O que é o teste de estanqueidade em sistemas prediais?

Ensaio não destrutivo tem como objetivo detectar problemas ou vazamentos em componentes e tubulações para gás combustível, água fria e quente, esgoto e sistema de combate a incêndio

Publicado em: 24/08/2022

Texto: Eric Cozza

foto de um homem realizando testes de estanqueidade nos canos de uma obra
Etapa fundamental no comissionamento técnico de sistemas prediais em edificações, o teste de estanqueidade deve ser realizado de acordo com as normas técnicas pertinentes (Foto: Shutterstock)

Você já ouviu falar em teste de estanqueidade em sistemas prediais? Costuma ser empregado, por exemplo, em instalações de água fria e quente, esgoto e gás.

Trata-se de um ensaio não destrutivo, cujo objetivo principal é detectar problemas ou vazamentos de líquidos ou gases em tubulações. É uma etapa fundamental no chamado comissionamento técnico de equipamentos, sistemas e instalações em edifícios.

Para nos ajudar a compreender melhor o assunto, convidamos para o podcast AEC Responde o engenheiro civil, Marcelo Matsusato, sócio-diretor da Makinsthal Instaladora e da Ecofi Engenharia. Ele também é professor da disciplina de tecnologia de produção de sistemas prediais, do MBA da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Confira a entrevista na íntegra.

AEC Responde – O que é o teste de estanqueidade e qual é o seu objetivo?

Marcelo Matsusato – O teste de estanqueidade vai verificar se o sistema em instalação está sem vazamentos, se possui a resistência à pressão para a qual foi projetado e se os componentes foram acoplados, soldados ou colados de forma adequada. E, muitas vezes, pode até identificar se o sistema de suporte e fixação está coerente com a sua aplicação. O teste faz parte do sistema de comissionamento de uma instalação, principalmente após uma inspeção visual, onde se confere a conformidade com o projeto, as normas e os procedimentos de execução. É fundamental, portanto, para o bom desempenho das instalações.

Primeiro, é importante separar as instalações em alguns sistemas distintos: gás combustível, água fria, água quente, esgoto e sistema de combate a incêndio. Existem normas para cada um desses sistemas, que prescrevem a metodologia de ensaio, a pressão que deve ser executada e os equipamentos a serem utilizados
Eng. Marcelo Matsusato

AEC Responde – Quando, como e por quem o teste deve ser realizado?

Matsusato – Primeiro, é importante separar as instalações em alguns sistemas distintos: gás combustível, água fria, água quente, esgoto e sistema de combate a incêndio. Existem normas para cada um desses sistemas, que prescrevem a metodologia de ensaio, a pressão que deve ser executada e os equipamentos a serem utilizados. Por exemplo, para o gás combustível se aplica a norma NBR 15526, cujo texto nos informa que o teste deve ser realizado em duas etapas. A primeira deve durar, no mínimo, 60 minutos com uma pressão de trabalho de uma vez e meia (1,5x) a pressão de trabalho máxima admitida e não menor do que 20 kPa. Traduzindo, são 2 metros de coluna d'água. Na prática, nós fazemos esse teste com uma régua graduada e injetando o gás na tubulação. É importante que as válvulas estejam abertas e, somente nos pontos terminais, estejam com o bujão ou um cap para testar toda a rede. Já para água fria e quente a norma é a NBR 5626. O teste hidrostático deve ser feito por uma hora na temperatura ambiente, no caso da água fria. E com uma pressão de trabalho de uma vez e meia (1,5x) e não menor do que 60 metros de coluna d'água. Para esse tipo de ensaio, nós utilizamos uma bomba de teste com um manômetro. Na água quente, o teste hidrostático deve ser feito com a temperatura de 80°C. Isso porque é preciso identificar a dilatação da tubulação e se as conexões foram, de fato, bem acopladas. A norma determina pressão de uso de, no máximo, 40 kPa. Quando falamos em uma vez e meia (1,5x), chegamos também em 60 metros de coluna d'água. Isso norteia todos os componentes: as tubulações e os equipamentos acessórios, como os flexíveis, torneiras e registros. Já o esgoto não demanda uma pressão de trabalho muito grande: pressão máxima de 6 metros de coluna d'água por 15 minutos e pode ser feito com água ou ar. E geralmente, na prática, colocamos ali na obra um tipo de bexiga na prumada, para vedá-la, e depois enchemos com água, tamponando ali alguns pontos onde vão ser instaladas depois as bacias e algumas louças. E, por fim, vamos falar do sistema de combate a incêndio. Por demandar muita pressão, o teste hidrostático é também pelo menos uma vez e meia (1,5x) a pressão de trabalho e não menor do que 1,5 mil kPa, que são 150 metros de coluna água. E esse teste é realizado por 2 horas. Em resumo, o teste depende muito do sistema e seus respectivos usos e deve sempre contemplar todos os componentes: tubulações, conexões, válvulas, registros.

