O que é concreto autoadensável?

Ao preencher vazio das fôrmas por meio do peso próprio, tecnologia dispensa adensamento ou vibração. Reduz equipe e tempo de execução, além de evitar nichos e falhas de concretagem

Publicado em: 11/10/2022

Texto: Eric Cozza

foto de uma pessoa segurando uma espátula e uma tabua com argamassa líquida em cima
Tecnologia consagrada nos países de Primeiro Mundo, oferece excelente capacidade de preenchimento dos espaços vazios e envolvimento das barras de aço apenas pela força gravitacional. Fluidez e coesão são duas propriedades fundamentais (Fotos: Abesc)

Desenvolvido no Japão no final da década de 1980, o concreto autoadensável (CAA) tem como característica a capacidade de se moldar nas fôrmas por conta própria e preencher, sem a necessidade de vibração ou compactação, os espaços destinados às peças estruturais.

O desconhecimento dos profissionais em relação à tecnologia ainda é grande no Brasil. Muitos acreditam ser, simplesmente, um concreto mais caro na comparação por metro cúbico. Outros reclamam que um eventual ganho de produtividade na execução de pouco ou nada adianta, pois terceirizam o serviço de concretagem e o subempreiteiro costuma cobrar por tarefa.

Poucos conseguem fazer uma análise um pouco mais abrangente, computando no custo final da estrutura outros ganhos obtidos, tais como a redução do tempo de execução, do número de operários envolvidos, o aumento da durabilidade e a diminuição das falhas de concretagem.

Para nos ajudar a entender melhor o assunto, convidamos para o podcast AEC Responde a Profa. Denise Dal Molin, titular da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autora do livro “Concreto Autoadensável”. Confira abaixo a entrevista.

AECweb Responde – O que é o concreto autoadensável e o que o caracteriza?

Denise Dal Molin – A grande mudança do concreto autoadensável em relação ao convencional é uma fluidez muito majorada, mas sem levar à segregação. Trata-se, portanto, de um concreto fluido, mas com coesão suficiente para não segregar os materiais mais pesados, criando essa possibilidade de conseguir avançar pelo peso próprio, preencher todas as fôrmas, vencer os obstáculos, passar pelas armaduras e envolvê-las, avançando sem ser bloqueado. E isso se define, basicamente, na dosagem do concreto. A grande mudança está na entrada dos superplastificantes e dos materiais finos, que proporcionam a coesão que precisamos. O superplastificante entra para aumentar a fluidez, proporcionando aquele ‘sopão de concreto’ que os operários costumam adorar, pois não precisam vibrar e nem espalhar. Ele anda sozinho e avança por metros rapidamente. Só que exige conhecimento para evitar problemas. Hoje, temos normas que balizam as propriedades e os testes a serem feitos, para que se cumpram, desde o início, as características desejáveis em um autoadensável. No início, o pessoal buscava mais a fluidez, mas não tinha uma preocupação tão grande com a coesão e bloqueios. Então, às vezes, precisava utilizar vibrador. E daí não é mais um concreto autoadensável, que deve expulsar as bolhas de ar, andar, envolver e preencher... tudo sozinho. Trata-se de um enorme ganho de produtividade, pois retira do operário a responsabilidade sobre a vibração e a consequente necessidade de fiscalizar esse procedimento. Os problemas derivados da vibração e as falhas de concretagem foram aliados na ascensão do autoadensável. No Japão, onde a tecnologia começou, o custo da mão de obra para reparos é muito elevado e, por conta dos terremotos, a densidade das armaduras é muito grande. Encaixou perfeitamente.

“Quando bem dosado e com uma boa escolha dos materiais, a diferença de custo não é tão grande. Isso sem considerar os ganhos de mão de obra e outras economias. Pela nossa experiência, para ser viável, o valor do concreto autoadensável não pode ser mais do que 10% superior ao convencional”
Profa. Denise Dal Molin

AECweb Responde – Pensando em uma construtora que nunca utilizou a tecnologia, ou seja, que ainda está conhecendo o CAA: quais são os principais cuidados em projeto e, depois, na execução do concreto autoadensável?

Denise – Em relação ao projeto e às fôrmas, não muda nada. Há pouco tempo, trabalhamos com uma empresa que utilizava cubetas (fôrmas para lajes nervuradas). Eles achavam que o concreto iria escapar, por ser muito fluido. Fizeram até protótipo para ter certeza. Não vazou uma gota. Porque, na verdade, se houver uma falha na fôrma, passará tanto o autoadensável quanto o convencional. Não tem diferença. Claro que a tecnologia foi introduzida de maneira mais fácil na indústria de pré-moldados, onde as fôrmas são metálicas e há um grande controle na execução. Mas o pessoal logo se deu conta de que, nas obras convencionais, também não haveria problemas.

AECweb Responde – Ou seja, não muda nada no projeto.

