O que é BIM 5D?

Dimensão da metodologia Building Information Modeling está associada aos custos de construção e incorpora as informações dos orçamentos de obras ao modelo BIM

Publicado em: 19/02/2024

Texto: Eric Cozza

A utilização da metodologia BIM (Building Information Modeling) no meio técnico da construção civil tem se acelerado nos últimos anos. Com a adesão crescente de projetistas e os benefícios cada vez mais evidentes para construtores, incorporadores e contratantes de obras, a roda parece, finalmente, começar a girar.

Nesse processo, já ficaram famosas as várias dimensões do BIM, associando o uso da metodologia a diferentes aspectos relacionados a um empreendimento, tais como cronograma, custos, sustentabilidade, manutenção etc.

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As dimensões mais próximas ao cotidiano do setor, no momento, ainda são a 3D, que se refere à representação tridimensional, a 4D, que adiciona a questão do tempo, ou seja, do planejamento e do cronograma do empreendimento e a 5D, que incorpora ao modelo os custos de construção.

Dimensões à parte, o levantamento automatizado de quantidades para a geração de estimativas orçamentárias e a possibilidade de atualizações dinâmicas do modelo ainda permanecem como sonhos distantes para muitos empresários e profissionais do setor.

Para falar sobre o conceito do BIM 5D, suas possibilidades e desafios, nós convidamos para o podcast AEC Responde a sócia da Tríade Engenharia de Custos e especialista em orçamentos de obras, a Rosângela Castanheira. Ouça o áudio e/ou leia entrevista, a seguir:


Tela do BIM 5D


AECweb – O que é exatamente o BIM 5D e por que interessa às construtoras?

Rosângela Castanheira – O BIM 5D está relacionado à associação dos custos de construção ao modelo 3D. O meio acadêmico já não utiliza mais essa nomenclatura, preferindo falar em usos do BIM. Mas, para efeito pedagógico, é interessante o uso das dimensões, que facilitam o entendimento para quem ainda não domina o assunto. Então, em resumo, o BIM 5D se refere ao uso do modelo para o orçamento de obras. E há, de fato, um interesse muito grande por parte das empresas, o que é muito bom, uma vez que o orçamento reflete a saúde financeira do empreendimento e, por consequência, da própria companhia. É importante lembrar, entretanto, que o BIM não alterou o modo de orçar. Seguimos associando uma composição de custo unitário a uma quantidade de serviços que serão executados em uma determinada obra. O que mudou foi o levantamento de quantitativos. O 5D depende muito do modelo 3D e da qualidade dele, principalmente das informações que carrega, que precisam ser adequadas às necessidades do orçamento. A base é o 3D para, depois, termos esses quantitativos e prepararmos a orçamentação. Portanto, o que, de fato, se alterou no processo orçamentário com o BIM foi a possibilidade de extração de quantitativos do modelo.

Uma das coisas que retarda o desenvolvimento do BIM 5D é a ideia equivocada de um processo automático e rápido. Isso nos atrapalha muito, pois cria uma expectativa irreal
Rosângela Castanheira

AECweb – O que as construtoras, incorporadoras e contratantes de obras interessados nos benefícios do BIM 5D precisam para avançar na metodologia?

Castanheira – Em primeiro lugar, é preciso saber o que a empresa deseja em relação ao BIM e como pretende chegar lá. Isso pode até soar um pouco esquisito, mas costumamos ouvir por aí a seguinte resposta para essa pergunta: “queremos tudo.” E há um velho ditado que diz “quem tudo quer nada tem.”

AECweb – Tudo é nada...

Castanheira – Exato. Então, é importante ter noção disso desde o começo, para que os usos do BIM estejam definidos e as informações adequadas sejam associadas ao modelo. Não adianta, por exemplo, você fazer um modelo voltado para compatibilização, cuja característica marcante seja a geometria e, depois, com esse mesmo modelo, querer extrair quantitativos.

Muita gente ainda reproduz o fluxo de trabalho convencional. Ou seja, o cliente contrata os projetistas, eles fazem o projeto e mandam para orçar. Mas se o modelo chega pronto para o orçamentista, onde estão os requisitos necessários ao orçamento?
Rosângela Castanheira

AECweb – Ou seja, a construtora precisa definir se o objetivo central é controlar melhor o cronograma ou fazer uma gestão eficiente dos custos ou até, em alguns casos, impressionar os clientes...

