Homex vence contratempos e desembarca no Brasil

Texto: Redação AECweb

Grupo mexicano é especializado no segmento popular

10 de agosto de 2009 - Na sala de reuniões batizada de Culiacán, cidade onde nasceu a Homex, Alberto Urquiza, diretor corporativo internacional, e Mario Cavalcante, o primeiro executivo brasileiro contratado pela companhia, falam cuidadosamente sobre os primeiros passos da operação brasileira da maior construtora mexicana.

Listada nas Bolsas do México e de Nova York, a companhia apadrinhada pelo megainvestidor americano Sam Zell - que entrou na Homex antes da abertura de capital e ajudou a concebê-la - tem um zelo quase excessivo com as suas informações. Teme pelo reflexo no comportamento das ações, por adiantar fatos ou números que não sejam conhecidos pelos investidores e, claro, pelo movimento da concorrência.

Considerada modelo de construção industrializada para a baixa renda, a Homex começou a estruturar sua operação no Brasil, silenciosa e discretamente, há dois anos. Foi neste ano, porém, depois de fincar a placa Homex Brasil, vestir operários com o uniforme da empresa e abrir as vendas de casas populares em um colossal terreno de 252 mil metros quadrados em São José dos Campos, que a companhia não conseguiu mais manter o prezado sigilo e o estilo low-profile.

Irá construir 1.360 unidades, das quais 330, das duas primeiras fases, já vendidas. "Partimos de um projeto-piloto, que está sendo muito bem-sucedido", afirma o mexicano Alberto Urquiza, em sua primeira entrevista à imprensa brasileira. O investimento no projeto é de R$ 20 milhões.

Esse longo intervalo de dois anos antes do início efetivo da operação deve-se a um atropelo societário. A chegada ao mercado brasileiro foi mais difícil do que os mexicanos poderiam supor.

A Homex Brasil nasceu de uma parceria entre a Homex mexicana e a brasileira EOM, dos empresários Jacques Khafif e Isaac Jacques Khafif - a primeira dona de 67% do capital da empresa e a EOM, de 33%. Um acordo de acionistas previa um contrato de 30 anos, com cláusula de não-concorrência entre as partes. Os sócios brasileiros - pouco conhecidos no mercado imobiliário - acabaram na Justiça depois de sucessivos desentendimentos com os mexicanos.

A questão foi resolvida no fim do ano passado com um acordo amigável, segundo Urquiza. "Hoje, a Homex mexicana é dona de 100% da Homex brasileira", afirma o diretor corporativo internacional. "Não temos mais nenhuma sociedade e estamos começando sozinhos no mercado brasileiro", diz.

A primeira tentativa da Homex de entrar no mercado brasileiro foi ainda antes, por meio da aquisição da Goldfarb, empresa especializada em construções econômicas, mas a compra não prosseguiu e a empresa acabou sendo adquirida pela PDG Realty.

Nesse recomeço, a Homex conta com um empurrão providencial do programa habitacional do governo. E da Caixa Econômica Federal. Em pouco tempo, conseguiu o Geric (Gerência de Risco de Crédito), uma espécie de rating da CEF. Sem ele, não é possível obter financiamento para os clientes e, portanto, a Homex não poderia oferecer aos compradores os subsídios do Minha Casa, Minha Vida. Chega ao mercado com casas que custam em média R$ 80 mil. No México, seu preço médio é de R$ 50 mil.

Com meio andar em um edifício relativamente simples de um endereço caro de São Paulo, a avenida Faria Lima, um grupo de 45 profissionais trabalha em um espaço bastante aberto, com poucas salas. Em todas as paredes, a insistente presença de coloridos quadros com palavras de motivação, as missões e os valores da empresa.

Além da área administrativa, há mais 25 pessoas no escritório que abriu em São José dos Campos e outros 150 que trabalham no canteiro de obras - incluindo engenheiros, mestre de obras e pedreiros. "Todos os engenheiros são brasileiros, mas passaram por um treinamento de três meses no México", afirma Cavalcante, que antes de entrar na Homex trabalhou por 12 anos na Goldfarb.

Aliás, boa parte do nível executivo veio da concorrência, como Tenda, Cyrela e Gafisa. Também foram buscar profissionais em multinacionais como Unilever e Wal-Mart. Embora com a presença de Urquiza no Brasil, o espanhol seja ouvido com frequência nos corredores, apenas a presidente da companhia no Brasil, Erica Taboada, é mexicana. "Quisemos buscar o expertise local", diz Urquiza.

O modelo mexicano de baixa renda é referência para construções populares no mundo inteiro. No México, as principais concorrentes da Homex são a Urbi, Geo e Ara. Muitas empresas brasileiras que estão estudando ou já adotam o modelo de construções rápidas estiveram no México para aprender mais sobre o sistema.

A Homex usa o método construtivo de formas de alumínio preenchidas com concreto e é quem mais rápido constrói: monta uma casa completa em apenas sete dias.

A Homex traz ao Brasil um modelo totalmente verticalizado. Todo o processo é feito dentro de casa, da compra do terreno, à construção e venda dos imóveis. No México, até o concreto é produzido pela companhia. "Não acreditamos no modelo brasileiro de terceirizar a construção e a venda", afirma Urquiza. "Também não fazemos publicidade, preferimos investir nos nossos vendedores, que abordam os clientes nas ruas", acrescenta.

O modelo da Homex não é diferente apenas no Brasil. No México, a companhia de apenas dez anos de vida e a última a abrir capital, causou um alvoroço na concorrência quando desembarcou no mercado com propostas consideradas ousadas. "A Homex tem um estilo próprio de atuar desde o começo", diz Vanessa Quiroga, analista do Credit Suisse no México. "Com o passar do tempo, porém, a empresa mostrou bons resultados."

A Homex está fazendo expansão internacional. Além de operar no Brasil, busca um sócio na Índia. Entre as quatro principais do setor no seu país, foi a única a comprar outra empresa - a construtora Beta em 2005 - e opera com o menor estoque de terreno.

"Enquanto as outras empresas tem até sete anos de produção futura, a Homex trabalha com três a quatro anos, o que garante um melhor uso do caixa", diz a analista do Credit Suisse. No Brasil, segundo Cavalcante, ainda não comprou novos terrenos, mas está estudando oportunidades em mais de 60 cidades com mais de 300 mil habitantes.

A construtora mexicana aposta no modelo de gestão e gerenciamento de construção que adota no México. "Tecnologia todo mundo tem, mas temos controle do processo de informação, como o andamento da construção, gasto e vendas de cada uma de nossas obras", afirma Urquiza.

A concorrência brasileira reconhece o know-how lá fora, mas avalia que a transferência de conhecimento de um país para outro no mercado de construção não seja algo simples. "Conhecer o mercado brasileiro a fundo, aspectos regionais e peculiaridades, é fundamental", afirma o executivo de uma empresa nacional.

Fonte: Valor Econômico - SP