Infraestrutura brasileira precisa de melhorias

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Empresas têm custo extra para compensar falhas no sistema de logística, dizem especialistas. Com isso, produtos brasileiros encarecem e ficam menos competitivos no exterior

15 de outubro de 2012 - Frequentemente apontada como um dos principais gargalos da competitividade do país, a infraestrutura brasileira costuma fazer fiasco nas comparações internacionais. No ranking deste ano do Fórum Econômico Mundial, por exemplo, o país ficou em 109º lugar em qualidade do transporte, entre 132 países avaliados. Essa fama, que certamente não combina com as perspectivas de um candidato a potência mundial, já ganhou o mundo.

No fim de agosto, o jornal britânico “Financial Times” apresentou uma extensa reportagem sobre as condições de infraestrutura do país que sediará a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 — e o retrato traçado não foi nada lisonjeiro.

O jornal afirmou que o Brasil passou anos surfando confortavelmente na valorização das commodities agrícolas e minerais e agora se deu conta de que a falta de investimentos em transportes, saneamento, telecomunicações e energia está travando seu crescimento econômico. Uma das fontes ouvidas, diretor de um banco com sede na Inglaterra, afirmou que, sempre que conversa com investidores sobre o Brasil, o primeiro problema que vem à tona são justamente os entraves da infraestrutura.

O Fórum Econômico Mundial retratou essa preocupação ao ouvir empresários do mundo inteiro sobre as principais dificuldades para exportar. Entre os brasileiros, 21,2% mencionaram o alto custo ou os atrasos causados pelo transporte doméstico. O item ficou disparado em primeiro lugar, entre dez respostas possíveis, e alcançou o maior percentual entre todos os 132 países incluídos na pesquisa.

Já em nações como Canadá, Estados Unidos e China, a principal preocupação manifestada foi identificar novos compradores e mercados em potencial, enquanto os entraves do transporte doméstico ficaram, respectivamente, com 3,5%, 9,3% e 9,4% das citações. Na França e na Alemanha, lidar com corrupção e procedimentos complexos nas fronteiras foi o item mais votado, com transporte doméstico sendo citado, respectivamente, por 6,7% e 4,6% dos entrevistados.

— As empresas brasileiras certamente precisam dedicar um esforço muito maior e gastar mais dinheiro que seus concorrentes globais para enfrentar as questões logísticas — diz o presidente da Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy.

A Abdib analisou as estatísticas, fez as devidas atualizações monetárias e concluiu que os investimentos em infraestrutura até vêm crescendo no Brasil, mas em ritmo abaixo do necessário para que o país dê o salto esperado no prazo mais curto possível. Pelas contas da entidade, os investimentos totais na área — públicos e privados — chegaram a R$ 173,2 bilhões em 2011, crescimento de quase 100% em relação aos R$ 90,2 bilhões de cinco anos antes. O percentual do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) aplicado também subiu no período, de 3,2% para 4,2%. Para a Abdib, o pulo do gato será dar mais espaço aos investimentos privados, que, no período entre 2003 e 2011, corresponderam a não mais que 40% do total.

O governo federal deu um passo importante nesse sentido em agosto, ao anunciar um programa de concessões de rodovias e ferrovias — que, se for rigorosamente cumprido, resultará em investimentos de R$ 133 bilhões nos próximos 30 anos, sendo R$ 79,5 bilhões nos primeiros cinco anos.

— As rodovias e ferrovias que anunciamos hoje são muito atraentes para os investidores — afirmou a presidente Dilma Rousseff ao lançar o pacote. — Meu governo reconhece que as parcerias com o setor privado são essenciais para a aceleração do crescimento, pois precisamos saldar uma dívida de décadas de atrasos com os transportes — acrescentou, prometendo medidas semelhantes para aeroportos.

Um dos objetivos do pacote é manter o aquecimento do setor de construção civil, que se tornou um grande gerador de emprego no país, com 180 mil postos de trabalho criados no período entre julho de 2011 e julho de 2012. Metade desses empregos veio justamente das obras de infraestrutura, impulsionadas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e os projetos relacionados à Copa de 2014 — oportunidades de trabalho que se multiplicarão com o pacote de concessões, cujas obras deverão começar já no ano que vem. Um dos desafios, nesse meio tempo, é amadurecer as práticas de gestão de projetos no país e encontrar gestores preparados para a missão.

— A dificuldade para lidar com previsão de custos em grandes projetos é mundial, mas os brasileiros são especialmente imprecisos nesse ponto e estão sujeitos a uma série de fatores de risco, desde os sociais e ambientais até a insegurança jurídica, em alguns casos — diz Luís César Menezes, coordenador do curso de MBA em gestão de projetos da escola de negócios HSM.

Mais planejamento e segurança jurídica

Para acelerar o crescimento econômico e ampliar a presença dos produtos brasileiros no mercado global, o país precisa ampliar esforços em questões como planejamento, gestão, tributação e segurança jurídica aos investidores.

— Precisamos aumentar a capacidade nacional de elaborar bons projetos, modernizar os marcos legais e regulatórios, assegurar gestão profissional nas agências reguladoras, e melhorar o desempenho da gestão pública das obras e das análises ambientais — afirma José Mascarenhas, presidente do Conselho de Infraestrutura da CNI.

Para ele, a falta de investimentos na infraestrutura nacional afeta o crescimento e o perfil industrial, sobretudo quando se fala em competitividade:

— No caso dos transportes, em particular, ao que assistimos é um aumento de custos, das incertezas, e uma redução da taxa de retorno dos investimentos produtivos.

Para a CNI, a competitividade está ligada ao nível de investimentos em infraestrutura, mas não é só isso. O Brasil investe cerca de R$ 81 bilhões por ano, em média, nesse item, algo como 2,1% do PIB, quando deveria investir no mínimo 5%. A China, hoje o motor da economia mundial, aplica 7,3% do seu PIB.

— A qualidade da infraestrutura do transporte tem afetado o desempenho do comércio exterior brasileiro, inclusive por não acompanhar o contínuo aumento da demanda — acrescenta Mascarenhas.

Paulo Godoy, da Abdib, alerta que para o êxito de um trabalho entre governo e setor privado nas chamadas Parcerias Público-Privadas (PPPs), a fim de garantir uma melhor competitividade ao Brasil, será preciso mais segurança jurídica aos empreendedores, com regulações claras e estáveis, além de uma rentabilidade adequada aos projetos. Ele lembra que o Palácio do Planalto lançou o programa de concessões e PPPs para novos projetos de ferrovias e rodovias, mas ainda falta um programa similar e ousado para os portos e aeroportos.

Em 2008, a CNI fez um levantamento dos principais problemas que afetavam a competitividade dos produtos brasileiros em comparação a seus concorrentes. De dez itens listados, quatro ainda permanecem sem solução: custos altos de portos e aeroportos; preço salgado do frete internacional; custo elevado do transporte interno; a armazenagem e o manuseio de cargas nas áreas portuárias.

Para o economista Gesner Oliveira, da GO Associados, um ponto importante na competitividade se refere à desoneração tributária para se investir. Ele cita como exemplo a Sabesp, empresa estadual paulista, que em 2009 pagou em tributos o equivalente a R$ 1,26 bilhão, contra investimentos naquele ano de R$ 1,8 bilhão:

— É um descompasso, precisamos desonerar o investimento produtivo, promover as PPPs e conceber novos mecanismos de financiamento para a infraestrutura, se quisermos melhorar nossa performance.

Fonte: O Globo