. O financiamento, oferecido pelo BNDES por meio de uma parceria com as operadoras Visanet ou Redecard, tem parcelas longas e taxas de juros abaixo do mercado.

A operação pode ser feita em até 48 parcelas a juros mensais de 1% - a taxa média cobrada dos bancos de varejo está em 4,15% ao mês, informa a Associação Nacional dos Executivos de Finanças.

Houve mudanças recentes em prazo e valor máximo liberado. Em janeiro, o limite de crédito por cartão passou de R$ 250 mil para R$ 500 mil e os juros cobrados nos financiamentos caíram de 1,13% para 1% ao mês. Além disso, o prazo de amortização foi ampliado de 36 meses para 48 meses.

No momento, o banco se esforça para ampliar a base de fornecedores cadastrados no sistema. Isso é fundamental, pois as companhias de menor porte precisam ter um leque de opções de fabricantes à disposição para que a escala de operações cresça.

"É claro que queremos que o total de financiamentos com o cartão se expanda, mas agora estamos preocupados mesmo em ampliar a base de fabricantes cadastrados", diz Rodrigo Bacellar, chefe do departamento de operações pela internet do BNDES.

Atualmente, existem cerca de cem fornecedores do setor listados no sistema - no total, cerca de 1,4 mil fabricantes de diferentes segmentos fazem parte da rede de negócios do banco. Foram emitidos até hoje 200 mil cartões.

Para se cadastrar, basta acessar o site do cartão na internet (www.cartaobndes.gov.br) e seguir uma série de passos informados na página. Bradesco e Banco do Brasil são as duas instituições financeiras que emitem os cartões do BNDES com as bandeiras Visa e Mastercard.

Na avaliação do Bradesco, ainda há espaço para crescimento da modalidade de financiamento dos insumos entre pequenas empresas. "Fizemos um esforço, chamando a clientela e explicando vantagens existentes no produto. Se a companhia estiver com documentos e impostos em ordem, não há porque não recorrer ao cartão", diz Ademir Cossiello, diretor-executivo do Bradesco.

Ele nega que exista uma tendência dos bancos em geral a acabar "empurrando" produtos próprios, com taxas mais elevadas que as do cartão, em detrimento da linha do BNDES. Dirigentes de associações de pequenos empresários como o Sebrae/SP criticam, de forma recorrente, essa postura. "Isso não existe. No Bradesco somos transparentes", diz.

Além do Banco do Brasil e do Bradesco, o BNDES negocia a entrada de novos bancos nessa parceria. A negociação acontece hoje com duas instituições e pelo menos uma deve engrossar essa lista até o final do ano, diz Bacellar - que prefere não revelar os nomes.

Para se tornar fornecedor, os produtos a serem comercializados precisam estar qualificados nos Programas Setoriais da Qualidade (PSQ), no âmbito do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H), do Ministério das Cidades.

Também são aceitas inscrições de empresas que apresentarem certificação no âmbito do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade (SBAC), emitida por Organismo de Certificação de Produto (OCP) acreditado pelo Inmetro.

Como a operação de compra com o cartão pode ser feita também em redes varejistas, há um esforço do banco no sentido de envolver as lojas nesse projeto. "Nossa meta é tornar o cartão cada vez mais a melhor opção ao mercado, e os revendedores têm participação nisso", diz Bacellar.

Pelas regras definidas pelo BNDES, somente um revendedor ou distribuidor indicado por um fabricante (que já está na lista do banco de fomento) poderá solicitar o credenciamento da loja no sistema.

"Há um grande potencial nas vendas indiretas, por meio de redes varejistas. Mas acreditamos que governo e o varejo devem se mobilizar nos próximos meses com campanhas mais fortes de esclarecimento para que a escala aumente", afirma Melvyn Fox, da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat).

"Acreditamos que o cartão deve favorecer o consumo formiguinha da pequena empresa, que faz compras aos poucos. Como esse grupo de investidores ficou receoso com as turbulências no cenário externo, é natural que a demanda cresça mais a médio e longo prazos", completa Fox.

Fonte: Valor Econômico – SP