Febre do milhão nos imóveis do Distrito Federal

Texto: Redação AECweb

Levantamento mostra que, em 16 das 27 regiões administrativas pesquisadas, há unidades à venda por cifras com mais de seis dígitos.

11 de julho de 2011 - O Distrito Federal vive a síndrome do milhão. Passar os olhos sobre as ofertas de casas e apartamentos nos classificados e contar mais de seis dígitos a cada anúncio não surpreende mais. Levantamento exclusivo feito pelo Correio mostra os extremos entre as ofertas praticadas pelo mercado, em imóveis novos e usados, de 27 áreas em Brasília. Em 16 regiões - mais da metade do total pesquisado -, os futuros proprietários não terão de ser apenas endinheirados, mas também milionários para conseguir comprar o imóvel. Com os preços nas alturas, é possível encontrar casas, no Lago Sul, por mais de R$ 11 milhões.

A explosiva valorização dos imóveis, como se vê hoje, segue um movimento iniciado há pelo menos três anos. Na época, era possível colher indícios de um aumento acentuado nos futuros preços do Plano Piloto, mas o reflexo transpôs limites e chegou às regiões administrativas. Além de Águas Claras, famosa pelos arranha-céus e pelos condomínios verticais, Vila Planalto, Ceilândia, Cruzeiro, Samambaia, Sobradinho e Vicente Pires são alguns dos exemplos dos novos integrantes da lista e que passaram a fazer parte da febre do milhão.

Dono de uma mansão em Vicente Pires, Hudson Cavalcante decidiu vender a casa. Nas fotos do anúncio, ele exibe pilastras amarelas, paredes brancas, um jardim perfeitamente aparado e uma piscina. A fachada poderia estampar a capa de uma revista de decoração, mas foi erguida em terreno irregular. O detalhe, que poderia por tudo a perder, não abalou o preço. Ele pretende conseguir R$ 3,5 milhões. "É uma casa especial. A área é grande, tem piscina, churrasqueira e é muito rica em detalhes", justifica.

Antes de comprar a mansão, Hudson morava no Lago Norte. "Mudei pela comodidade e só vou sair daqui por problemas pessoais", revela. Com um terço do valor pedido pela mansão do corretor, e disposição para morar em um lugar menor, é possível comprar um imóvel em qualquer área nobre da cidade, como o Noroeste, as asas Sul e Norte e o Sudoeste.

Consistência

Presidente do Sindicato da Habitação do Distrito Federal, Carlos Hiram Bentes David ressalta que casos como esse fazem parte de algumas distorções do mercado. "Pedir, qualquer um pode, mas se não for condizente com o padrão de preços da região, não é possível vender", explica. De modo geral, ele acredita que a valorização em Brasília e arredores seja consistente. "Não há mais a velocidade de 2008 ou 2009, mas a demanda continua forte e a oferta ainda não conseguiu suprir. As limitações no centro impedem construções e a saída é migrar para áreas mais próximas, com o conceito de lazer no condomínio", diz.

Com maior investimento das construtoras nas regiões antes livres de especulação, os moradores têm acompanhado uma subida dos valores sem qualquer esforço adicional. O corretor Luiz Gustavo Siqueira tem no catálogo uma opção em Sobradinho, avaliada em R$ 1,6 milhão. "O diferencial é o tamanho do lote, o nível de sofisticação do acabamento. E, por ser afastado, é mais tranquilo. É possível até criar animais e fazer uma horta", enaltece. Quanto à procura, Siqueira diz que "está mais ou menos". "Esse é um refúgio, para um público bastante específico", completa.

No Lago Sul, onde um terreno pode ser vendido por R$ 3 milhões, as faixas com anúncios de construções milionárias ficaram cada vez mais comuns. Além de destacarem o preço, em um longo número, o telefone ou endereço do anunciante vem logo abaixo. "Acabou o constrangimento. Hoje quem vende não fica nem vermelho ao pedir R$ 1 milhão ou mais em qualquer coisa, em qualquer lugar", comenta Francisco Carlos dos Santos Lima, presidente da Associação dos Corretores de Imóveis do Distrito Federal (ACI).

Ao comparar a capital federal com Goiânia, Francisco aponta um dos motivos para a disparada dos preços em Brasília. "Um construtor consegue comprar duas ou três casas por lá e ergue um prédio no lugar. Aqui as regras são diferentes, até no número de andares. Criar menos opções reflete no preço." O agravante, na opinião dele, seria a falta de oferta de novos terrenos. "Hoje a especulação começa do governo, que tem grande estoque de terras nas mãos da Terracap, mas não oferta", argumenta.

Além disso, o bairrismo ainda influenciaria as decisões do brasiliense. "É comum um morador do Lago Norte pagar R$ 500 mil para morar em uma quitinete, mas não se mudar para um apartamento muito maior em Águas Claras. Somam-se aí diversos motivos pessoais, como morar perto do trabalho etc."

Quem dá mais?

A variação de preço entre imóveis semelhantes dentro da mesma região também faz parte dos contrastes brasilienses no setor imobiliário. No Lago Norte, entre as unidades à venda, a diferença entre o maior e o menor valores cria um abismo entre eles. É possível comprar uma casa por R$ 350 mil ou outra 23 vezes mais cara, por R$ 8 milhões. Uma diferença de 2.186%. A situação se repete com as casas do Park Way, onde a variação máxima é de 2.031%; também com os apartamentos de dois quartos no Guará, 1.041%; e as casas de Samambaia, 1.275%. Quando a comparação é feita com imóveis do mesmo padrão nas diferentes regiões do DF, a discrepância também é exagerada. A casa mais barata em Planaltina, vendida por R$ 38 mil, está 294 vezes mais barata que a mais valiosa disponível no Lago Sul, de R$ 11,2 milhões. Ao comparar imóveis de metragens semelhantes, como as quitinetes, a diferença é menor, mas ainda assim marcante: 1.485%. Ou seja, são necessários 16 apartamentos destes, de R$ 40 mil em São Sebastião, para conseguir apenas um, de R$ 634 mil, na Asa Norte.

Fonte: Correio Braziliense - DF