AEC Responde – O teste pode ser realizado pela instaladora ou pela própria construtora? Ou, em alguns casos, precisa ser feito por uma empresa especializada?

Matsusato – A responsabilidade do teste é da empresa instaladora, que pode, eventualmente, terceirizar com algumas companhias especializadas. Ou, como é o nosso caso, a instaladora possui os equipamentos para realizar as inspeções, sempre acompanhado de processos, procedimentos e em conjunto com a equipe que vai receber esses testes. No caso da Comgás, em São Paulo, por exemplo, para liberar uma instalação e fazer a ligação do medidor, a própria concessionária se encarrega do teste de toda a rede até o ponto final. Exige que sejam abertas todas as válvulas e só faz a ligação predial após a realização do teste por alguém credenciado pela própria Comgás.

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AEC Responde – Quais são os pontos de atenção nesse processo? Onde costumam aparecer os problemas e o que pode ser feito para evitá-los?

Matsusato – É sempre importante reforçar a importância do teste de estanqueidade. Eu já visitei inúmeras obras Brasil afora e, muitas vezes, empresas apenas soltam água do barrilete da caixa e acham que isso é suficiente. E onde ocorrem as falhas? Na execução, por excesso ou falta de material vedante ou o excesso de torque, que pode gerar uma trinca em alguma conexão. Geralmente nas conexões, pois os produtos instalados hoje já passam por avaliações do fabricante. Existe um teste específico para cada produto. O problema pode ocorrer por componentes inadequados, utilizados de maneira diferente para os quais foram projetados. E até mesmo com furos na instalação de acessórios, dentro de banheiros, por exemplo. Já pegamos também casos de inadequação no qual uma tubulação passava pelo contrapiso e o pessoal que foi instalar uma soleira acabou furando a tubulação. Esses são alguns pontos de atenção. E como podemos evitar esse tipo de problema? Com um bom projeto, bem dimensionado e com boas especificações. Sempre seguir as normas e regras técnicas, utilizar produtos em conformidade e treinar a mão de obra. Tanto para a instalação como também para a realização dos testes. Vale ressaltar que a utilização de kits industrializados tem ajudado muito. Temos hoje kits para chuveiros e para banheiros, por exemplo, nos quais os testes são realizados na fábrica, o que reduz muito a necessidade de intervenção da mão de obra. E, por fim: fazer o comissionamento, junto com a equipe de obra ou até mesmo com empresas especializadas.

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Colaboração técnica

Marcelo Matsusato – Graduado e mestre strictu sensu pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, possui MBA em gestão empresarial pela Fundação Getúlio Vargas. Sócio-diretor da Makinsthal Instaladora e da ECOFI Engenharia, é professor da disciplina de tecnologia de produção de sistemas prediais do MBA da Poli-USP. Foi gerente de instalações da incorporadora e construtora Tecnisa