Setor de construção opera perto do limite

Texto: Redação AECweb

Conjuntura: Produtores de materiais de construção contam com apenas 8% de ociosidade nas fábricas

15 de junho de 2010 - A situação de aquecimento da indústria, por enquanto, só tem um caso dramático. Os fabricantes de material de construção foram os únicos a ultrapassar os níveis de utilização da capacidade registrados antes da crise. O setor já estava próximo do limite em agosto de 2008, quando tinha apenas 9% de ociosidade nas fábricas. A explosão da crise mundial, no mês seguinte, derrubou a demanda e permitiu que o setor formasse estoques. Incentivos federais e programas como o Minha Casa, Minha Vida, que preveem a construção de 1 milhão de casas populares, no entanto, impulsionaram a construção civil, que rapidamente recuperou o ritmo perdido. No mês passado, o nível de utilização da capacidade instalada (Nuci) do setor, segundo a FGV, alcançou 91,6%, ultrapassando o recorde e apontando para o limite de produção.

O economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, não hesita em dizer que há superaquecimento no setor de construção civil. "Além do Nuci elevado, há falta de mão de obra especializada e os salários têm aumentado muito, até acima da produtividade", diz ele. Os gargalos já se traduzem em inflação mais alta, como se nota no Índice Nacional do Custo da Construção (INCC), em alta de 6,07% nos 12 meses até maio. Borges diz que não há como importar mão de obra e tampouco boa parte dos insumos. O preço do frete, por exemplo, inviabiliza as compras externas de cimento.

Para Luiza Rodrigues, economista do Santander, o setor de construção civil não está isolado. "A pressão de custos em elevação vêm de vários setores. Os salários estão aumentando e muitas empresas estão disputando o mesmo funcionário, porque não há gente qualificada em número suficiente", diz. A economista calcula que o tempo médio de maturação do investimento industrial é de 17 meses. Assim, raciocina, do momento em que a economia começou a ganhar ritmo, a partir de meados de 2009, à expansão de fato da capacidade produtiva, o ano de 2010 já terá passado.

Um dos sintomas do crescimento acelerado, dizem os analistas, é a elevação da inflação. O mercado avalia que os preços no varejo terminarão o ano em alta de 5,5% - acima da meta de 4,5% perseguida pelo Banco Central, que já começou a elevar os juros.

"Os críticos pegam uma situação isolada, como o que ocorre na construção civil e extrapolam para o conjunto. Setores como siderurgia e petroquímica estão expandindo muito sua capacidade e essa é uma grande mudança que tivemos em relação às últimas décadas", diz Fernando Puga, economista do Banco Nacional Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). "Antes a indústria modernizava parque, como calçadista, têxteis, veículos, investimentos de pequena monta e que poderiam ser interrompidos. Hoje vivemos a fase de grandes projetos. Ninguém faz um trem bala pela metade ou meia petroquímica", diz. Para Rogério Cezar de Souza, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o aumento de juros impacta toda a atividade. "O governo precisa separar os setores que estão pressionando dos que ainda têm folga produtiva para não travar a economia toda", diz.

Fonte: Valor Econômico - SP