Paisagista deve ter formação em arquitetura?

Veja como seguir carreira no paisagismo e confira dicas para obter sucesso profissional

Publicado em: 23/11/2023

Texto: Hosana Pedroso

Duas mulheres na fábrica com vestimentas de engenheira: coletes sinalizados e capacetes azuis.

Em entrevista ao portal AECweb, o arquiteto Mario Henrique Felgueira Pavanelli, diretor de Comunicações da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP), explica que a profissão de paisagista vai muito além da jardinagem. Sua denominação correta, inclusive, é arquitetura da paisagem.

No Brasil, ao contrário do que acontece em outros países que possuem uma graduação específica em arquitetura paisagística, essa profissão costuma ser exercida por arquitetos e urbanistas, que devem complementar seus conhecimentos com cursos específicos e de forma continuada. Saiba mais sobre essa profissão na entrevista a seguir.

AECweb – O paisagista é necessariamente arquiteto e urbanista?

Mario Henrique Felgueira Pavanelli – A atual legislação brasileira não prevê a profissão de paisagista. Paisagismo pode ser realizado por qualquer pessoa, pois não há impedimentos legais sobre os profissionais que trabalham com a paisagem, uma vez que esse termo comumente é associado à jardinagem. A formação do profissional que trabalhará com a paisagem dependerá do tipo de projeto a ser realizado e a necessidade de aprovação em órgãos competentes, como prefeituras e entidades ambientais. Uma vez que um profissional formado em arquitetura e urbanismo atua como arquiteto paisagista, ou arquiteto da paisagem, todo o conhecimento teórico e prático e toda a lógica de projeto da arquitetura são aplicados em projetos de parques, praças, ruas, fachadas, jardins, proteção do patrimônio histórico e na pesquisa científica.

AECweb – Como essa formação auxilia o profissional?

Pavanelli – A formação em arquitetura e urbanismo auxilia na resolução de fluxos de pedestres e veículos, acessos, setores do projeto, mobiliário, vegetação, topografia, drenagem, irrigação, relação entre os elementos construídos e não construídos, entre outros. Além disso, arquitetos e urbanistas são os responsáveis técnicos que assinam esses projetos, e a legislação brasileira confere a esses profissionais a atribuição legal de trabalhar com arquitetura da paisagem. Gosto de pensar que atuamos como ‘maestros’ e ‘maestrinas’, responsáveis por organizar todas as atividades a serem realizadas e as equipes a serem envolvidas nesses projetos, com harmonia entre os diferentes profissionais e o gerenciamento das obras.

AECweb – Há cursos de formação complementar para trabalhar com arquitetura da paisagem?

Pavanelli – Ao contrário do que acontece em outros países que possuem uma graduação específica em arquitetura paisagística, no Brasil essa profissão se soma às atividades de arquitetos e ao escopo de trabalho dos urbanistas em uma única graduação generalista e multifuncional. A formação complementar e continuada é importante para atualização do profissional e maior conhecimento teórico e prático. E, ainda, auxilia no contato com outros profissionais da mesma área. Em outros países essas três formações acontecem de forma independente, porém sempre correlacionadas. Cabe ao profissional buscar quais conhecimentos adicionais são necessários para sua área de atuação, a depender de seus objetivos profissionais, como acontece em outras profissões, especializando-se continuamente.

AECweb – Qual a diferença entre o arquiteto paisagista e o paisagista formado em cursos técnicos?

Pavanelli – Todas as profissões que se centram na paisagem como objeto de estudo podem trabalhar conjuntamente. Reforço que, no Brasil, a elaboração de projetos de arquitetura da paisagem é uma atribuição exclusiva de arquitetos e urbanistas, que assinam projetos, participam de licitações e concursos de projeto e se amparam profissionalmente no Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU). Portanto, o arquiteto e urbanista pode projetar e implantar mobiliário, iluminação, vegetação e elementos construídos, como quiosques, banheiros e paraciclos, e fazer intervenções urbanas, como alterações no sistema viário, implantação de ciclovias e ciclofaixas, criação de estacionamentos, além de propor alterações no zoneamento urbano e rural.

Todas as profissões que se centram na paisagem como objeto de estudo podem trabalhar conjuntamente. Reforço que, no Brasil, a elaboração de projetos de arquitetura da paisagem é uma atribuição exclusiva de arquitetos e urbanistas
Mario Henrique Felgueira Pavanelli

AECweb – Quais os campos de trabalho para o arquiteto e urbanista que atua com arquitetura da paisagem?

Pavanelli – O arquiteto e urbanista pode trabalhar em múltiplos campos diferentes, como: projetos de arquitetura paisagística privados (casas, lojas, edifícios, instituições, entre outros); projetos públicos (ruas, parques, praças e reservas ecológicas); planejamento urbano e ambiental (plano diretor, plano de paisagem, plano de arborização, estudo de impacto ambiental, estudo de impacto de vizinhança, plano de drenagem, lei de zoneamento, planos ambientais). Trabalha, também, em projetos voltados ao patrimônio histórico e cultural; projetos arquitetônicos que também empregam soluções de paisagem, como projetos sustentáveis; criação e requalificação de espaços públicos; projetos para bacias hidrográficas, proteção de rios, entre outros. Além disso, esse profissional pode trabalhar em prefeituras, órgãos governamentais, organizações sem fins lucrativos, empresas privadas de diferentes setores, docência, pesquisa científica, entre outros.

