Crise não impede investimentos em infra-estrutura

Texto: Redação AECweb

Recursos privados em setores de infra-estrutura somam pelo menos R$ 62 bi este ano

16 de abril de 2009 - Mesmo com a crise internacional, investimentos em infra-estrutura seguem em ritmo acelerado e também tendem a ajudar a manter a economia aquecida. Os motivos são os mais variados: necessidade de antecipar receitas, cronogramas estabelecidos nas licitações, compromissos com terceiros e exigências dos acionistas, entre outros. Muitos deles fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas não foram contaminados pela lentidão da liberação de recursos para as obras, justamente porque não dependem de recursos orçamentários. Uma amostra feita pelo GLOBO aponta que estão garantidos pelo menos cerca de R$ 62 bilhões em investimentos privados este ano, enquanto o montante de investimentos previstos pelo governo federal é de R$ 33,6 bilhões.

“Diferentemente de órgãos de governo, se uma empresa privada não cumpre seus contratos, ela é punida. Ela tem financiamentos bancários e precisa gerar caixa para pagar seus compromissos”, diz o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-estrutura (CBIE).

É o caso das usinas hidrelétricas de Estreito, Jirau e Santo Antônio, que se comprometeram com um cronograma e dependem do término das obras para gerar caixa. A Usina de Estreito, por exemplo, viu o número de empregados pular de dois mil ao ano passado para cerca de sete mil em 2009. Com previsão de conclusão em agosto de 2010, o consórcio formado pela franco-belga Suez, a Vale, a Alcoa e a empreiteira Camargo Corrêa pretende investir este ano R$ 1,67 bilhão, mais do que o R$ 1,27 bilhão alocado até dezembro de 2008.

“A usina tem que responder a um cronograma muito rígido, por causa do período hidrológico. Se não desviarmos o rio até outubro, perdemos um ano de obras”, explica José Renato Ponte, presidente do consórcio que produz a usina.

Rodovias: pedágios são prioridade
A usina de Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia, já tem 1,6 mil pessoas empregadas e deverá superar 3 mil até dezembro, para começar a gerar energia em 2012, um ano antes do prazo acertado com o governo. Dessa forma, poderá vender para o mercado livre de energia, antecipando uma receita importante para financiar a obra. É a mesma lógica da usina de Santo Antônio, construída ao lado, que vai demandar R$ 1,5 bilhão em investimentos este ano, 13% do total.

A área de telecomunicações também tem investimentos certos. A Oi, que comprou a Brasil Telecom em 2008, vai aplicar entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões este ano. Do montante, 60% serão destinados à telefonia fixa, incluindo dados, e o restante à telefonia móvel. Se uma parcela vai ser destinada à área geográfica da BrT (que inclui o Distrito Federal, a Região Sul e alguns estados do Norte), a empresa também está de olho no concorrido mercado paulista, onde ingressou no ano passado e ainda precisa se consolidar. Até mesmo para cumprir exigências da aprovação da fusão.

“Temos compromissos de universalização e se não investirmos perdemos mercado e ficamos defasados tecnologicamente”, diz Alex Zornig, diretor de Finanças e Relações com Investidores da Oi.

As empresas do grupo EBX, de Eike Batista, preveem investimentos de cerca de R$ 3,5 bilhões este ano. A LLX, de logística, está investindo R$ 1 bilhão nos portos de Sudeste (Ilha da Madeira, em Itaguaí) e Açu, em São João da Barra, Norte Fluminense, próximo à área de maior produção de petróleo e gás do Brasil. Ali já existem 66 contratos assinados com empresas que querem se instalar ou movimentar cargas. Além disso, a empresa tem o compromisso de concluir o porto ao mesmo tempo em que sua sócia, a Anglo American, termina o minerioduto que transportará minério de Minas Gerais.

“Este período está sendo muito positivo para investimentos. Antes tínhamos dificuldade para conseguir fornecedores. Agora, não temos este problema, o que diminui o risco de execução dos negócios” afirma Paulo Gouvea, diretor de Corporate Finance do Grupo EBX.

As concessionárias de rodovias também estão correndo para implantar as últimas nove praças de pedágio nas estradas concedidas no ano passado. Com os postos instalados, elas poderão finalmente ver realizado o fluxo de caixa previsto em seus planos de negócios. Apenas a OHL Brasil, que administra cinco rodovias, vai investir R$ 1,102 bilhão este ano.

“Se este tipo de investimento for reduzido, a nossa produção sofrerá impacto negativo porque vai perder competitividade” afirma José Carlos Ferreira de Oliveira Filho, diretor Presidente da OHL Brasil.

De todos os segmentos de infraestrutura, o de capital mais intensivo é o de petróleo. De acordo com o Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), que reúne as empresas do setor, serão investidos em pesquisa e exploração este ano US$ 22 bilhões, sendo que a maior parte é da Petrobras. Nesse setor, a maturação do investimento é lenta e demorada, o que força as empresas a manterem sempre o ritmo de desembolso.

Fonte: O Globo - Gustavo Paul