Investimentos em inovação crescem na construção civil

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Tendência é que a construção torne-se um processo de montagem, como no setor automotivo

22 de maio de 2013 - Novas técnicas, novos processos e novos equipamentos estão transformando os canteiros de obras de todos os portes que se espalham pelo país. O tradicional assentamento tijolo por tijolo está com os dias contados. Escassez e encarecimento da mão de obra e necessidade de produção em maior escala levaram as construtoras a industrializar as construções, em um movimento que vem se acentuando nos últimos dois anos.

A tendência é que a construção, especialmente a imobiliária, torne-se um processo de montagem, como no setor automotivo. Estruturas e paredes pré-fabricadas, fachadas pré-moldadas, "steel framing" (estruturas de perfis leves de aço), painéis de vedação e banheiros prontos de fábrica diminuem o tempo de obra, a necessidade de funcionários, os custos do empreendimento e os detritos produzidos, aumentando a produtividade e competitividade.

Aos poucos, a construção civil brasileira passa a aplicar soluções já utilizadas há muito tempo na Europa e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que desenvolve propostas próprias para questões locais. As chamadas obras secas, com grande utilização de material pré-fabricado, vêm sendo cada vez mais adotadas. "A construção está evoluindo das colunas e lajes moldadas in loco com fechamento em alvenaria, para vigas pré-fabricadas de concreto, fechamentos internos com "drywall" (paredes feitas com chapas de gesso aparafusadas em estruturas de perfis de aço) ou prédios em aço", diz Mario Humberto Marques, vice-presidente da Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema). Segundo ele, 60% a 70% das construções ainda seguem métodos tradicionais, mas a expectativa é de que esse percentual se inverta até 2020.

Os equipamentos também já não mais os mesmos. As obras usam cada vez miniescavadeiras, minicarregadeiras e "skid steers" (espécie de minicarregadeiras mais versáteis). São máquinas adaptadas do setor industrial, que proporcionam maior rapidez e segurança no trabalho. Também foram introduzidas plataformas elevatórias, que comportam duas a quatro pessoas e atingem grandes alturas, manipuladores telescópicos, para levar para cima os produtos industrializados, e elevadores de cremalheiras, para movimentar cargas e pessoas. As "drywalls", por exemplo, chegam ao canteiro em pallets e são transportadas dessa forma para os andares em construção.

"Com o custo alto da mão de obra e necessidade de gastos com qualificação, as empresas perceberam que o preço da máquina começou a ser interessante", diz Luís Fernando Mello, assessor econômico da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). A adoção do ritmo industrial também foi influenciada pelo aumento da escala de produção. Quem faz casas para baixa renda, por exemplo, de repente se viu diante de um programa como o Minha Casa Minha Vida, para construção de 1 milhão de moradias em quatro anos, volume ampliado para mais 2 milhões, a partir de 2011. "Para se estabelecer em um novo patamar de produção a construção precisou mudar de patamar tecnológico", diz o economista.

"A construção civil é muito inovadora e criativa", diz Lilian Laraia, diretora da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas, consultoria especializada em gestão da inovação. Segundo ela, muitas obras de infraestrutura usam tecnologias inéditas, como a técnica de barreira de bolhas, empregada pela Andrade Gutierrez na ampliação do porto de Imbituba (SC), entre 2009 e 2011, para reduzir a vibração e barulho provocados pela cravação de estacas, que atrapalhavam a reprodução e amamentação de baleias-francas na área.

A gestão do canteiro de obras também mudou. Exemplo disso é a metodologia desenvolvida pela consultoria Akkari & Costa Gerenciamento em Engenharia, inspirada no sistema Toyota de produção, que prevê otimização dos processos e utilização de materiais. Criado em 2010, no auge do boom imobiliário, o método reduziu consideravelmente o atraso na entrega dos empreendimentos - dos quatro meses aos seis meses, que predominavam no mercado, para 23 dias nas construções assessoradas pela empresa. "Criamos uma diretriz com forte planejamento e compromisso com custos e prazos. O "just in time" é um recurso para prover recursos para a obra no tempo certo", diz Abla Akkari, doutora em engenharia pela Universidade de São Paulo (USP) e sócia da consultoria.

As inovações na construção ligam-se ainda à sustentabilidade, principalmente em prédios corporativos. "O cliente corporativo quer que o espaço ocupado converse com os princípios da sua empresa", diz Geórgia Grace Bernardes, assessora técnica da CBIC. As inovações sustentáveis vão de vidros mais eficientes em desempenho térmico, que bloqueiam a radiação solar, mas não a luz, mudanças no uso de água em torneiras e pias, utilização de água da chuva e aquecimento solar a sensores de presença para iluminação e ar-condicionado.

De acordo com Paulo Simão, presidente da CBIC, o emprego de inovações desse tipo ganhará mais impulso com a nova norma para construção, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que entra em vigor em julho. "Como teremos de construir dentro de novos parâmetros, para atender o usuário com mais qualidade, em edificações mais eficientes no consumo de água e energia, por exemplo, teremos de buscar elementos novos", explica. A NBR 15.575 torna obrigatórias medidas mínimas de qualidade e durabilidade em toda a obra, dos sistemas estruturais até piso, cobertura e estrutura hidrossanitária.

A maior utilização do aço na construção atende também ao apelo da sustentabilidade. O material, que pode ser aplicado nas fundações, pilares, vigas, estruturas para cobertura e componentes para fechamento e vedação de edificações, é 100% reciclável. Nas "construções secas", estão sendo cada vez mais utilizadas as "steel framings". "A participação do aço na construção civil vem aumentando nos últimos anos. O setor é o maior consumidor de aço, com participação acima de 35%", diz Fernando Matos, presidente do Centro Brasileiro da Construção em Aço (CBCA).

O mesmo acontece com estruturas pré-fabricadas de concreto, cuja demanda cresce ao ritmo de 15% ao ano, desde 2007, segundo Íria Doniak, presidente executiva da Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto (ABCIC). "Todos buscam os principais benefícios da industrialização, que são menor tempo de construção e maior qualidade final da obra."

Fonte: Valor Econômico