Castanheira – Exatamente. Uma das coisas que retarda o desenvolvimento do BIM 5D é a ideia equivocada de um processo automático e rápido. Isso nos atrapalha muito, pois cria uma expectativa irreal. As construtoras, normalmente, possuem maior interesse na gestão de custos. E, para ter essa informação no modelo, é importante que a empresa contribua, colabore, passando informações para o gestor do projeto. É preciso imputar no modelo o jeito que a construtora faz a gestão das suas obras. Por exemplo: separa alvenaria interna da externa? Gerencia os quantitativos por pavimento? Separa a cerâmica de banheiros e cozinha? Esse ‘DNA’ ou a ‘impressão digital’ da construtora precisa ser explicada, porque influencia a maneira de imputar informações no modelo. Estamos falando de uma construção virtual. Portanto, até a espessura da argamassa precisa ser definida previamente. Só que o pessoal não costuma saber disso, por incrível que pareça. Imaginam que se trata de uma questão de obra, a ser resolvida pelo pessoal no canteiro. Só que não. Com o BIM, nós ‘construímos’ primeiro no computador, então, isso precisa estar definido: traço, espessuras, cotas etc. O incorporador está sempre atrás de resultado. Com o BIM, você pode, por exemplo, criar cenários, para que se atinja determinado custo. Projetar com meta orçamentária. Algo que também é factível da maneira tradicional mas, com o BIM, pode ser realizado com muito mais rapidez, precisão e facilidade para apresentar e ilustrar para o incorporador.

É imperativo ter um engenheiro de custos proficiente em BIM. Alguém que seja um interlocutor dos requisitos necessários ao cliente, mas com o olhar voltado para o orçamento. Para funcionar como uma ponte
Rosângela Castanheira

AECweb – Como os diferentes profissionais envolvidos no desenvolvimento de um empreendimento imobiliário devem se preparar para atuar nessa dimensão 5D do BIM? Quais são as competências necessárias?

Castanheira – O trabalho colaborativo entre a equipe envolvida no desenvolvimento do modelo é uma característica intrínseca, própria do BIM. Devemos sempre incluir nesse time o contratante, porque dele vão partir todas as necessidades a serem atendidas. E para desenvolver um modelo com os requisitos do processo orçamentário, é imprescindível contar com um profissional especializado. Ou seja, é imperativo ter um engenheiro de custos proficiente em BIM. Alguém que seja um interlocutor dos requisitos necessários ao cliente, mas com o olhar voltado para o orçamento. Para funcionar como uma ponte. Não é ele quem vai mandar ou definir a modelagem. Absolutamente, não. Ele vai trabalhar colaborativamente, ouvindo todas essas questões do cliente, o escopo de orçamento e transformar isso numa matriz de requisitos. Para que, aí sim, os projetistas preparem a modelagem imputando as informações que serão consumidas pelo engenheiro de custos responsável pelo orçamento.

As pessoas também perguntam:

O que faz um orçamentista de obras?

AECweb – Na sua visão, em qual estágio nos encontramos no momento? Há empresas que já se beneficiam dessa dimensão da metodologia voltada à orçamentação e à análise de custos? Desejos como o levantamento automatizado de quantidades e atualizações dinâmicas do modelo já são uma realidade no Brasil?

Castanheira – Há muitos problemas e desafios a serem vencidos, mas temos uma boa notícia: o pessoal está, de fato, focado em resolver as questões do BIM 5D. Mas como aceleramos e vencemos esses desafios? Na minha visão, devemos manter o ponto focal no modelo 3D e nas necessidades do orçamento que esse modelo precisa atender. Muita gente ainda reproduz o fluxo de trabalho convencional. Ou seja, o cliente contrata os projetistas, eles fazem o projeto e mandam para orçar. Mas se o modelo chega pronto para o orçamentista, onde estão os requisitos necessários ao orçamento? Onde foram colocados? Precisamos, portanto, de um fluxo de trabalho que inclua o contratante e um engenheiro de custos proficiente em BIM, mas antes de iniciar a modelagem. Com isso, conseguimos automatizar o processo e realizar as atualizações possíveis. Mas sempre lembrando: nada é mágico. Depende de muito trabalho, mas é factível. Há empresas que estão bem avançadas nesse sentido.

AEC Responde

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Colaboração técnica

Rosângela Castanheira – Graduada pela Fatec-SP em tecnologia de construção civil, possui MBA em gestão estratégica de custos pelo IBEC/INPG. Sócia-diretora da TRÍADE Engenharia de Custos, recebeu certificação por “Notório Saber em Engenharia de Custos”, creditada pelo International Cost Engineering Council (ICEC). É docente em cursos de pós-graduação, graduação e atualização profissional em várias instituições de ensino.