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Mão de obra é 40% do custo e torna-se problema

Texto: Redação AECweb

Com escassez de profissionais qualificados no Estado do Ceará, construtoras adotam a capacitação como estratégia

21 de julho de 2011 - A mão de obra qualificada tem se tornado um gargalo recorrente em diversos setores do Ceará nos últimos anos, principalmente, depois dos grandes empreendimentos que por aqui aportaram. Chegando a corresponder a 40% dos custos de construtoras, como foi revelado pela Bairro Novo, muitas empresas recorrem às criticadas importações de profissionais de outras regiões por não encontrar pessoal qualificado no Estado para sanar a deficiência local no quadro de operários.

No entanto, a construção civil também é um dos setores que mais demanda serviços no Brasil e esta carência fez empresários cearenses passarem a capacitar pessoas como estratégia para mudar o cenário atual.

Representante da Odebrecht Realizações Imobiliárias no setor que trabalha exclusivamente com a faixa entre três e cinco salários mínimos - público alvo do Minha Casa, Minha Vida (MCVC)-, a construtora e incorporadora Bairro Novo enfrentou a dificuldade logo que chegou ao Ceará, há cerca de três anos. A solução encontrada pelos diretores foi capacitar pessoas para a construção do seu empreendimento no Estado, o Parque dos Pássaros.

"A mão de obra torna-se cada vez mais um gargalo para o setor, por isso resolvemos aplicar essa metodologia", revelou o gerente de operações da empresa, Hugo Montenegro.

Ele contou também que o pessoal recrutado é todo do bairro Ancuri, em Fortaleza, onde está localizada a área de 848 mil metros quadrados usada para a construção das casas e apartamentos dos condomínios fechados. Ao todo, 50% da mão de obra usada no empreendimento residiam nos entornos do Ancuri. E das 120 pessoas treinadas, 80 foram incorporadas ao quadro de funcionários da empresa para o empreendimento.

"Gente que tinha conhecimento zero, hoje, faz parte da Bairro Novo", enfatiza lembrando que já foram entregues dois condomínios do Parque dos Pássaros (o Parque das Margaridas e o Parque das Rosas) num total de 370 unidades somente na Capital. Ainda estão previstos outros para cada uma das 12 quadras restantes do terreno. Ou seja, o número de treinamentos e contratações poderá aumentar. Para agosto deste ano, a Bairro Novo já anunciou o lançamento do Parque das Orquídeas e outro será entregue até o fim do ano, segundo o diretor de operações.

Atrai e retém pessoal

Outra construtora a desenvolver o mesmo tipo de programa é a BSPar, que atua no mercado há três anos e onde o programa de treinamento acontece desde 2010. Segundo o diretor técnico da empresa, Alfredo Cruz, no quadro atual de operários, cerca de 20% são originários do programa de capacitação de pessoal desenvolvido lá.

"Se você dá oportunidade de o funcionário crescer profissionalmente, você cria uma política de captação e retenção de operários no trabalho", argumentou Cruz ressaltando que isto tem diminuído a rotatividade de pessoas nas obras.

O diretor ainda garante que o conhecimento repassado aumenta a qualidade de serviço do operariado, o que, consequentemente, eleva a qualidade dos produtos construídos pela empresa. Ele ainda ressalta a mudança no ambiente de trabalho, o qual, com o treinamento, passa a ser mais receptivo aos funcionários, "que crescerão profissional e pessoalmente".

Na realização dos cursos mais operacionais (servente, pedreiro, carpinteiro, eletricistas, etc.), Cruz conta que a BSPar fez parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial no Ceará (Senai-CE). Já no programa de trainee para engenheiros, a empresa realiza só.

Treinamento


Sinduscon também vai ao canteiro

Cursos oferecidos pelo sindicato capacitam para as funções de pedreiro, eletricista predial e instalação hidráulica

Atuando para que a oferta de mão de obra demandada pela construção civil passe a ser maior, o Sindicato das Indústrias de Construção Civil do Estado do Ceará (Sinduscon-CE) também facilita treinamentos. Em parceria com o Senai-CE, a entidade representativa do setor faz o contato com as construtoras cearenses e realiza o treinamento teórico e prático no próprio canteiro de obras.

