Sinal amarelo envolve setor imobiliário no País

Texto: Redação AECweb

Números revelam que ante abril São Paulo registrou um aumento de vendas de 48,3%

15 de junho de 2011 - Depois de crescer de maneira vertiginosa nos últimos anos, o setor imobiliário brasileiro começa a dar sinais de desaquecimento, sobretudo nas regiões metropolitanas. O motivo, de acordo com analistas e construtoras, são os preços elevados de terrenos, mão de obra e material de construção, além da desaceleração do ritmo de lançamentos.

O resultado da desaceleração, que só em São Paulo fez recuar 44% das vendas no primeiro quadrimestre, ante 2010, de acordo com Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi), os números revelam, no entanto, que ante o mês anterior (abril) São Paulo registrou um aumento de vendas de 48,3%. Esse fôlego, no entanto, não tranquiliza possíveis investidores, que já começaram a rever os aportes para o setor no Brasil.

"A desaceleração do setor imobiliário faz parte de um processo natural dentro da evolução econômica do País emergente, e já notamos isto em vários outros lugares. O que é importante ressaltar, apenas, é que há muitos mitos repercutindo mundo afora sobre uma possível bolha imobiliária brasileira, que é completamente sem sentido para a situação do País, mas afugenta o investidor", afirmou Jim Fetgatter, CEO da Association of Foreign Investors in Real Estate (Afire).

A Afire, entidade vista como a voz oficial do setor imobiliário estrangeiro nos Estados Unidos, tem realizado estudos para entender o comportamento do mercado imobiliário brasileiro. "Estamos olhando com cuidado o mercado no Brasil, mas podemos afastar completamente o risco de uma bolha imobiliária nos moldes da norte-americana porque não há cultura de hipotecas e especulações", afirmou Fetgatter.

De acordo com os números da associação, o Brasil já lidera o ranking dos países emergentes mais visados por investidores institucionais estrangeiros. Nos resultados, o Brasil figura à frente da China e da Índia como o país emergente mais cotado para receber investimentos em 2011.

Na mesma pesquisa, os associados da Afire foram questionados sobre qual país oferece melhores oportunidades para a apreciação de capital, desta vez não apenas entre os emergentes. O Brasil se destaca em quarto lugar, atrás dos Estados Unidos, da China e do Reino Unido. "Não havia nenhum outro país da América Latina que se aproximasse dos resultados do Brasil nesta pergunta. Em 2007 o Brasil não era mencionado por nossos associados", disse o executivo.

E de olho nesse estudo, a Chain Holding, empresa de investimentos no setor imobiliário, formada pela família Gaspart, tradicional na Catalunha, também começa a rever os aportes para o Brasil. "Viemos para o Brasil para estudar as possibilidades de investimentos, que fazem parte da nossa estratégia de crescimento para os próximos anos", disse Guillermo Gaspart, vice-presidente da holding.

De acordo com o executivo, os boatos de bolha imobiliária ainda são bastante divulgados no exterior, principalmente por empresas de fundos que apostaram nos Estados Unidos. "Ainda há cautela com relação a investimentos, e não apenas no Brasil", diz.

Sobre o valor dos aportes e os projetos para o Brasil, o executivo foi enfático. "Temos interesses, sim, em ações de construção residencial e hoteleira", afirmou Gaspart, que não descartou a possibilidade de entrar como investidor em estádios esportivos.

Hipoteca

Ainda sem muita expressão no Brasil, a hipoteca também já aparece como uma opção de crédito no mercado, e isso, de acordo com Jorge Roldão, professor de Construção Civil da Unip e especialista no setor imobiliário, também é um motivo para o sinal amarelo aos investidores. "Enquanto não houver cultura de hipoteca no Brasil os investidores que sofreram com a crise norte-americana estarão mais seguros, mas há um movimento de aumento no sentido contrário."

Essa é a ideia da companhia hipotecária Domus, que pretende ampliar, neste ano, sua carteira de clientes (pessoa física) que disponibilizam a residência como garantia em troca da concessão de crédito. O objetivo é fechar este mês com uma carteira de R$ 50 milhões. A modalidade de empréstimo, conhecida como Home Equity, é chamada pelo presidente da empresa, Geraldo Majela, de Financiamento Domus. De acordo com ele, há grande potencial de crescimento no Brasil. "Apesar de ter sido o pivô da crise americana, é uma linha que deve pegar no País nos próximos meses, pois várias empresas e bancos têm experiências positivas."

Ele acredita que a barreira cultural tende a ser ultrapassada com informações que mostram as vantagens e a segurança desse tipo de empréstimo. "Quando você tem uma taxa abaixo da média disponível mercado, com longos prazos de financiamento e com um criterioso estudo das condições de comprometimento de renda do tomador, o crédito passa a ser vantajoso", diz.

Incorporadoras

A queda dos lançamentos -que em São Paulo, de acordo com o Secovi-SP - registraram um recuo de 16,4%, não desanimou as incorporadoras, que ainda encaram o crédito brasileiro como um agente impulsionador para o ano.

Exemplo disso é a incorporadora Setin, que mantém seus planos de crescimento na casa de 18% para 2011, apoiada no aumento do financiamento para aquisição de imóveis em 2011. O crédito imobiliário representará 11% do PIB em 2014. Atualmente, a participação deste tipo de crédito é de 4%. Em 2010 estima-se que 62% do valor dos imóveis foram financiados, de acordo com o Secovi. "O Brasil vive um bom período econômico, há confiança do consumidor em comprar, e há a economia estável, o que aumenta o crédito, então a bolha não é algo que nos assuste", disse Antônio Setin, vice-presidente do grupo.

O professor de Economia Imobiliária da Universidade Metodista, Ailton Bernardes, prevê cautela "A linha da economia imobiliária é tênue. As incorporadoras não podem sair lançando novos condomínios baseadas apenas no aumento do crédito, porque a demanda e a procura precisam manter uma proporção para que não venha a haver desvalorização", diz.

Fonte: DCI - SP