Denise – Nas fôrmas, nada. Claro que eu não posso executar uma rampa, pois o material não vence a gravidade. Óbvio que escadas, por exemplo, têm que ser concretadas de uma outra forma. Para lajes e vigas, porém, é muito bom. O grande conhecimento que as empresas precisam desenvolver é saber exatamente o quanto custa a mais o concreto autoadensável para ter condições de negociar com as concreteiras. Quando bem dosado e com uma boa escolha dos materiais, a diferença de custo não é tão grande. Isso sem considerar os ganhos de mão de obra e outras economias. Pela nossa experiência, para ser viável, o valor do concreto autoadensável não pode ser mais do que 10% superior ao convencional

“Quanto mais alta a resistência do concreto, mais fácil de transformar para CAA, porque ele já tem muitos finos, alto consumo de cimento e adições. Um pouco mais de aditivo e, talvez, um pouquinho de areia fina, e já é possível transformar em concreto autoadensável”
Profa. Denise Dal Molin

AECweb Responde – Então, comparando o custo final por metro cúbico das duas soluções, se o concreto autoadensável estiver até 10% acima, os ganhos adicionais compensarão...

Denise – Se for 5% mais caro, haverá vantagem econômica. Se for 15%, vou pagar um pouco a mais. É mais ou menos isso, dentro da nossa realidade de mercado, do custo da nossa mão de obra. Temos que considerar o tempo reduzido de execução e a diminuição no número de operários. Além disso, não há a fase subsequente, que costuma ser a dos reparos. Na construção tradicional, em obras comuns, nem sempre as pessoas sabem quantificar muito bem o que gastam com esse tipo de retrabalho. Já numa indústria de pré-moldados, é muito fácil de calcular. Eles têm clareza do que gastam para executar e para fazer eventuais reparos. Porque não podem entregar peças com nichos e falhas de concretagem. Então, imagine retirar toda a fase de reparo, além de adensamento e espalhamento. Ganha-se muita velocidade. E temos conseguido chegar no custo. Há pouco tempo, nós trabalhamos em uma obra de um data center na qual conseguimos mudar a especificação de concreto convencional para autoadensável. Custou apenas 3,5% a mais, ou seja, muito pouco. O concreto lá tinha 60 MPa. Quanto mais alta a resistência, mais fácil de transformar para CAA, porque ele já tem muitos finos, alto consumo de cimento e adições. Um pouco mais de aditivo e, talvez, um pouquinho de areia fina, e já é possível transformar em concreto autoadensável. Mudamos com 3,5% a mais no custo do material e conseguimos baratear a obra. Porque a diferença é extremamente pequena e se economizou com a mão de obra e as demais vantagens atreladas ao uso do CAA.

As pessoas também perguntam:

Como aumentar a produtividade das obras com o CAA?

AECweb Responde – Alguns construtores colocam um argumento contrário, que não está relacionado diretamente à tecnologia em si, mas à forma de contratação do serviço. Alegam que não conseguem usufruir dos benefícios do concreto autoadensável devido à nossa cultura de pagamento dos subempreiteiros por tarefa. Ou seja, o ganho de produtividade não se reverte em diminuição no custo. Como resolver isso?

Denise – Já passamos por algo parecido quando entrou no mercado o sistema industrializado de corte e dobra do aço. Foi a mesma coisa. Inicialmente os empreiteiros queriam cobrar o mesmo valor de antes, da época que tinham que cortar, dobrar e montar as barras. Óbvio que isso não funciona. Se alguém acreditar nisso, vai comprar vergalhão reto para sempre e nunca vai evoluir. No final, isso foi sendo absorvido pelos empreiteiros e, hoje, são cobrados valores diferentes.

AECweb Responde – Um trabalho de convencimento e negociação.

Denise – Nossos empreiteiros precisam entender que, assim como o sistema de corte e dobra trouxe benefícios, o concreto autoadensável também traz, pois é mais rápido e evita muitos problemas. Trata-se de uma tecnologia que veio para ficar. As empresas de serviços de concretagem já sabem fazer autoadensável. Conseguem entregar bem. Assim, eu imagino que, no médio prazo, os construtores brasileiros vão utilizar a tecnologia em grande escala, assim como se faz no Primeiro Mundo.

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Colaboração técnica

Denise Dal Molin – Graduada em engenharia civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com mestrado também pela UFRGS e doutorado na Universidade de São Paulo. Professora titular, pesquisadora e docente permanente do Programa de Pós Graduação em Engenharia Civil: Construção e Infraestrutura da UFRGS. Desenvolve estudos e pesquisas nas seguintes áreas: tecnologia de concretos convencionais e especiais, aproveitamento de resíduos, desenvolvimento de novos materiais e processos construtivos, avaliação de desempenho e componentes da construção, patologia e recuperação de estruturas e construções. Foi diretora da Escola de Engenharia da UFRGS e membro fundadora da Associação Brasileira de Patologia das Construções (ALCONPAT Brasil). Líder do Grupo de Pesquisa LAMTAC (Laboratório de Materiais e Tecnologia do Ambiente Construído) da UFRGS, é autora do livro “Concreto Autoadensável”, junto com o Prof. Bernardo Fonseca Tutikian.