"A gente sentiu essa necessidade e viu que outros estados do Brasil também estavam passando pela mesma dificuldade, aí resolvemos atuar nesta linha", contou a vice-presidente de sustentabilidade do Sinduscon-CE, Paula Frota.

Afirmando não ter como estimar o custo médio com a mão de obra da construção "por depender muito do porte da empresa e do tipo de empreendimento com que ela trabalha", Paula informou que a duração dos cursos é, em média, de 60h e já ocorreram duas turmas para pedreiro, uma para eletricista predial e outra para instalação hidráulica só em 2011.

Importância profissional

"Isso é bom por que muitos dos profissionais já estavam no mercado, mas não tinham como comprovar o conhecimento da área. Agora, eles terão certificado para isso", ressalta lembrando também dos benefícios para as construtoras, as quais terão atenuada a busca por pessoal.

A vice-presidente de sustentabilidade do Sinduscon-CE ainda informou de quatro novas turmas para pedreiro voltadas exclusivamente para o público feminino, nas quais serão capacitadas mulheres das comunidades da Rosalina e Maria Tomásia, em Fortaleza.

Segundo Paula, desta vez, a parceria foi fechada com a Fundação de Desenvolvimento Habitacional da prefeitura, a Habitafor, e todas as recrutadas para o curso irão trabalhar nas obras de revitalização das regiões onde moram.

Para o trabalhador

Melhorias na obra e na vida pessoal

Vários são os exemplos de operários do setor que tiveram determinação e conseguiram ascender

Mais que uma elevação no padrão das obras nas quais trabalham, a qualificação profissional ofertada aos operários nos programas de captação e treinamento de pessoal acarreta também em uma melhoria na vida particular deles. Foi o que contou Francisco Antônio do Nascimento, 37, que há 16 anos trabalhava na construção civil e ainda não tinha podido sair da função de servente. Ele foi um dos funcionários da construtora Santo Amaro que passou pela capacitação para pedreiro.

"Já sabia trabalhar, fazia uns ´bicos´ por aí, mas agora tenho como comprovar o que faço", disse valorizando o ofício novo, enquanto ainda espera os seis meses de experiência para poder, enfim, passar a função de pedreiro e ganhar cerca de R$ 300 a mais de salário. Igual a Francisco, Idael do Vale Lima, 35, também aguarda este tempo para poder investir o dinheiro nos três filhos. "E estou trabalhando mais para me aperfeiçoar e cada vez mais pode me engajar em qualquer local de trabalho", ressalta.

Qualidade atestada

Mestre de obras da Santo Amaro, Damião Vital da Silva, 58, confirma o aumento na qualidade do trabalho por ele supervisionado. De acordo com ele, o pessoal selecionado para os cursos já eram conhecidos, assim como o trabalho feito por eles.

"Agora, mais do que antes, eles estão conscientes do que estão fazendo e nosso preparo de qualidade é exatamente isso: saber fazer o que está executando", garante lembrando, também, a falta de mão de obra sentida no setor nos últimos anos. "E eu só tenho equipe por que tenho muito tempo de serviço e o pessoal me conhece", afirma contando que os 55 operários que trabalham com ele atualmente, 15 foram "treinados do zero". Tendo começado o programa de capacitação de profissionais em 2011, a Santo Amaro já promoveu, em parceria com o Sinduscon e o Senai, dois cursos e mais outros dois estão sendo planejados até o fim do ano.

Na chefia

Já tendo trabalhado no setor em construtoras cearenses, o encarregado das instalações hidráulicas Sebastião Rodrigues, 49, chegou à chefia após participar do programa de treinamento da construtora Bairro Novo. "Consegui comprar uma moto, colocar o filho em uma escola profissionalizante", conta ele sem esquecer o foco profissional: "A gente que é encarregado não pode esquecer de se capacitar frequentemente". Mesmo com experiência na construção, qualquer um dos novos operários da empresa tem de fazer um treinamento, pois no canteiro de obras o método construtivo é diferente do convencional, no qual o prazo e a velocidade da obra é bem menor. Para o paraibano Rafael Souza, 30, a proposta de vir trabalhar no Ceará foi o diferencial para sair da função de auxiliar de topógrafo para encarregado de acabamento. "Melhorou 100% o salário. A meta agora é fazer edificações". Só em 2011, os dois já fizeram dois cursos com foco em liderança e gestão.

Fonte: Diário do Nordeste - CE

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