Como reduzir perdas nos canteiros de obras?

Gestão do consumo de materiais, criação de indicadores, estabelecimento do ciclo PDCA, industrialização e organização da produção são vitais na diminuição do desperdício

Publicado em: 28/09/2022

Texto: Eric Cozza

foto de entulhos de canteiros de obras
Construtoras com pior desempenho na gestão do consumo de materiais, em geral, não têm consciência exata do que está acontecendo. Primeiro passo é fazer um diagnóstico adequado, baseado em indicadores (Foto: Shutterstock)

As perdas e o desperdício nos canteiros de obras são um assunto recorrente e, por vezes, polêmico no Brasil. Há, inclusive, uma história (quase uma lenda urbana) de que, para cada três edifícios construídos por aqui, um é jogado fora.

Quem costuma mencionar esse dado nem sempre consegue explicar se tal perda é física, relacionada aos materiais, incorporada ou não à construção (nem toda perda vira entulho) financeira ou de produtividade. Tampouco revela se o desperdício é exatamente igual em diferentes etapas da obra e o mesmo para materiais ou serviços distintos.

Isso não quer dizer, entretanto, que as perdas não sejam um problema para as construtoras. Pelo contrário. Em tempos de inflação setorial e exigências crescentes de sustentabilidade, o assunto se torna ainda mais crítico. Deve ser tratado, portanto, de forma técnica e racional.

Por isso, para nos ajudar a compreender melhor o tema, nós convidamos para o podcast AEC Responde o professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e diretor das empresas Produtime e Indicon, o Eng. Ubiraci Espinelli Lemes de Souza, autor do livro “Como Reduzir Perdas nos Canteiros”. Confira abaixo a entrevista.

AECweb Responde – No seu livro, o senhor diz que ter perdas não é sinônimo, necessariamente, de incompetência. O problema são as perdas facilmente evitáveis. As construtoras que incorrem em desperdício, em geral, têm consciência do problema? Como fazer um diagnóstico?

Ubiraci Espinelli Lemes de Souza – No passado, nós fizemos um grande diagnóstico nacional para entender onde as perdas aconteciam e em qual dimensão. A má notícia é que, infelizmente, eram grandes. E daquela fração que você chamou de evitável, que denominamos como desperdício, ou seja, que deveria ser evitado. Entre as construtoras, existem algumas que cumprem bem o papel, desde o projeto até a execução e conseguem obter índices bastante reduzidos. Outras, infelizmente, não. E, em geral, essas que têm desempenhos piores quanto ao uso dos materiais não têm ciência do que está acontecendo. Então, um grande passo é ter consciência dessa perda, que pode representar de 3% a 10% do custo da obra. Temos que fazer uma boa gestão do consumo de materiais, que começa com um diagnóstico das perdas. Isso pode ser feito de diferentes maneiras. Eu costumo mencionar uma forma mais abrangente, contábil, que você pode associar ao próprio controle de andamento da obra. A construtora costuma saber o quanto executou de cada serviço. Bastaria, contabilmente, você detectar quanto de material foi entregue no canteiro e quanto saiu do estoque. Esse balanço já permitiria saber, por exemplo, quantos litros de argamassa foram gastos por metro quadrado revestido. E há maneiras mais rápidas, sucintas e específicas como, por exemplo, acompanhar um dia de trabalho de um pedreiro e observar quantas caixas de argamassa ele gastou e quantos metros quadrados ele executou. Rapidamente, você saberia o valor do consumo de materiais e compararia com o valor de referência. Por exemplo, um centímetro de revestimento de argamassa consome 10 litros por metro quadrado. Sempre que eu estiver gastando mais do que isso, posso considerar como perda.

Toda vez que eu tenho modulação, corto menos componentes e, ao fazer isso, diminuo perda por entulho. A pré-fabricação também pressupõe a produção das peças em um ambiente mais controlado, menos sujeito às variações. Assim, reduzo bastante a perda incorporada
Eng. Ubiraci Espinelli Lemes de Souza

AECweb Responde – Estabelecer o ciclo PDCA (do inglês plan-do-check-act), que poderíamos traduzir para planejamento, execução, controle e avaliação, é a melhor maneira de fazer a gestão de consumo de materiais? Como uma construtora pode adotá-lo?

Souza – Usar o PDCA deveria ser um dever de qualquer profissional técnico. Nada mais óbvio do que você planejar o que vai fazer, executar, controlar e rever o que eventualmente não está indo bem. Portanto, sim, esse é um caminho interessante para a gestão dos materiais, na medida em que se usam indicadores e não meramente opiniões, mas constatações objetivas sobre o desempenho. Você deve planejar o serviço que vai executar em termos de materiais, pensar em quais diretrizes vai seguir para evitar perdas e quais problemas serão resolvidos, por exemplo, no caso do revestimento interno. Uma parede desaprumada leva a um maior consumo. É preciso, portanto, trabalhar a capacitação dos operários, o esquadro das paredes e fornecer argamassa no momento adequado. Você deve planejar para que isso aconteça e ter um desafio, ou seja, um indicador de referência do consumo necessário – no exemplo que já mencionei, para 1 centímetro de argamassa de revestimento, até 10 litros por metro quadrado seria o consumo aceitável. Depois, implementar todas aquelas coisas que você pensou para que tudo corra bem. E, na sequência, medir o consumo. Não basta achar que está tudo certo. E, se estou com problemas, preciso checar onde estão e tentar revertê-los, ou seja, voltar para as boas diretrizes que eu havia planejado. Com isso, eu vou balizando o consumo para alcançar as metas definidas.

