Falta de mão de obra dificulta expansão da Construção no Rio Grande do Sul

Texto: Redação AECweb

Burocracia dos órgãos públicos também pode influir no resultados em 2011

26 de janeiro de 2011 - Economia aquecida, consolidação de programas habitacionais e facilidade para obtenção de crédito são alguns dos fatores que vêm impulsionando a construção civil brasileira. Em 2010, o setor teve seu melhor desempenho em duas décadas, com crescimento estimado em 11% no Brasil e 7% no Estado. Entretanto, gargalos como a falta de mão de obra e a burocracia dos órgãos públicos podem influir no resultados em 2011. Apesar das carências, a expectativa é de que o vigor mantenha-se devido às demandas existentes.

O bom momento passa pela consolidação do Programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). No ano passado, grande parte dos R$ 80 bilhões destinados a financiamentos para compra da casa própria beneficiou pessoas de baixa renda. "Vivemos um momento mágico na construção civil, devido ao MCMV e ao crédito. O mercado possui forte demanda, principalmente nas classes emergentes", analisa Carlos Alberto Schettert, presidente do Grupo Capa. Para atender à demanda, a empresa passou a investir em imóveis com preço na faixa entre R$ 80 mil e R$ 130 mil, concentrando as ações na Região Metropolitana de Porto Alegre e no Interior. O grupo prevê para 2011 a duplicação do faturamento, atingindo R$ 600 milhões.

"A prestação da casa própria cabe no bolso do consumidor", constata o presidente da Arquisul, Paulo Roberto Silveira. Embalada pela ascensão do setor, a construtora teve um crescimento de 60% e acredita na manutenção do resultado. "Na nossa empresa, conjugar o verbo vender não é difícil. Conjugar o verbo entregar é o nosso grande desafio", ressalva Silveira, referindo-se a uma das principais dificuldades, a demora nos processos de aprovação e licenciamento dos empreendimentos.

Após a aquisição do terreno, a permissão para o início da obra pode levar até um ano. Depois da conclusão é necessária a obtenção da Carta de Habite-se, da Certidão Negativa de Débitos (CND) e do Registro Público. Esse processo leva de três a cinco meses para ser finalizado, podendo atrasar a entrega. A lentidão no trâmite está relacionada à falta de estruturação dos órgãos públicos, que não acompanharam o ritmo de evolução da construção civil. O número atual de funcionários é insuficiente para o elevado índice de lançamentos.

Dólar barato favorece a importação de materiais

Outro problema que atinge as construtoras é a carência de matéria-prima, o que tem sido solucionado com facilidade. "Começamos a importar materiais de construção, pois o preço do dólar está barato", diz Fernando Goldsztein, diretor regional da Goldsztein Cyrela. Até mesmo os fabricantes nacionais têm recorrido à importação de produtos para revendê-los dentro do País, conseguindo manter margem de lucro.

Com a construção civil em alta, investidores do mercado financeiro passaram a desbravar o setor. "Está provado que um bom investimento na construção civil está superando, e muito, os dividendos obtidos no mercado financeiro", justifica Paulo Roberto Silveira. Segundo levantamento da consultoria Economatica, realizado em 2010, as empresas brasileiras são as mais lucrativas e com maior valor de mercado entre as companhias do segmento na América Latina e nos EUA.

Já para contornar a falta de mão de obra, as empresas investem em programas de qualificação. Nos últimos 12 meses, o setor foi responsável pela criação de 330 mil novos postos de trabalho no País. "Existem recursos suficientes e demandas, mas não há mão de obra qualificada. Esse fator pode impedir um crescimento como o de 2010", alerta José Luiz de Azambuja, presidente do Sindicato dos Engenheiros do Rio Grande do Sul (Senge-RS).


Obra de extensão do Trensurb recorreu à contratação de ex-funcionários do setor calçadista

Um dos principais problemas da construção civil, a escassez de mão de obra, tem sido minimamente contornado pelas empresas. A fartura de vagas aliada aos programas de capacitação motivaram profissionais de outras áreas a ingressarem no ramo. As frentes de trabalho viraram locais de aprendizado. Com término previsto para março de 2012, a extensão da linha 1 do Trensurb, que ligará São Leopoldo a Novo Hamburgo, é um exemplo.

O processo de expansão do trem, iniciado em fevereiro de 2009, acolheu trabalhadores oriundos da indústria calçadista do Vale do Rio dos Sinos. A crise vivida pelo setor nos anos anteriores ocasionou a demissão de milhares de pessoas e parte desse contingente, após receber qualificação, passou a integrar o projeto. "Como vieram sem experiência na construção civil, fizemos treinamentos internos. Temos pessoas que há dois anos começaram como ajudantes e hoje são encarregados", diz o engenheiro Nilson Coelho, gerente de contratos da Nova Via, consórcio responsável pela iniciativa.

A formação própria, porém, não foi suficiente para solucionar o quadro. Outras ações em desenvolvimento na região, como a criação da Rodovia do Parque, acirraram a disputa por trabalhadores locais. Somente com o recrutamento de pedreiros e carpinteiros vindos do interior do Estado o cronograma está sendo desenvolvido sem percalços. Nas atividades técnicas, como engenharia e topografia, foram escalados funcionários de outros estados, provenientes das quatro empresas integrantes do consórcio. Acompanhando uma tendência da área, o sexo feminino também foi incorporado ao efetivo. "Quando comecei em obras, há 30 anos, até secretário era homem. Hoje, temos cerca de 40 mulheres trabalhando conosco e posso afirmar que é uma grata surpresa", relata. Durante os meses de outubro e novembro, 1,1 mil empregados atuavam no local. Atualmente, em estágio avançado do projeto, esse número caiu para 850.

As reformas estruturais visando à Copa do Mundo de 2014, que começam a ganhar forma, acirrarão ainda mais a disputa por pessoal no mercado, acredita Coelho. A Construtora Tedesco, gerenciadora das obras do Estádio Beira-Rio, que receberá os jogos da competição em Porto Alegre, adota uma série de medidas para minimizar os impactos desse gargalo. "As arquibancadas estão sendo feitas com concreto pré-moldado. Depois, a cobertura será feita com estrutura metálica. Estamos utilizando o máximo de coisas industrializadas e fazendo um planejamento rigoroso para racionalizar o processo", afirma o diretor da Tedesco Pedro Silber.

Apenas mão de obra local será utilizada. "O estádio e o Inter são daqui", justifica Silber, garantindo que esta é uma maneira de valorizar as empresas gaúchas. Ao contrário do Maracanã e do Mineirão, estádios fechados para a realização das reformas, a casa do Internacional não ficará privada de receber partidas. Para isso, a remodelação das arquibancadas foi dividida em quatro etapas, a primeira delas teve início em dezembro do ano passado. A ideia consiste em isolar cada quadrante para que não se perca a possibilidade de utilização, mesmo que a capacidade de público fique reduzida.

Fonte: Jornal do Comércio - RS