Como se tornar engenheiro de segurança do trabalho em obras?

Fazer a diferença em um ambiente que, muitas vezes, resiste ou cumpre de forma burocrática as ações determinadas é o grande desafio desse profissional na construção civil

Publicado em: 24/05/2022

Texto: Eric Cozza

engenheiro de segurança visto de costas e equipado com itens de segurança
Liderança e capacidade de influenciar outros profissionais no canteiro são fundamentais para o sucesso de um trabalho cuja função primordial é salvaguardar vidas (Foto: Shutterstock)

Existe qualidade sem segurança do trabalho? Há obra bem construída sem preocupação com a integridade das pessoas que a executam? Será que custa mais caro fazer direito? Pensar nos processos e torná-lo mais seguros prejudica a produtividade? A resposta para todas essas questões é não.

E podemos incluir mais uma pergunta, que não tem uma resposta exata: quanto vale uma vida perdida em um canteiro de obra? É com tais questões em mente que precisa atuar um bom engenheiro de segurança do trabalho na construção civil.

Quem já viveu o trauma de vivenciar um acidente fatal em uma obra sabe que não se trata apenas do prejuízo financeiro, do valor de indenizações ou do custo da eventual paralisação das atividades. A carga emocional é pesada, assim como sensação de perda e derrota.

RESPONSABILIDADE POR VIDAS

“O engenheiro de segurança traça um propósito em sua carreira: salvaguardar vidas, proteger as pessoas e fazer com que elas trabalhem de forma mais racionalizada, sem riscos”, afirma o Eng. José Carlos de Arruda Sampaio, diretor da JDL Qualidade, Segurança do Trabalho e Meio Ambiente.

E tamanha responsabilidade extrapola o vínculo com a própria companhia empregadora. “O engenheiro de segurança presta um serviço especializado, normatizado pelo Ministério do Trabalho e Previdência”, aponta Sampaio. “Quando você dá seu nome para uma empresa, passa a ser responsável pelas ações e o sistema de segurança do trabalho como um todo”, prossegue o engenheiro. “Se a companhia não valoriza nada disso, o profissional deve avaliar, inclusive, a pertinência de aceitar a função”, completa.

FISCALIZAR NÃO BASTA

Conhecer a cultura da empresa na qual se pretende atuar, portanto, é fundamental para quem deseja ingressar na profissão e evitar frustrações logo de cara. Afinal, o bacana nessa área é poder atuar de forma propositiva e não como mero ‘capataz’ ou verificador de equipamentos obrigatórios.

“O engenheiro deve participar das soluções para os problemas, mobilizando as equipes em prol da segurança. A postura meramente fiscalizatória não resolve muita coisa”, afirma o Eng. Gianfranco Pampalon, consultor técnico do Seconci-SP e professor em cursos de pós-graduação em engenharia de segurança do trabalho.

De acordo com o Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), estudos, projetos, planos, relatórios, laudos e quaisquer outros trabalhos ou atividades relativas à engenharia de segurança do trabalho só terão valor jurídico quando seus autores forem engenheiros ou arquitetos, especializados em engenharia de segurança do trabalho e registrados nos respectivos conselhos profissionais: CREA no caso de engenheiros e CAU para os arquitetos. Ou seja, a formação em arquitetura ou engenharia é mandatória, assim como uma especialização / pós-graduação.

EXEMPLOS DE CURSOS DE ESPECIALIZAÇÃO EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA

Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
Instituto Federal de Pernambuco
Instituto Mauá de Tecnologia
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
PUC Campinas
Universidade do Estado do Amazonas
Universidade Federal Fluminense

O engenheiro deve participar das soluções para os problemas, mobilizando as equipes em prol da segurança. A postura meramente fiscalizatória não resolve muita coisa
Eng. Gianfranco Pampalon, consultor técnico do Seconci-SP

COMPETÊNCIAS E HABILIDADES PARA O ENGENHEIRO DE SEGURANÇA DO TRABALHO

Mas, afinal, quais são os pré-requisitos e as habilidades valorizadas pelos contratantes na hora de selecionar esses profissionais?

1) Liderança e capacidade de influenciar pessoas

Esse talvez seja o principal desafio na função. Mesmo que haja comprometimento da alta direção da empresa – algo fundamental para a eficiência do trabalho – não é tarefa fácil convencer as demais lideranças e a equipe de obra sobre a importância do assunto. “Líder é aquele que consegue manifestar no outro o desejo de fazer, ou seja, inspirar as pessoas e possibilitar que elas entendam o propósito daquela ação”, afirma Sampaio. Fazer a diferença em um ambiente refratário às mudanças ou que apenas cumpre de forma burocrática as ações determinadas é o grande desafio desse profissional. As empresas que valorizam a segurança do trabalho vão selecionar seus quadros de olho nisso.

