Reforma do Maracanã já supera o tempo de construção

Texto: Redação AECweb/e-Construmarket

Fechamento do palco esportivo mais famoso do mundo para obras completou dois anos, quatro meses e 26 dias

05 de fevereiro de 2013 - Mesmo com todos os recursos de engenharia disponíveis no século XXI, a reforma do Maracanã para a Copa do Mundo já encontra eco no passado. Prevista inicialmente para terminar em dezembro de 2012, depois adiada para fevereiro e, por fim, estendida até o prazo máximo de abril, a remodelação do templo sagrado do futebol brasileiro terá duração maior que a própria construção do estádio, erguido no fim da década de 1940. Ontem, o fechamento do palco esportivo mais famoso do mundo para obras completou dois anos, quatro meses e 26 dias, o mesmo período necessário para tirá-lo do zero e entregá-lo em condições de receber o Mundial de 1950.

A pedra fundamental da construção do Maracanã foi lançada em 20 de janeiro de 1948, e, após menos de dois anos e meio de trabalho, no dia 16 de junho de 1950, as seleções do Rio e de São Paulo disputaram o jogo de abertura do então maior estádio do mundo. Seis décadas depois, novamente motivado pela realização de uma Copa no Brasil, o Maracanã parou para sofrer uma transformação quase completa — com cobertura e arquibancadas totalmente diferentes do original, sobrarão apenas a fachada e as rampas monumentais para reacender nos cariocas a lembrança do antigo Maraca.

Embora a retirada das cadeiras inferiores tenha começado em agosto de 2010, o Maracanã só foi fechado para reforma no dia 8 de setembro, quase dois anos e cinco meses atrás. A entrega do palco das finais da Copa das Confederações-2013 e da Copa do Mundo-2014 não pode passar de 15 de abril, como exige a Fifa. Cumprido este prazo, o gigante de concreto terá levado nada menos que dois anos, setes meses e uma semana para ser devolvido aos cariocas.

- O Maracanã não está sendo reformado, e, sim, totalmente reconstruído. E, num caso desses, você pode ter consequências que o obriguem a levar mais tempo que o previsto para demolir e depois construir. Ainda assim, não é aceitável que você precise de mais do que dois anos para reformá-lo. É lamentável que a reforma tenha demorado mais tempo que a construção - avalia Jaques Sherique, diretor do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro.

Ex-presidente e atualmente conselheiro do Clube de Engenharia, Manoel Lapa acredita que problemas estruturais encontrados pelo consórcio responsável pela reforma do Maracanã podem ter contribuído para mudanças no cronograma. E lembra que alterações no projeto original não geram apenas atrasos, mas também aumento nos custos da obra - o orçamento inicial, de R$ 775 milhões, chegou a subir para R$ 956 milhões, mas depois fechou em R$ 808,4 milhões.

- Olhando de fora, eu diria que, provavelmente, foram as mudanças no projeto e a burocracia para fazer os desembolsos, aprovar aditivos e modificações (no orçamento) que provocaram o atraso. Mas isso explica, não justifica. Já se sabia que o Brasil iria fazer a Copa há algum tempo - diz o engenheiro civil, de 61 anos.

Estádio feito ‘à mão’

Procurado pelo GLOBO, o presidente da Empresa Municipal de Obras Públicas do Rio (Emop), Ícaro Moreno, não concedeu entrevista, mas confirmou, em nota enviada pela assessoria de imprensa, que foi necessário um trabalho extra de recuperação da estrutura do Maracanã, ressaltando que o estádio é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

- O projeto de reforma do Maracanã foi de adequação às exigências da Fifa, entre elas as de acessibilidade, segurança, conforto e visibilidade. Para isso, foi necessário um trabalho profundo de recuperação estrutural e de concordância com o projeto executivo a ser executado para cumprir essas exigências. Por outro lado, o objetivo de se modernizá-lo, atendendo às exigências da Fifa, sem descaracterizá-lo, foi conseguido. Esse é o mérito - afirma ele, evitando comparações entre o tempo de reforma e o de construção:

- Comparar apenas passado e presente, reforma ou construção, leva a conclusões equivocadas sobre as obras (...). Por exemplo, no cronograma inicial não estava prevista a demolição e a construção de nova cobertura, o que foi feito por motivos de segurança. Ou seja, teremos um Maracanã moderno e preservado em sua arquitetura, com segurança, conforto e visibilidade. E dentro do cronograma que importa, que é tê-lo pronto para a Copa das Confederações e a Copa do Mundo.

De acordo com o site Portal da Copa, do governo federal, o número de operários trabalhando no Maracanã já chegou a 5.500, cerca de dois mil homens a mais que o contingente necessário para erguer o estádio no fim da década de 1940, a tempo da realização da Copa do Mundo — embora ressalte-se que, mesmo tendo sido entregue dentro do prazo, o Maracanã só foi considerado totalmente concluído 13 anos depois do Mundial, devido a obras complementares que ficaram pendentes e outras que se fizeram necessárias, como a demolição e a reconstrução da cobertura de uma das rampas, que oferecia perigo aos torcedores. A assessoria da Emop não confirmou se, desta vez, haverá necessidade de se fazer novas intervenções entre a Copa das Confederações e o Mundial de 2014.

Além de contar com menos trabalhadores no canteiro de obras, os engenheiros da época não possuíam muitas das modernas técnicas da atualidade.

- Não havia tanta tecnologia, os equipamentos eram muito simples. Quando comecei a trabalhar com engenharia, eu ainda usava uma coisa chamada régua de cálculo. Hoje, já existem softwares em que você entra com os dados e eles dão o trabalho todo feito. O concreto, antigamente, tinha que ser feito na própria obra, era levado em padiolas, era penoso subir a massa. Hoje, existem bombas que jogam o concreto lá para cima. O aço era dobrado na mão, por operários chamados de armadores. Atualmente, você entrega as plantas e recebe da indústria o aço já dobrado e no tamanho que você precisa. As obras, hoje em dia, viraram uma linha de montagem - compara Manoel Lapa.

- A gente costuma dizer que as obras daquela época, como Maracanã e Brasília, foram feitas à mão - brinca Jaques Sherique, que nasceu dois meses antes da Copa de 1950 e foi vizinho do estádio na infância.

Obra de igreja

A sabedoria popular cunhou a expressão “obra de igreja” para ironizar reformas muito demoradas. Para os torcedores do Rio, o martírio já dura mais de dois anos, à espera do dia em que poderão voltar a adorar seus ídolos no maior templo do futebol brasileiro. Por ora, resta a ladainha quase interminável das obras, até que a Fifa diga “amém” ao novo Maraca. E, então, quem sabe, a metáfora religiosa poderá dar lugar a um novo bordão na terra da bola:

- Acho que, depois disso, poderemos criar o jargão “obra de Copa”, aquela que termina sempre com preço muito alto e em cima da data de entrega - sugere Jaques Sherique.

Fonte: O Globo