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Como se tornar um profissional de meio ambiente na construção civil?

Pressão de investidores e financiadores do setor por ações na área ambiental vai demandar pessoas cada vez mais qualificadas para atuar em construtoras, incorporadoras, fornecedores e em todos os elos da cadeia produtiva

Publicado em: 07/11/2022

Texto: Eric Cozza

foto de uma pessoa segurando uma espátula e uma tabua com argamassa líquida em cima
Profissional deve mesclar conhecimento técnico e da legislação ambiental com habilidades para gestão de pessoas, visão holística, detalhismo e organização (Foto: Shutterstock)

Conceito que engloba responsabilidade ambiental, social e corporativa, o ESG (environmental, social and governance, em inglês) tem mobilizado construtores e incorporadores, preocupados com a hipótese de perderem eventuais investidores ou financiadores por falta de iniciativas nessas áreas.

Os profissionais de meio ambiente na construção civil agradecem. Depois de passarem anos justificando investimentos e esforços em sustentabilidade, chegou a hora de serem demandados pela alta direção das empresas.

A prioridade agora é demonstrar aos bancos e grandes gestores de capital que a empresa mantém boas práticas em áreas como geração de resíduos, logística reversa, emissões de carbono, uso racional da água e eficiência energética.

"A etapa de convencimento da alta direção praticamente não existe mais. Agora são os empresários que estão pressionando os profissionais de meio ambiente”
Enga. Lilian Sarrouf

A notícia não poderia ser melhor para quem atua na área. “Parte dos construtores já estava mobilizada há algum tempo, mas é um movimento diferente do que se costumava verificar no passado”, revela a Enga. Lilian Sarrouf, mestre em gestão integrada de meio ambiente e segurança e saúde e consultora técnica da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e do SindusCon-SP. “A etapa de convencimento da alta direção praticamente não existe mais. Agora são os empresários que estão pressionando os profissionais de meio ambiente.”

FORMAÇÃO

Engenharia civil ou ambiental, arquitetura e tecnologia em construção são os cursos superiores mais frequentados pelo pessoal de meio ambiente no setor. Mas há também espaço no mercado para profissionais de nível técnico.

A oferta de pós-graduação e cursos livres é imensa. O desafio, portanto, não é encontrar, mas saber selecionar entre as várias opções existentes. “O leque é enorme porque existem muitas especialidades envolvidas”, afirma a arquiteta Daniela Corcuera, professora e consultora em certificação ambiental.

“O profissional pode atuar em muitos campos, que vão desde os processos de licenciamentos, mitigações de impactos ambientais até especialidades técnicas como ventilação natural ou simulações térmicas, por exemplo.” Por isso, na hora de escolher a formação continuada, a dica é pesquisar bastante e, se já estiver atuando na área, encontrar algo que esteja próximo à atividade desenvolvida.

Uma outra recomendação importante para quem pretende atuar com sustentabilidade na construção é possuir alguma experiência prática em canteiros. “Entender a dinâmica das obras vai ajudar o profissional a desenvolver processos compatíveis com a realidade da produção”, explica Lilian.

LEGISLAÇÃO

Compreender os aspectos legais que envolvem a atividade também é um passo relevante para quem deseja atuar na área de meio ambiente. Há leis, normativas, códigos e determinações nas três esferas: municipal, estadual e federal.

Conhecer, por exemplo, a Política Nacional de Meio Ambiente é um requisito básico. A mesma relevância possui a Resolução Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) nº 307, que estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil.

E, apesar de não ser uma legislação, é recomendável estudar a série 14.000 da ISO (International Organization for Standardization), que é voltada para o meio ambiente e apresenta diretrizes para auditorias, avaliação do desempenho ambiental, rotulagem e análise do ciclo de vida dos produtos.

“Não dá para atuar com sustentabilidade sem acreditar na necessidade de defesa e proteção do meio ambiente. Temos agora um grande desafio de descarbonizar a construção civil”
Arqa. Daniela Corcuera

CERTIFICAÇÃO

Instrumento de melhoria e avanço setorial? Receita de bolo? Referência para impactar um determinado público-alvo? Ação institucional ou de marketing? Seja qual for a sua visão pessoal sobre o assunto, o fato é que o profissional de meio ambiente precisa conhecer as principais certificações disponíveis no mercado da construção. E estudar o assunto, sim, vale muito a pena. “Alguns cursos voltados para determinadas certificações possuem nível similar a uma pós-graduação”, afirma Lilian.

Especialista no assunto, Daniela chama atenção para algumas distinções entre os selos encontrados no País. Para a arquiteta, é fundamental saber separar as certificações de caráter nacional e internacional, entender a sua finalidade – há selos para questões específicas ou mais voltados para determinados requisitos – e, em especial, ter ciência do grau de independência de cada certificação. “Um selo com avaliação de 3ª parte evita eventuais conflitos de interesse, pois quem faz a verificação é um terceiro, ou seja, alguém que não é o responsável pelos critérios ou pelo processo de certificação”, comenta.

Veja abaixo algumas das opções disponíveis no mercado nacional:

AQUA-HQE: desenvolvido a partir da certificação francesa Démarche HQE (Haute Qualité Environnementale) e aplicado no Brasil pela Fundação Vanzolini.