AECweb – Trata-se de atividade profissional bem remunerada?

Pavanelli – Não necessariamente é uma atividade bem remunerada. A remuneração do profissional depende de sua formação, estágios que realizou, envolvimento com a profissão e com o mercado, área de atuação escolhida, se trabalha de forma independente, com sócios ou para outro profissional, cidade em que reside, cargos que ocupa, entre outros fatores. Uma das questões que mais incide sobre a remuneração são os projetos que são realizados e os clientes. O fato é que, em grande maioria, os projetos são jardins particulares, sejam residenciais, comerciais ou institucionais.

AECweb – Na prática, o que isso significa?

Pavanelli – Muitas vezes, os contratantes não reconhecem a importância de um projeto de arquitetura da paisagem, generalizando tudo como ‘paisagismo’ ou ‘jardinagem’, algo mais superficial e sem os devidos cuidados arquitetônicos. Muitas empresas de jardinagem e venda de plantas centralizam seu trabalho na execução de jardins em larga escala, faturando na quantidade de ‘projetos’ realizados. Não há qualquer preocupação com os elementos construídos, fluxos de usuários, custo-benefício e outros tópicos cruciais para um bom projeto de arquitetura da paisagem.

AECweb – Como o arquiteto e urbanista pode alcançar sucesso profissional trabalhando com arquitetura da paisagem?

Pavanelli – Para o sucesso profissional do arquiteto e urbanista que trabalha com arquitetura da paisagem, é importante a interação com outros profissionais de sua profissão e de outras áreas do conhecimento. Estar atualizado e se interessar por assuntos diversos são diferenciais que se refletem na qualidade projetual. Assim, estar inserido em diferentes redes de contato e trocas de conhecimento é fundamental. Em um mundo conectado, dependente das redes sociais e com elevado contingente de profissionais, é importante também divulgar seus trabalhos e dedicar-se em melhorar continuamente sua atuação profissional, sem deixar de lado a humildade e o respeito por outras profissões, clientes e usuários do espaço projetado.

AECweb – Quais as áreas de conhecimentos envolvidas na profissão?

Pavanelli – Cabe à formação dos arquitetos e urbanistas que trabalham com arquitetura da paisagem compreender conceitos ligados à biologia, ecologia, geografia, história, economia, sociologia, filosofia, artes, matemática, engenharia, design e outras áreas de conhecimento. Por isso, uma formação acadêmica generalista pode conferir conhecimentos sobre diferentes perspectivas, tendo como resultado um profissional com visão holística e que poderá especializar-se em temas nos quais possui maior interesse.

AECweb – O profissional deve dominar conteúdos relativos ao equilíbrio ambiental?

Pavanelli – Sim, com certeza. Cabe ao arquiteto e urbanista buscar uma relação harmoniosa entre meio ambiente urbano e meio ambiente natural. Por ter uma formação ampla, esse olhar cuidadoso é ensinado desde a graduação. Inclui preocupações, inclusive, em escala global, compreendendo os reflexos de seu trabalho nas mudanças climáticas. A crise climática deve ser combatida com soluções que se baseiam na natureza e seu processos, compreendendo todo o meio vegetal urbano, chamado de Floresta Urbana, como uma rede de infraestrutura, que chamamos de ‘infraestrutura verde’, ou ainda ‘infraestrutura verde e azul’, compreendendo também os cursos d'água.

Cabe ao arquiteto e urbanista buscar uma relação harmoniosa entre meio ambiente urbano e meio ambiente natural. Por ter uma formação ampla, esse olhar cuidadoso é ensinado desde a graduação
Mario Henrique Felgueira Pavanelli

AECweb – Há, no país, cursos e congressos frequentes que contribuem para a atualização do profissional?

Pavanelli – Sim. A Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas, a ABAP, fundada em 1976, promove cursos de formação, concursos de projeto, concursos estudantis, premiações, projetos culturais, divulgação de conteúdos e outras ações. Realiza importantes encontros de profissionais, como o Congresso Internacional de Arquitetura da Paisagem (CIAP), que terá sua 7ª edição em Curitiba (PR), nos dias 27, 28 e 29 de maio de 2024, e o Encontro Nacional de Ensino de Paisagismo nas Escolas de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (ENEPEA), ocorrido pela última vez em 2022, sua décima sexta edição. Além disso, outras entidades colaboram com cursos e congressos que auxiliam na formação continuada dos arquitetos e urbanistas que desempenham suas atividades profissionais ligadas à arquitetura da paisagem.

Colaboração técnica

Mario Henrique Felgueira Pavanelli  – Arquiteto e Urbanista pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e mestre em Planejamento Urbano pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Diretor de Comunicações da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP). Pesquisador e coordenador Administrativo do Observatório do Espaço Público da Universidade Federal do Paraná (OEP UFPR). Atua em projetos de arquitetura, arquitetura da paisagem, arquitetura de interiores e planejamento urbano. É professor universitário.