AECweb Responde – A construção civil no Brasil ainda possui uma forte característica artesanal. A industrialização do setor, com a introdução de pré-moldados e a construção modular, pode ser aliada na redução das perdas?

Souza – Sim, com certeza. Podemos ter um panorama bem melhor. Lembrando que as perdas podem ser incorporadas – por exemplo, quando executei o revestimento em uma espessura maior do que a necessária ou a minha estrutura ficou mais gordinha do que deveria – ou por entulho, aquele resíduo gerado, que acaba sendo retirado da obra.

Gestão de consumo de materiais, produtividade da mão de obra e segurança do trabalho andam juntas. Devemos investir nessas três frentes. Na maior parte dos canteiros de obras, temos muito a ganhar
Eng. Ubiraci Espinelli Lemes de Souza

AECweb Responde – Ou seja, nem todas as perdas se transformam em entulho. Algumas podem ficar incorporadas à edificação, sem necessidade.

Souza – É verdade. A construção civil, principalmente pelo fato de ter muita moldagem, possui uma fração de perda incorporada que, por vezes, é superior ao entulho. Em um contexto de construção modular, temos sempre dimensões dos componentes compatíveis com as demais peças que são executadas. Toda vez que eu tenho modulação, corto menos componentes e, ao fazer isso, diminuo perda por entulho. A pré-fabricação também pressupõe a produção das peças em um ambiente mais controlado, menos sujeito às variações. Assim, reduzo bastante a perda incorporada. Acrescentaria aí também a mecanização que, em geral, proporciona menos manuseio dos componentes e menos entulho. Reunindo isso tudo em uma palavra: industrialização. Gostaria só de frisar que, para mim, além da mecanização e da pré-fabricação, industrialização pressupõe organização. Eu preciso organizar o processo de produção, seja ele artesanal, de moldagem in loco, ou baseado em uma maior industrialização. Uma fábrica sem gestão pode ser até pior do que um canteiro tradicional, bem gerido. Industrialização é o caminho, mas pressupõe gestão.

As pessoas também perguntam para o AEC Responde: O que é lean construction ou construção enxuta?

AECweb Responde – Especialistas e adeptos da lean construction ou, em português, construção enxuta, costumam dizer que as maiores perdas nos canteiros de obras não estão associadas aos materiais, mas à baixa produtividade dos trabalhadores e à subutilização dos equipamentos. O senhor concorda com tal visão?

Souza – Gostaria de começar pela lean construction, que é uma postura para se fazer gestão, bastante difundida hoje, muito interessante e baseada em dogmas, isto é, em diretrizes e boas ideias que devem ser seguidas. Está aí para ser usada. Temos que acrescentar ainda a importância de uma outra postura que eu chamo de ‘do construction’ que, além dos dogmas, se baseia fortemente em olhar os resultados, pois é a partir deles que verificamos se estamos indo bem, ou não. Esses resultados, os indicadores de perdas, têm mostrado que, quando uma empresa é boa em produtividade da mão de obra, costuma ter perdas baixas. Ao mesmo tempo, possui, por exemplo, melhor segurança do trabalho e baixo índice de acidentes. Existe, portanto, uma relação de ida e volta: toda vez que eu tenho perda baixa, verifico boa produtividade da mão de obra. E quando tenho uma dessas coisas ruins, as outras vêm junto.

AECweb Responde – São questões indissociáveis.

Souza – Correm juntas. Você não vai encontrar uma obra com muitas perdas e boa produtividade. Ou vice-versa. É preciso, portanto, cuidar do consumo de materiais, disponibilizar a quantidade necessária e suficiente na frente de trabalho. Nem material a menos – porque eu paro o serviço – nem a mais, porque depois eu tenho que movimentá-lo de novo e vou perder produtividade com isso. Eu costumo dizer: nem menos, nem mais. Gestão de consumo de materiais, produtividade da mão de obra e segurança do trabalho andam juntas. Devemos investir nessas três frentes. Na maior parte dos canteiros de obras, temos muito a ganhar.

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Colaboração técnica

Ubiraci Espinelli Lemes de Souza – Professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, é diretor das empresas de consultoria Produtime e Indicon Gestão e Tecnologia. Autor dos livros “Como Reduzir Perdas nos Canteiros” e “Como Aumentar a Eficiência da Mão-de-Obra”, além do “Manual Básico de Indicadores de Produtividade na Construção Civil – Volume 1 – Estruturas de Concreto Armado Convencional e Estrutura em Paredes e Lajes de Concreto Moldadas com Uso de Fôrma de Alumínio”, publicado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)