EDGE: administrado pelo Green Business Certification Inc.(GBCI), é um sistema de certificação de edifícios ecoeficientes.

LEED: sigla para leadership in energy and environmental design (em português, liderança em energia e design ambiental). Criado pelo USGBC (United States Green Building Council), abrange todo o empreendimento. Possui foco na eficiência energética.

Selo Casa Azul: classificação socioambiental dos projetos habitacionais financiados pela Caixa Econômica Federal.

PROCEL Edifica: programa governamental para promover a eficiência energética.

CONTEÚDOS DE REFERÊNCIA

Se a oferta de cursos e pós-graduação na área de sustentabilidade é rica e variada, pode-se dizer o mesmo dos livros, manuais, cartilhas, ferramentas e conteúdos disponíveis – vários deles de forma gratuita – sobre o assunto.

Há livros clássicos na área como, por exemplo, o “Cradle to Cradle – Criar e recriar ilimitadamente”, “Un Vitruvio Ecológico – Principios y Práctica del Proyecto Arquitectónico Sostenible” (em espanhol), o “The Green Studio Handobook” (em inglês) e “O Desafio da Sustentabilidade na Construção Civil” (em português).

Separamos também 10 conteúdos de ordem prática e informativa:

1) ESG no Segmento de Obras Industriais e Corporativas
2) Construções Verdes – Os Desafios e Vantagens das Construções Sustentáveis
3) Guia orientativo das normas de conservação de água, fontes alternativas não potáveis e aproveitamento de água de chuva em edificações
4) Guia Interativo de Eficiência Energética em Edificações
5) CECarbon – Calculadora de Consumo Energético e Emissões de Carbono na Construção Civil
6) Esquadria com foco em eficiência energética – Guia orientativo para projetos de edificações eficientes
7) Gestão Ambiental de Resíduos da Construção Civil – Avanços Institucionais e Melhorias Técnicas
8) Guia Metodológico para Inventários de Emissões de Gases de Efeito Estufa na Construção Civil – setor edificações
9) Madeira – Uso sustentável na construção civil
10) Aquisição Responsável de Madeira na Construção Civil – Guia Prático para as Construtoras

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PERFIL DESEJADO

Mas quais são, afinal, os principais requisitos exigidos desse profissional? Confira 5 habilidades e competências necessárias para a função.

1) Ser apaixonado pelo tema: “não dá para atuar com sustentabilidade sem acreditar na necessidade de defesa e proteção do meio ambiente”, afirma Daniela. “Temos agora um grande desafio de descarbonizar a construção civil”, completa a arquiteta. Isso não significa ser radical e muito menos minimizar ou excluir as variáveis econômicas da discussão. Pelo contrário, considerá-las é parte fundamental do trabalho.

2) Curiosidade e proatividade: a explosão da tendência de ESG é um exemplo típico do dinamismo da área. Isso exige profissionais proativos e ávidos por novas soluções e meios para integrar as necessidades de produção e, ao mesmo tempo, de proteção do meio ambiente.

3) Bom relacionamento: para atuar na construção, além dos diferentes departamentos da empresa (financeiro, jurídico, produção, assistência técnica etc.) a natureza da atividade pressupõe a convivência estreita com equipes de obras, fornecedores, clientes, fiscais, vizinhança. Saber lidar com pessoas é fundamental.

4) Visão holística: não existe sustentabilidade desvinculada, por exemplo, de qualidade ou segurança e saúde do trabalho. Quanto mais os princípios ambientais estiverem enraizados e permearem a organização, melhor vão funcionar. Isso demanda uma visão holística do profissional da área, alinhada com os objetivos da empresa.

5) Detalhismo e organização: a interface da sustentabilidade, por exemplo, com a área jurídica, exige muita atenção. E vai além. Sabe aquela árvore que o profissional de meio ambiente batalhou para que não fosse arrancada no canteiro? É preciso ficar de olho nela até bem depois da conclusão das obras. Uma remoção indevida, mesmo que não tenha sido realizada pela construtora pode render prejuízo e boas dores de cabeça. Para controlar detalhes desse nível, só há uma saída: controle e organização.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

Daniela Corcuera – Arquiteta e mestre em arquitetura sustentável pela FAU-USP. É consultora na área de certificações ambientais, materiais de construção e projetos. Diretora da empresa Quanta Studio, é consultora do Banco Mundial/IFC para difusão e alavancagem da construção ecoeficiente no Brasil, com certificação EDGE. Ministra diversos cursos de atualização profissional e pós-graduação e é docente do Instituto Presbiteriano Mackenzie, Belas Artes, FAAP, SENAC, INBEC e AEA.
Lilian Sarrouf – Engenheira civil pela Escola de Engenharia Mauá e administradora de empresas pelo Mackenzie, é mestre em gestão integrada de meio ambiente e segurança e saúde pelo SENAC-SP. Consultora técnica da CBIC e do SindusCon-SP, coordena o Comitê do Meio Ambiente, Segurança e Produtividade e o grupo de trabalho de Pós Obra da entidade paulista. Também é gestora do ABNT CB002 – Comitê Brasileiro da Construção Civil da ABNT.