Entenda a situação da cratera que ameaça Maceió

Texto: Vinícius Veloso

Caverna subterrânea para exploração do sal-gema tem colapso iminente e pode causar cratera de até 150 metros de raio em Maceió

Rua de Maceió com rachaduras causadas pelo colapso de mina da Braskem(Foto: Reprodução / UFAL)

01/12/2023 | 12:20 — De acordo com a Defesa Civil de Maceió, a qualquer momento uma cratera pode engolir até cinco bairros da capital alagoana, localizados às margens da lagoa Mundaú. A situação, que já era monitorada pelo poder público, se tornou ainda mais crítica na manhã desta sexta-feira (01), quando o solo passou a afundar cinco centímetros por hora. Para João Henrique Caldas, prefeito da cidade, o colapso iminente é a “maior tragédia urbana no mundo, em curso”.

O incidente fez com que cerca de 60 mil pessoas tivessem que abandonar as suas casas, incluindo a evacuação de um hospital no bairro de Pinheiro — que na última quarta-feira (29) transferiu todos os seus pacientes para outras unidades de saúde. Já em Mutange, região com os maiores riscos, muitas casas tiveram as suas portas e janelas fechadas com cimento e tijolo. Totalmente abandonada, a área que agora parece um bairro fantasma se prepara para o pior.

O cenário fez com que a Prefeitura de Maceió decretasse situação de emergência, que deve perdurar pelos próximos seis meses. Já o Governo de Alagoas criou um gabinete de crise para acompanhar e tentar reduzir os riscos. Além da evacuação das áreas afetadas, está proibida a navegação no mar próximo da região — o que impede o trabalho de cerca de mil pescadores.

O que pode causar a cratera em Maceió?

A cratera em Maceió pode ser causada pelo desmoronamento de uma das minas da Braskem localizadas no subsolo da cidade. Com cerca de 890 metros de profundidade, as cavernas subterrâneas têm 70 de altura por 50 metros de largura e são usadas para extração do sal-gema — matéria-prima empregada na fabricação de produtos como a soda cáustica e o PVC.

No total, são 35 minas desse tipo e a que está próxima de ruir é a de número 18. Porém, o colapso tem potencial de provocar um efeito em cadeia e causar o desmoronamento de outras cavernas. Segundo o coronel Moises Melo, coordenador da Defesa Civil de Alagoas, a cratera tem raio estimado de 32 metros (com a possibilidade de atingir até cinco vezes essa projeção).

A situação também deve provocar danos ambientais, pois a movimentação de terra fará com que a água da lagoa escorra para dentro da cratera e crie um lago que terá profundidade variando entre oito e 10 metros. Na projeção da Defesa Civil, a nova lagoa com água salgada vai afetar toda a área de mangue e provocar impactos negativos de maneira bastante trágica.

Histórico que levou até a situação atual em Maceió

A extração do sal-gema em Maceió não é uma novidade. A atividade remonta a década de 1970 e tem a aprovação das autoridades públicas. Os primeiros sinais de que algo estava errado vieram em fevereiro de 2018, quando muitas rachaduras surgiram no bairro do Pinheiro após fortes chuvas. Na ocasião, o afundamento do solo atingiu uma área de três quarteirões e a Defesa Civil contatou um geólogo para analisar a situação e produzir laudo sobre o ocorrido.

Uma das rachaduras de 2018 chegou a atingir 280 metros de extensão, mas foi um incidente no mês seguinte que mostrou que o cenário era ainda mais grave do que se imaginava. Em março, um tremor com magnitude de 2,5 graus na escala Richter sacudiu alguns bairros de Maceió, causando estragos no asfalto e provocando o surgimento de rachaduras em imóveis.

A confirmação de que ambos os problemas tinham a mesma raiz veio um ano depois, quando o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) — órgão ligado ao Governo Federal — divulgou relatório que relacionava as rachaduras com a atividade de extração do sal-gema. Na audiência pública em que o documento foi apresentado, em maio de 2018, Thales Queiroz Sampaio, assessor de Hidrologia e Gestão Territorial do CPRM, falou sobre as conclusões da instituição sobre o tema.

“Entendemos que existem estruturas geológicas importantes em áreas da mineração da Braskem em uma série de cavidades construídas exatamente na intersecção das estruturas e isso não deixou que a caverna ficasse íntegra, desestabilizou a caverna e causou o que estamos vendo no Pinheiro, a ruptura", disse Queiroz em evento na sede da Justiça Federal em Alagoas.

O relatório apresentado pelo CPRM indicou que a exploração inadequada do sal-gema desestabilizou as cavernas subterrâneas e causou o afundamento do solo. Tais conclusões foram baseadas em diferentes métodos científicos e análises subterrâneas, que permitiram aos pesquisadores constatar um deslocamento da superfície que era compatível com a deformação das rochas das camadas geológicas vistas na região de poços de extração da matéria-prima.

Um mês depois, em junho de 2019, a Defesa Civil elaborou um mapa de risco e começou a emitir as ordens de evacuação. Desde então, já foram mais de 14 mil imóveis desocupados.

No mês de novembro daquele ano, a Braskem anunciou que fecharia os seus poços para extração de sal-gema em Maceió. Na época, a empresa apresentou para as autoridades, incluindo a Agência Nacional de Mineração (ANM), uma série de medidas com o objetivo de encerrar a atividade definitivamente. As ações foram baseadas em estudos realizados pelo Instituto de Geomecânica de Leipzig (IFG), que utilizou sonares para analisar a região afetada.

Entretanto, a situação já estava crítica e em novembro deste ano ao menos cinco novos tremores foram sentidos. O coordenador geral da Defesa Civil, Abelardo Nobre, explicou o que acontecerá com o colapso da mina. "Se o teto dela desabar, essa cavidade chega até a superfície. E se ela chegar dentro da lagoa, teremos consequências mais preocupantes, como um aumento de salinização dessa água que vai impactar toda a área de mangue", alertou o funcionário público, indicando que não existe tecnologia capaz de mitigar essa situação.

Os tremores de novembro serviram como alerta final para que os bairros fossem evacuados e para que o trânsito na região fosse completamente interrompido. “Estudos mostram que há risco iminente de colapso em uma das minas monitoradas. Por precaução e cuidado com as pessoas, reforçamos, mais uma vez, a recomendação de que embarcações e a população evitem transitar na região até nova atualização do órgão”, alertou a Prefeitura no último dia 29.

Já a Braskem, por meio de nota, informou que o cenário está se intensificando e que todas as medidas cabíveis estão sendo tomadas visando diminuir o impacto. A empresa também reforça que segue compartilhando com as autoridades os dados de monitoramento em tempo real.