2) Domínio técnico e vivência de obra

Engenheiros civis e arquitetos devem possuir uma base de conhecimentos técnicos relacionados à construção civil. Se, eventualmente, a faculdade não foi suficiente nesse sentido, o profissional deve buscar cursos de extensão universitária e experiências práticas para complementar a formação. Essa bagagem vai ajudar na hora de buscar uma colocação nas empresas. Afinal, como caracterizar os riscos de um processo que não se conhece? “O engenheiro de segurança deve conhecer o projeto que está em execução e participar do processo desde o início, desde o planejamento de ataque”, afirma Sampaio.

Líder é aquele que consegue manifestar no outro o desejo de fazer, ou seja, inspirar as pessoas e possibilitar que elas entendam o propósito daquela ação
José Carlos de Arruda Sampaio, diretor da JDL Qualidade, Segurança do Trabalho e Meio Ambiente 

3) Comunicação verbal e escrita

Saber se comunicar com diferentes tipos de pessoas é essencial nessa função. “O engenheiro de segurança precisa saber conversar com os trabalhadores”, afirma Pampalon. “E não apenas falar, escutá-los também, com atenção e respeito, sabendo que há diferentes níveis de percepção e entendimento em qualquer grupo”, completa. Escrever de maneira correta e saber interpretar textos também são habilidades cada vez mais valorizadas. Tem sido frequentes os relatos de problemas em obras decorrentes de troca de mensagens truncadas ou mal escritas, assim como a leitura equivocada de procedimentos e instruções. São habilidades que poderão ser testadas pelos contratantes.

4) Aperfeiçoamento constante e curiosidade profissional

A industrialização da construção e o processo de digitalização em andamento no setor são aliados da segurança do trabalho. Os riscos costumam aumentar quando o sistema construtivo é mais artesanal, pois os processos não são tão bem definidos. “Estudos na Europa indicam que 60% dos acidentes poderiam ser evitados com melhores decisões tomadas na etapa de projeto”, afirma Pampalon. Isso exige dos profissionais aperfeiçoamento constante e curiosidade para conhecer novas tecnologias e processos construtivos.

A mesma coisa se refere à digitalização. “Hoje, com um celular ou tablet, você registra não conformidades e pode compartilhar a informação imediatamente”, explica o professor. Já existem também sistemas para análise e gerenciamento de riscos e câmeras gerenciadas por inteligência artificial, visando a detecção de problemas e irregularidades em campo. O BIM (Building Information Modeling) e a possibilidade de visualizar, ainda na fase de projeto, situações de obra e seus respectivos riscos em 3D é outra nova e estimulante ferramenta. O profissional precisa, pelo menos, conhecer tais tecnologias.

As pessoas também perguntam: O que faz um administrativo de obras?

5) Compromisso com a qualidade e o meio ambiente

Há uma relação indissociável entre segurança do trabalho, qualidade e meio ambiente. A padronização dos processos, por exemplo, um dos pilares na implementação de programas de qualidade, é parte central da avaliação dos riscos de acidentes e doenças do trabalho. É com base nesses procedimentos que o engenheiro de segurança desenvolve os planos de ação para prevenção. Em relação à sustentabilidade, é preciso entender que as obras são potenciais geradoras de problemas ambientais, caso não haja uma gestão adequada. A manipulação de materiais perigosos, tóxicos e a geração de diferentes tipos de resíduos, por exemplo, podem prejudicar tanto o meio ambiente quanto a saúde dos trabalhadores. O profissional de segurança do trabalho deve incorporar tais assuntos como parte central da sua atividade.

Carreira: qual é a sua sugestão de tema para o nosso espaço dedicado aos profissionais de Engenharia Civil, Arquitetura e Construção?

Colaboração técnica

José Carlos de Arruda Sampaio – Engenheiro civil e de segurança do trabalho com especialização em qualidade, produtividade, segurança do trabalho e meio ambiente, é autor dos livros “Manual de Aplicação da NR-18” e “Programa de Condições e Meio Ambiente do Trabalho na Indústria da Construção – PCMAT”. Ex-pesquisador da Fundacentro, é diretor da JDL Qualidade, Segurança do Trabalho e Meio Ambiente, que já atendeu centenas de empresas de diferentes setores industriais em todo o Brasil.
Gianfranco Pampalon – Engenheiro civil e de segurança do trabalho, ex-auditor fiscal do trabalho e atual consultor técnico do Seconci-SP (Serviço Social da Construção Civil do Estado de São Paulo). Professor em cursos de pós-graduação em engenharia de segurança e de medicina do trabalho. Treinamento de Competente Person / Climber Rescuer – Houston/Texas pela Capital Safety.