Minha Casa, Minha Vida: receita extra para a indústria

Texto: Redação AECweb

A indústria de materiais de construção projeta lucros extras com o programa de moradias econômicas do governo federal

28 de setembro de 2009  - Em dois anos, a indústria de materiais de construção deverá faturar de R$ 18 bilhões a R$ 19 bilhões extras em conseqüência do programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, que promete erguer um milhão de novas moradias no País até 2011.

O grande impacto no faturamento dos fabricantes não se dará este ano, já que as obras mal começaram, mas em 2010 e 2011, quando as vendas deverão crescer entre 9% e 10% em relação a 2008.

"O Minha Casa, Minha Vida terá peso acentuado, mas não vai interferir na evolução do mercado", diz Melvyn Fox, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat): "Será uma receita extra".

Este ano, estima o empresário, as vendas do segmento devem se igualar às atipicamente altas de 2008, quando ultrapassou R$ 100 bilhões (16,7% mais que em 2007), o que ele considera um resultado excelente.

Para Fox, o programa de habitação econômica do governo poderá trazer mudanças "radicais" para a construção civil como um todo, caso tenha continuidade: uma vez que está atraindo as incorporadoras, pois boa parte das vendas está assegurada por subsídios, o Minha Casa, Minha Vida deverá contribuir para aumentar o nível de formalização no setor.

A informalidade é um dos problemas mais sérios da construção civil. Embora não exista consenso sobre o tamanho de sua fatia dos negócios, esta pode chegar a 60%, índice apurado em 2006 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV Projetos).

Para Eduardo Zaidan, diretor de economia do Sinduscon-SP, no entanto, a informalidade, que, segundo ele, cresceu na década de 1990, não chega a tanto. Seria mais baixa em São Paulo, por exemplo, do que no Nordeste, e teria declinado com o crescimento econômico recente, embora continue elevada: "É impossível avaliar esse índice".

A informalidade se reflete no perfil do consumo de materiais de construção, do qual se estima que em torno de 70% são comercializados no varejo. Isso porque dificilmente o brasileiro recorre a empresas para fazer reformas e ampliações ou mesmo construir uma nova edificação, segundo Fox.

Essa proporção de vendas no varejo assemelha-se à verificada nos demais países em desenvolvimento e difere das encontradas nas economias ricas, em que é maior a participação da indústria da construção nas obras de modo geral.

A proporção, no entanto, tende a começar a se inverter. Juntamente com as obras do Minha Casa, Minha Vida, o mercado formal poderá ser estimulado por meio da Norma de Desempenho para Edifícios Habitacionais de até cinco pavimentos, que entra em vigor em maio de 2010.

Criada pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) com a participação de mais de cem agentes do setor de construção civil, a Norma estabelece critérios e métodos de avaliação do desempenho de sistemas construtivos como estrutura, pisos internos, vedações internas e externas, coberturas e instalações hidrossanitárias para garantir determinados índices de conforto acústico, térmico e de vida útil do imóvel.

"As construtoras têm de adquirir materiais normatizados, que devem ser aplicados também segundo as normas. E tudo fica documentado", diz Maurício Bianchi, vice-presidente do Sinduscon-SP. "Esperamos que a Caixa seja bem rigorosa e não abra mão da conformidade técnica dos novos projetos", acrescenta Fox.

Uma vez cumprida a Norma da ABNT, a tendência é de as vendas se qualificarem e a comercialização de produtos de valor agregado mais alto aumentar, impulsionando o faturamento da indústria e do varejo de materiais de construção.

Mas a Norma só será aplicada de forma integral se o emprego dos materiais também seguir seus parâmetros. Nesse ponto, porém, existe um gargalo: "A indústria investe muito em tecnologia, mas é preciso mão-de-obra qualificada para empregá-la", diz Fox.

"Infelizmente, isso não é possível nas obras autogeridas. Ao mesmo tempo, as profissões ligadas à construção civil ainda não têm seu valor reconhecido".

Segundo o empresário, o setor está decidido a enfrentar esse problema. Uma das iniciativas em andamento, já em discussão com o governo federal, por meio do Ministério das Cidades, é instituir certificação para os trabalhadores do ramo.

Fonte: Diário do Comércio - SP