Garagens causam dano ambiental

Texto: Redação AECweb

Construções no subsolo necessitam de escavações, que atingem o lençol freático, comprometem a qualidade da água e destroem nascentes

06 de maio de 2009 - As construtoras e incorporadoras de Curitiba estão propondo mudanças na legislação que estabelece os parâmetros para construir na cidade, a chamada Lei de Zoneamento. O presidente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi) do Paraná, Gustavo Luís Selig, defende o fim das garagens subterrâneas, sob o argumento de que elas trazem prejuízos ao lençol freático.

Para que a proposta seja colocada em prática, porém, as construtoras reivindicam que as garagens construídas no térreo deixem de ser incluídas no potencial construtivo dos empreendimentos, a exemplo do que já ocorre com as subterrâneas.

Selig explica que para fazer o estacionamento no subsolo é preciso escavar 1,60 metro a partir do nível da rua. Essas escavações, em algumas regiões da cidade, atingem o lençol freático. "A qualidade da água fica comprometida e essa alteração provoca a movimentação, embora milimétrica, do solo. Também são eliminadas nascentes", diz.

O engenheiro civil, que é diretor da Hestia Construções e Empreendimentos, também aponta o problema causado pelas bombas instaladas em prédios com garagens subterrâneas, que captam água do subsolo para evitar a umidade na obra. O tempo de funcionamento desse equipamento e a quantidade de água retirada varia conforme a localização do prédio.

Como exemplo ele citou o caso de um imóvel em uma região de extrema umidade. Nesse caso, a bomba fica ligada 12 horas por dia, consome 45 quilowatts de energia no período e retira 60 mil litros de água. O volume é suficiente para atender seis famílias (com quatro pessoas) durante um mês, compara a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar). Mas a água captada no subsolo, segundo Selig, não é aproveitada. Ela é jogada na galeria de água pluvial (da chuva) e vai direto para os rios da cidade.

Eduardo Salamuni, professor do curso de Geologia da Universidade Federal do Paraná e presidente da Minerais do Paraná (Mineropar), explica que é incontestável o impacto das construções subterrâneas no lençol freático. Segundo ele, existe um rebaixamento e isso quebra o equilíbrio natural entre solo e água, ocorrendo uma compactação. Salamuni diz que o ideal seria evitar esse tipo de interferência.

"Prêmio"

Mas o problema está em conciliar legislação, reivindicações dos construtores e a questão ambiental. De acordo com Selig, as empresas não abrem mão de construir as áreas de estacionamento no subsolo porque se fizerem no nível da rua perdem potencial construtivo, ou seja, tem de construir menos andares para obedecer a legislação, o que implica em um número menor de imóveis à venda.

O secretário municipal de Urbanismo, Luiz Fernando Jamur, afirma que a lei que estabelece os parâmetros máximos para cada zoneamento foi atualizada em 2000, depois de um amplo debate com a sociedade. E ela estabelece "prêmios", entre eles o fato de o subsolo não ser computado na hora de determinar o número máximo de andares. Já as garagens a partir do nível da rua são computadas. "Portanto, a lei não obriga a garagem subterrânea e só faz quem quer se beneficiar do prêmio", explica o secretário.

Jamur lembra que existe um pleito das construtoras, desde 2000, para que seja alterada essa condição e que a garagem passe a ser não computável também no térreo. "Isso está sendo discutido dentro da prefeitura, sendo analisado por grupos técnicos, e depois a discussão será levada para a sociedade", completa.

De acordo com ele, existe uma preocupação com o conjunto da paisagem urbana e isso já está sendo avaliado porque de 2000 para cá houve algumas alterações na lei. Hoje, no Centro, setor estrutural e na Linha Verde já é possível construir garagens acima do solo, que não são computáveis. "Todo esse estudo tem um grau expressivo de complexidade, mas pretendemos ter uma posição discutida com as entidades do setor até o fim do ano", afirma Jamur.

Fonte: Gazeta do Povo - PR